Uma forma não-cruel de desejar a vida

 Capa do livro “Cruel Optimism”, de Lauren Berlant

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Desejo, pulsão, ou “drive”, é a característica inerente ao sujeito social de se articular em direção ao outro e ao mundo; trata-se da energia libidinal, destrutiva e prazerosa, que, segundo Freud, assume formas desde a nossa infância e, segundo Lacan, ultrapassa e atravessa os objetos que desejamos.

Com a separação da criança em relação à sua figura cuidadora, geralmente, a mãe, essa presença antes vinculada a mim, ao meu corpo, passa a ser vista como externa; ela é um Outro, de quem sou diferente e separado. Logo, o sujeito infante tenta reconstruir um substituto para aquele vínculo maternal: uma tentativa de encontrar e reencontrar, constituir e reconstituir um objeto de desejo.

Segundo Lauren Berlant, a criança [e o adulto] percebe que as gratificações dessa procura sempre vêm conjuntamente com ansiedades, dúvidas e decepções, porque encontrar ou reencontrar o objeto de desejo é sempre uma tarefa incompleta, que excede ao encontro, que falha ao alcançar o próprio objeto, necessitando de se articular e rearticular.

No entanto, ela escreve, mesmo que sempre falhando em sua promessa, o desejo ainda pode possibilitar prazeres em sua busca incessante. A insistência e capacidade de escapar de todo o controle é o que permite que o desejo crie novas possibilidades e narrativas, que permite que estejamos abertos ao novo e à novas experiências prazerosas, eróticas ou, mesmo, sexuais.

Para Berlant, no entanto, muitas pessoas não conseguem experienciar os benefícios da busca pelos objetos de desejo porque confundem o desejo libidinoso com “uma estabilidade e não-ambivalência que a vida íntima raramente pode prover. Adicionalmente, as pessoas são ensinadas a reconhecer como valiosos apenas aqueles desejos que tomam forma dentro das instituições e narrativas que reforçam convenções e tradições de propriedade”.

O desejo, dessa forma, passa por uma regulação, ensinada socialmente e aplicada pelo próprio sujeito na sua formação libidinosa. É aqui que entra a normatividade, isto é, todas os ensinamentos linguísticos que domesticam e promovem o território do que é dito possível ou devido: deve-se ser assim, viver assim. Dentro dessa normatividade, há o que Guattari chama de “economia subjetiva capitalística”, isto é, um modo de ser vinculado e validado pelo sistema capitalista contemporâneo.

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Segundo Guattari, a imposição de uma modo de ser e viver capitalístico é feita desde a infância sobre nós. Para ele, é uma forma de ser e viver baseados na culpa: somos exigidos constantemente a sermos uma referência maior, poderosa diante dos outros, e “à menor vacilação diante dessa exigência de referência, acaba-se caindo, automaticamente, numa espécie de buraco, que faz com que a gente comece a se indagar: ‘afinal de contas, quem sou eu? Será que sou um merda?”

“É como se nosso próprio direito de existência desabasse. E aí se pensa que a mulher coisa que se tem a fazer é calar e interiorizar esses valores. Mas quem é que diz isso?”. Para Guattari, nós mesmos aprendemos a nos disciplinarmos e inibirmos nossas outras possibilidades de viver, ser e, porquê não, desejar.

Em tempos neoliberais, o alvo é o controle do desejo: é preciso que se o sujeito deseje ser aquilo que o neoliberalismo impõe sobre ele. E o que o neoliberalismo impõe? A necessidade de eficácia, produção e manutenção dos sistema de poder. Trabalhando para manter a ordem da normatividade capitalista, o sujeito neoliberal deve sentir que está, na verdade, trabalhando para si mesmo, para o seu próprio desejo, escrevem Pierre Dardot e Christian Laval em “A nova ordem do mundo”.

Isso pode ser facilmente ilustrado pela onda de vídeos, livros de negócios e discursos sobre empreendedorismo radical que vemos no Brasil hoje. O canal “Fábrica de Motivação” publicou recentemente um vídeo que promete ensinar o “macete do sono”: um homem que diz dormir apenas 4h por dia e, por isso, pode trabalhar para ter um BMW. “E você dormindo 8h”, diz a descrição do vídeo — o vídeo, no entanto, não ensina, de fato, a dormir menos para ser mais “recompensado”.

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Na tentativa de nos conformamos com o que é normal, desejável ou mesmo ao modo de vida que parece poderoso, seguro e estável, ignoramos o nosso desejo — com medo dos riscos e as frustrações de desejar, perdemos a possibilidade dos prazeres cotidianos do desejo. A exigência impossível da norma capitalista resulta no que Berlant chama de otimismo cruel: acreditar que existe uma vida possível em parâmetros de vida que são impossíveis de serem alcançados.

