Corpo é casa

 

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Casa é corpo e a cozinha, alma.
Lugar de encontro, estímulo dos sentidos, experiência e alquimia.
O alimento é – e será – motivo de festa, estudo, objeto de afeto, significação, infinitas possibilidades, desejos e entre outros, muitos motivos.
Sem deixar de mencionar aromas, sabores, histórias e receitas,
quando aparecem nesse campo vasto de direções, as sementes, raízes, seus códigos, outras partes e tudo que vem junto, tende a encontrar seu destino. O sentido: a natureza.
E o que sobra, pode e precisa retornar à terra (sempre quando for possível). Sobra é ponto de vista.
Alimento é revolução. Micropolítica da transformação.
Lixo é um tipo de desvio.
Distanciamento da sabedoria nata,
tal e qual
o curso de um rio
à caminho do mar,
desaparecer
antes de desaguar.
Esquecer para relembrar. Reciclar.
Re aproveitamento e re uso.
A Terra com seu ritmo, ensina sobre os ciclos e movimentos que sempre continuam.
E através da observação é possível, aprender a contemplar e agir.
Fonte inesgotável.
Memórias são acontecimentos.
Criação e recriação.
Células, moléculas, partículas, ondas, raios, sonhos, vida, vida. Vida. Verde, luz, flor, linguagem, aprendizagem,
escuro e clarão. Nesse caldeirão, intuir e mergulhar, movendo corpo e ideias na direção daquilo que é desejado.
Corpo é fluxo. Superfície, pele e veias. Vias e contingências. Contornos e cascos.
Cascas também são camadas, sempre (quase todas) comestíveis. Sementes tendem a buscar a terra para continuar o percurso.
Um modo simples do ciclo alimentar integrar-se ao natural é
compostar o que aparece feito sobra e o que a terra pode aproveitar, decompondo para produzir novos nutrientes.
Morrer para re nascer.
Novo broto, fruto de caroços vindos de uma fruta, re direciona a semeadura. Agricultura. Cultivo e colheita.
Alimento que enraíza, multiplica.
A compostagem é um meio de participação no ecossistema. Milhões de micro trabalhadores em rede, digerindo, criando espaço, oxigênio e nitrogênio para novas florestas, milhões de pequenos seres, agindo na dinâmica do meio ambiente e do equilíbrio.
Respiram. Descansam. Existem em comunidades.
São Mestres e maestros.
Luminosos fungos, abelha rainha, jasmim, algas, conchas, baleias,  
quartzos brilhantes, chuva, orvalho, neve, oceano.
A seiva no tronco, o doce do néctar.
Na pele do planeta, escorre uma lágrima de alegria.
Translação e rotação estrelar.
Eclipse é dança. E na fome, há um fogo em ação. Digestão e combustão.
Junípero, dente de leão, cardamomo, cacau, caramelo também, com licença. Comer é sensacional!
“O corpo é uma festa”. Princípio e fim. Sempre, um novo tempo. Ainda que o tempo seja uma invenção (talvez delírio conceitual) e o som, complementar ao silêncio (diga-se de passagem, medicinal), o amor é Universal.
Banho de ervas, banho de rio, cachoeira, oceano calmo.
Pássaros voam livres e todos, podem ser.
Coluna, vértebras, boca, língua e dentes. Saliva, sêmen.
Deixar vir algum devir.
Arquitetura da existência, percorrendo intestinos e vísceras, gases borbulhantes, líquidos multicoloridos: Fermentação pode ser fonte de energia; travessia, através do invisível desconhecido. cultura em rede, colônias em coexistência.
Chegamos em casa. Micro e macro cosmos reunidos, imenso território.
Corpo é soma. Corpo é casa.

 

Este texto é resultado da experiência pessoal e fruto de um encontro alegre. Espinoza define este conceito, sobre os acontecimentos reais, entre um ou mais campos, corpos ou sistemas quando são afetados pelas suas paixões e desejos compartilhados.
Disto, surgiu a relação – também social – de uma prática de compostagem coletiva com o Escritório de arquitetura mineiro, Libelo.la*, formado apenas por mulheres, compartilhando a manutenção e a rotina da sobra de alimentos orgânicos, produzida por nós e direcionada para a terra sem desvios.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

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