A contracultura, a fermentação de alimentos e a cozinha probiótica

 Foto: Markus Spiske via Unsplash

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Me pergunto como começar um texto sobre comer e existir.

Enquanto hoje é domingo, chove de tarde.

Estou dentro de uma cafeteria na praça da Liberdade e imagino quantas vezes isso já se repetiu na vida de quem escreve. Experimento um cappuccino vegano e essa onda imensa de nomes faz o mundo pensar, querendo ou não, sobre a filosofia do alimento, a política e as suas urgências.

Enquanto ontem renasceu o prenúncio do carnaval, ocupamos a rua. Como nas insatisfações é preciso fazer igual. Uma pessoa se aproximou de mim, afirmando:

“ — Você…Fermentação!”

Sim.

Esse é o reconhecimento que vem da confiança no invisível.

Cultivar bactérias nos alimentos (também é confiar no invisível) em alguma camada é um exercício de resistência e é principalmente acreditar que, aos poucos, cada vez mais pessoas farão o mesmo no mundo inteiro.

Viemos das bactérias. Somos suas descendentes. Nosso corpo é povoado desses microorganismos por natureza, com sua inteligência simbiótica [Sim. Bio] sem elas não existiríamos e nem existiremos.

Pode parecer estranha a paixão pelo tema e nos encontros sociais diversos, formais ou não, quando percebo, me vejo contando sobre a importância de uma rotina que inclua o uso de algum tipo qualquer de fermentados. Já sei que essa lucidez que nos faz entender sobre a harmonia e sobre a reconexão com o ecossistema só acontecerá quando novamente estivermos em coexistência com esses seres microscópicos que ocupam nossos intestinos, pele, vias respiratórias, estômago e sistema nervoso. Sem eles não podemos aproveitar a vida e nem teríamos imunidade para habitar esse planeta.

Por me fragilizar a saúde, há alguns anos atrás fiz um tratamento medicinal e holístico. A nutricionista não pertencia a nenhum plano de saúde, detalhe e problema da macropolítica. Apesar disso, quis arriscar e ela, conhecendo muito bem sobre disfunções hormonais, me prescreveu um processo de três meses em que o investimento seria bastante alto e me gerava muita revolta, tanto quanto pagar aquelas consultas e simultaneamente o plano, que não reembolsaria aquele atendimento. Pensava nas pessoas que ficam limitadas a tratamentos que muitas vezes não curam, além de reconhecer meus privilégios, decidi fazer algo e comecei a pesquisar formas caseiras de preparar probióticos. Precisava espalhar esse conhecimento e desmistificar o tema.

Caminho de ida sem volta.

Naquele momento, algo mudava minha vida para sempre.

Comecei uma pesquisa (que dura até hoje e provavelmente, infinita) incluindo receitas, artigos científicos e textos. Descobri um universo paralelo, uma cultura e uma contracultura dos alimentos em suas milhões de formas de fermentar.

Nas capitais brasileiras, uma contracultura.

O reaproveitamento dos alimentos excedentes em alguns mercados (interessados na dinâmica do zero desperdício) funciona como meio para esse diálogo. No campo, em pequenas comunidades, a fermentação é uma alternativa para conservar o alimento ao invés de perdê-lo. Uma cultura antiga exercida por muitos povos em todas partes do velho e do novo mundo.

Fermentar é um ato revolucionário e uma prática natural.

O açúcar é transformado em álcool e energia e esse processo pode ser simples e complexo. Cerveja, queijo, café, vinho, chocolate, todos filhos da fermentação com seus respectivos mapas metabólicos. O repolho, o rabanete, a cenoura e aquele que for criativo e inquieto certamente descobrirá que pode fermentar o que desejar em casa. A lactofermentação realizada pelos lactobacilos produz o ácido lático.

Muitos termos e essa conversa já começa a parecer estudo de biologia. Por que não? Quanto mais soubermos do que nosso corpo é capaz, mais empáticos podemos ser. Por enquanto, iniciamos uma caminhada a ser atravessada juntos e um diálogo para ser construído homeopaticamente, texto após texto. Daqui pra frente, seguiremos abordando essa forma de exercer um estilo de vida mais gentil consigo e com a sociedade, através do conhecimento sobre a cozinha probiótica. #fermenteseualimento

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

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  1. Muito bom Dani! A tomada de consciência sobre a fermentação dos alimentos e seus benefícios é imperativa! Parabéns pelo pioneirismo em trazer esse assunto de suma relevância! 🙂

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