O otimismo capitalista é cruel porque lança os sujeitos para uma vida onde a fantasia se torna apenas frustração e tristeza, e não experimentação e vivência.

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Um dos últimos podcasts do Mamilos foi sobre a falta de sexo. Alguns relatos de vidas sexuais frustradas abriram o caminho pra seguinte reflexão: o que é que consideramos um bom sexo? De que forma nos castramos ao considerar que o sexo bom é o sexo extremamente performático, com um gozo pornográfico e transcendental? Será que criamos parâmetros impossíveis para avaliarmos nossa vida sexual: o que, consequentemente, paralisa nosso desejo e nossa vontade de praticá-lo?

Essas questões, no entanto, não se limitam somente ao sexo: estamos inibindo o nosso desejo ao entregarmos nossas vidas às demandas excruciantes do capitalismo, e das noções cruéis do que seria uma vida de sucesso, de poder, de felicidade. Felicidade, inclusive, que parece só existir na ficção de um grand finale: somente se eu viver uma vida disciplinada para conseguir o que eu quero, com sacrifício e ordem, ao final, serei finalmente feliz. Ao final, na verdade, você encontrará uma vida pouco vivida e tediosa: me sacrifiquei tanto para quê mesmo?

A busca por segurança parece ser uma das forças que nos impede de viver, porque viver é estar sempre correndo um risco: risco de frustração, dor, tristeza, decepção. Estar com o outro, desejar com o outro, é desejar o inesperado e o misterioso, é brincar e aprender com o que está fora do nosso controle e assumir que nós mesmos não possuímos tanto controle assim.

Escutar o desejo é aprender uma possibilidade de viver juntamente ao risco, através do risco. É um poder de, diante daquilo que nos oprime e dos amedronta, dizermos que somos seres capazes de encontrarmos prazer e força, sem virarmos reféns do que o capitalismo [ou a heterossexualidade, o patriarcado, a cisgeneridade e a branquitude] diz que é desejável, seguro, preterível.

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É por isso que devemos nos perguntar: estamos escutando nosso desejo? Estamos aproveitando a vida, pensada não como um projeto, mas como uma experiência cotidiana, pequena, mas, exatamente por isso, grandiosa? Estamos sucumbindo ao medo de estarmos expostos ao outro, ou estamos arriscando, na medida que conseguimos e nos permitimos?

Escutar o desejo também é o primeiro passo para curar algumas das feridas. Muitas pessoas necessitam do sentimento de segurança devido à traumas e violências vividas no passado, pela crueldade de outras pessoas. Essa é, no entanto, uma pergunta que só pode ser respondida por aquele que carrega a ferida: de que forma posso tentar recuperar aquilo que me abriu para a dor? De que forma posso recuperar a vontade de viver e de estar com outros? Nessas casos, a presença de pessoas e da escuta de outros parecem abrir uma nova possibilidade de vida e de experimentação: precisamos construir junto com os outros o território em que queremos e tentamos viver, nossas concepções de alegrias e felicidades, gozos possíveis.

Seja na nossa vida sexual, ou seja na nossa vida social: precisamos abandonar as métricas “do sucesso” e “do sacrifício” que qualificam uma boa vida Em vez delas, podemos pensar nas “métricas” possíveis, isto é, nos prazeres e bons momentos que não estão ligados estritamente ao dinheiro e ao poder; à uma vida “bem-sucedida” ou ao um ideal de nos tornamos “invulneráveis”; mas, ao contrário, às nossas vulnerabilidades e a forma criativa como lidamos com elas; à presença instigante do outro e ao reconhecimento do nosso desejo [e do que também não queremos]; à aceitação de que nossos planos podem falhar e de que a frustração é uma parte constante da vida, de aprendizado sobre nós mesmos e sobre nossa convivência com outro.

Se não é o nosso desejo, entendido na sua pequena grandiosidade, que está orientando nossa vontade de vida, precisamos nos perguntar: o que está nos comandando? É a régua de quem que estamos usando para medir e qualificar nossa vida?

Num mundo que nos ensina a felicidade condicionada ao sucesso, à vitória e à distância do fracasso, reaprender a escutar o desejo, em sua anarquia e pequeneza, é uma tarefa política. É reaprendermos a encontrar outra forma de viver e outra felicidade que sejam nossas; que sejam possíveis, e não, cruéis.

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

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  1. “como perdemos o tesão buscando viver a vida nos conformes capitalistas.” (SEPULVEDA, Afonso, 2019).
    “em sua anarquia e pequeneza”

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