Cultive bactérias: lactobacilizemo-nos hoje e sempre

 

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Na geometria, a imagem de uma espiral. Na música, o Ritornelo. Na filosofia, conhecemos por devir, a energia pulsante do eterno retorno. Por essa mesma força, volto a escrever e o assunto define a lista de prioridades globais: o que comemos, escolhemos? Da forma que o alimento chega às nossas mesas, sabemos que percurso é esse?

A cultura da qual não se escapa.

Precisamos perceber o que vem disfarçado através de bonitas embalagens, grandes tamanhos de frutas geneticamente modificadas, o brilho artificial da cera usada para atrair as pessoas.

Quando ficar entendido que as bananas escurecidas e despencadas, definidas como feias e perdidas, estão prontas para um novo destino do qual chamamos de vinagre, faremos como o mágico que transforma coelho em flor.

Multiplicamos as bactérias no processo de oxidação, preparamos nossa medicina caseira, ressignificamos conceitos e essa mudança talvez só possa acontecer coletivamente.

Uma Temeridade ignorar as urgências e mergulhamos, experimentando um modo submarino sob águas turbulentas. Esta é nossa conjuntura e o país está em estado de emergência. Nós estamos. E desejamos emergir e revolucionar o que nos golpeia os direitos que são nossos por natureza. Comer é um direito de todos. Estar na cozinha é um meio de rever o que perdemos e o que resgatamos com o passar dos tempos, onde fazemos e pensamos que vai muito além do prato de comida.

Nessa | nossa | época em que a sensibilidade é um exercício a ser praticado, somos uma espécie de atletas da macropolítica, atravessando desafios e crises. “Tempo de partidos” e repartições públicas, estes modelos disfuncionais já estão caducos. Com licença poética, precisamos prosseguir, ainda que faltem metáforas, precisamos prosseguir e acessar nossas profundezas, afirmar nossas escolhas, passo a passo dessa travessia. Já sabemos, basta coragem.

Com atenção, desviamos de obstáculos, definimos permutas, manifestamos e consideramos nossos desejos. Menos supermercados e mais contato direto com os agricultores, micro empreendedores, fazedores, artesãos, artistas, alquimistas, biólogos, médicos, filósofos, todos estamos reaprendendo a co-existir, já que o sol gira igual a todos e o que muda são os pontos de vista e as prioridades de cada quem. Uns mais adentro, descobrindo como sossegar a tagarelice das mentes que se desligaram da ética, outros nas margens, reconectando com as raízes, relembrando os caminhos da simplicidade, pois também é tempo de mutirão nos quintais, hortas crescendo e ocupando lotes antes vagos, novas economias. Coletivos fortalecendo espaços alternativos de existir, plantar e colher.

Com atenção, descobrimos nossas nascentes, redesenhamos nossos mapas e nossas comunidades no micro e macro.

Dentro de nós e sobre nossas peles somos imenso terreno fértil. Um corpo social, um bioma, um grande ecossistema, desativando os podres poderes do egosistema. As pequenas e milhares de vidas que se multiplicam e fazem a manutenção do universo vivem digerindo o que nem imaginamos tamanha complexidade mesmo diante das grandes lentes. Cuidar das culturas vivas de fungos e lactobacilos é aprender a respeitar o tempo da respiração, a comunicação silenciosa e precisa entre muitas partes diferentes. É conhecer a empatia da natureza através de seus metabolismos. Tempo de observar mais, reintegrar os ciclos.

A fermentação é esse caminho. Também. Felizmente, faz lembrar Leonilson, multi artista cearense: “Na Neblina, o Bom Piloto”.

A fermentação voltou aparecendo com sua forte personalidade. Somos chamados de revivalistas. O estranhamento causado pelo sabor azedo que perturba. Lembrando que: comida azeda não é lixo.

Quando não sabemos conduzir um alimento de volta à terra, estamos modificando o equilíbrio do ciclo orgânico dos alimentos.

Lixo é apenas um desvio.

Portanto, fermentar é cultivar bactérias e multiplicar suas colônias para que retornem aos intestinos e composteiras e o ciclo da natureza se re-estabeleça em harmonia.

A visão parcial de que podemos nos desvincular ou de que somos separados daquilo que está ao redor é uma visão superficial, filosoficamente, uma ilusão. As experiências ao contrário disso, respondem que estamos unidos por um sistema, uma pele, uma imensa rede, com intermináveis fluxos. O que faço ao norte impacta ao sul. Vice versa.

Fermente seu alimento. Lactobacilizemo-nos hoje e sempre.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

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