Contaminação e silêncio

 Maraíza Labanca. Foto: Fernanda Xavier

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Maraíza Labanca nasceu e vive em Belo Horizonte. É poeta, ensaísta e conduz oficinas de escrita individuais e coletivas no Espaço a’mais — ateliê de escrita, arquitetura e psicanálise que existe há menos de um ano, mas que já está em pleno funcionamento. Sob os cuidados de Maraíza e de Camila Morais (arquiteta, tradutora e escritora), o Espaço está localizado em uma vila no Santa Efigênia coabitada pela Cas’a’screver, parceira em alguns trabalhos, e pela galeria de arte Casa — Obras sobre Papel.

Lá, Maraíza oferta oficinas de escrita e pequenos cursos relacionados à literatura, à psicanálise, à filosofia e a outras artes conduzidas por ela ou por convidados. Ela conta que sua proposta é oferecer o que não cabe nas instituições, sobretudo no que diz respeito à prática da escrita, a pôr a mão na massa das palavras, em “exercícios de liberdade” para além de toda técnica e mesmo da armadura teórica, burocrática ou comercial que contamina os lugares da literatura (e das artes em geral) que existem por aí.

Maraíza é, ainda, junto a Camila Morais e a Janaina de Paula, uma das editoras da Cas’a edições, voltada para publicação de livros de poemas, de contos e de ensaios em torno de temas relacionados à literatura, à psicanálise, à filosofia e às artes. Sua formação foi desde sempre dedicada à literatura, desde a graduação até o doutorado em Estudos Literários, concluído em 2016 na UFMG.

Por se relacionar com a palavra e com o texto de formas tão distintas e, ao mesmo tempo, complementares, Maraíza compreende sua própria produção a partir do ponto de vista de quem escreve e edita. O processo de criação de Rés — livro das contaminações, com Erick Costa (2014, Cas’a edições), por exemplo, é de uma profundidade rara e consciente e preciosa. Conta-nos a autora: “Gosto de pensar numa formulação do escritor Juliano Pessanha, presente no texto ‘Como fracassar em literatura’, que nunca me saiu da cabeça. É assim: ‘Quem tem milhares de ideias e de projetos é o publicitário; o escritor real tem, muitas vezes, apenas uma ferida cujo nome ele desconhece, mas que lhe concede silêncio e uma palavra gaga e balbuciante’. É isso. É exatamente isso!”, define.

Assim, Rés — livro das contaminações nasce justamente da ferida, neste caso, compartilhada com Erick Costa: “Ele e eu passávamos, ambos, por momentos difíceis na vida pessoal e tínhamos afinidades literárias muito fortes e, na ocasião, trabalhávamos juntos. Isso em 2012 ou 2013, acho. Então propus a ele que nos ‘oficinássemos’ a nós mesmos; quer dizer, que nos puséssemos a escrever juntos. Ele me mandou um primeiro poema, que me chegou como um farol, uma promessa. A partir disso, eu escrevi o meu, que, em seguida, também lhe remeti, contaminando o próximo que ele iria escrever. E assim por diante. Veja: o leitor rapidamente se convertia em escritor”, explica.

Sobre o processo de escrita conjunta, Maraíza conta que a contaminação se deu em vários âmbitos: “às vezes uma palavra bastava, às vezes um ritmo, às vezes um verso, às vezes uma imagem, às vezes um corte era o ponto de partida. Quase nunca era a temática. Com o tempo, os poemas foram ganhando uma unidade. E aí, contaminados, já não se pareciam com as coisas que escrevíamos antes, já não se pareciam conosco, enfim. Era como se estivéssemos, ali, perdendo a autoria, apagando nossos nomes, para que a autoria passasse, então, a ser do livro mesmo. Depois, com os poemas já escritos, passamos a nos encontrar para editar os textos. Nesse momento, interferimos ainda mais nos poemas um do outro. Essa interferência, em vez de uma ‘invasão’, eu a recebia como uma generosidade, um dom. Ler os poemas, reescrevê-los: doar a sua palavra ao outro. Corromper a integridade das linhas era, então, um gesto de bondade, ao mesmo tempo que um método radicado no abandono”, conclui.

Antes de Rés, Maraíza publicou Refratário (2012 — Prêmio literário de melhor livro de poesia da Região Sudeste pela Livraria Asabeça), que tem edição esgotada, sem previsão de nova impressão. Atualmente a autora está trabalhando em dois novos livros. Um deles será sua primeira publicação em prosa: Arbusto. Trata-se de um diálogo atemporal entre duas mulheres imersas em uma atmosfera vegetal que parece percorrer tudo, inclusive a língua que elas inventam para abordar as coisas e seus próprios corpos. Vê-se, nesse diálogo, que tudo se torna matéria de escrita, escrita essa que tem como centro a seguinte formulação: “ter terminações nervosas no pensamento”, que, por sua vez, remete às nervuras das plantas às quais seus corpos parecem se misturar.

O outro é um novo livro de poemas, já quase concluído e intitulado Não se parte um abismo ao meio, que deve sair ainda neste ano pela Cas’a edições. Alguns poemas desse livro nasceram da experiência de condução de oficinas de escrita coletivas, isto é, de exercícios de liberdade que marcaram e contaminaram sua poesia.

Literatura em primeira mão

Fique agora com dois poemas da escrita, um retirado do livro de estreia, Refratário, já esgotado, e o outro do inédito Não se parte um abismo ao meio:

poema [Refratário]

na ponta o hiato duro

faísca –

 

(soldava o medo

– um selo de virgens –

tornava a cindir.

 

o que fulge na véspera

é esta tinta escura).

 

adensamento que aparta o sentido.

 

o poema degrada,

 

modela – o amor –

modula um nome.

 

Veias [Não se parte um abismo ao meio]

A gente continua a falar do amor,

ainda que eles todos passem por baixo

das pontes, desabados, por baixo dos

olhos, secos de lágrimas; eles passam sob

esse barco, mas são uma única água, como

um sangue que se renova, vivo, entre as veias

e as artérias adentro, e por dentro do ventre, casa,

que o expele mês a mês como para se livrar dele,

podre, feito o amor que passa por debaixo dos corpos,

doido, dos corpos feitos para o abate, como a morte

passa rente à pele, todos os dias, e ao largo

dela, mas a gente não sabe, ou desvia

os olhos, e continua a falar do amor.

 

A voz do autor

Escute os poemas na voz da escritora.

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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