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“Precisa escutar com o coração”: reflexões sobre empatia em Detroit, parte 1.

Decidi tentar um intercâmbio na Wayne State baseada na (linda) grade curricular dos cursos de artes, mídia e jornalismo. A universidade possui muitos laços com a UFMG, especialmente nos cursos de letras e inglês. O que fiquei sabendo, logo em seguida, era que Detroit — a cidade onde está situada — é considerada a mais perigosa dos EUA.

Dois terços de sua população deixaram a cidade durante a crise da indústria automobilística, que migrou em grande parte para montadoras na Ásia e deixou o antigo pólo estadunidense — a saudosa Motor Town — pedindo falência em 2013. Bairros abandonados, casas queimadas, residências sendo vendidas a um dólar. Um grande número de moradores de rua e brigas de gangue. Isso diziam as manchetes que acabei lendo neste primeiro momento.

No entanto, para a minha sorte, eu tinha uma fonte alternativa ( e bem próxima ) para consultar. Durante um trabalho para a faculdade, em que fizemos um vídeo informativo sobre o programa de apadrinhamento de intercambistas na UFMG, conheci Cheyenne Wallace, uma autêntica detroitervivendo em BH. Ela encontrou a mim e ao meu grupo no campus para uma entrevista e me encorajou a prosseguir com o intercâmbio.

“Ok, Detroit é a cidade mais perigosa dos EUA, mas eu sinto que é ainda menos perigosa do que BH”, foi a sua polêmica resposta.

Corta para minha chegada em Midtown Detroit, em agosto de 2015. Eu me apaixonando à primeira vista pelo bairro onde eu moraria pelos próximos cinco meses. A vizinhança tinha um quê de artístico, hipster e jovem, enquanto eu via dezenas de obras e reformas acontecendo pelas ruas. Com destaque para o trem na rua Cass.

O tal “trem” na verdade é o chamado “People Mover”, uma espécie de bonde contemporâneo.

Logo agradeci à Cheyenne por ter amenizado as minhas preocupações e me aproximado de um dos motes não-oficiais preferidos da cidade. “Don’t be afraid of Detroit”. Perdendo o medo, esse foi inclusive um dos motivos de eu ter retomado minha paixão pela bike: o desejo de explorar bem de perto as milhares de facetas da cidade.

Eu mesma na deserta Downtown Detroit.

A personalidade forte de Detroit começa pela sua história, repleta de música, suor, lágrimas e muita riqueza mal distribuída. Em seus áureos tempos, Detroit chegou a ser uma das mais populosas metrópoles dos Estados Unidos. A indústria automobilística, em seu auge, construía prédios-ostentação, como o Fisher Building, com todo um topo revestido de ouro, elevadores em bronze e pintura luxuosa no teto, além do interior revestido por 40 tipos diferentes de mármore, inclusive alguns muito especiais, importados de longínquas cidades estrangeiras. Um monumento à riqueza da industria, que fez os irmãos Fisher chegarem à marca de US$ 800 milhões de dólares em 1988.

Dentro e fora do Fisher Building, a palavra é: brilhante.

Algum tempo antes da construção deste marco histórico, em meados dos anos 1910–1920, Ford (aquele mesmo, criador da Ford) trazia trabalhadores de todo o país com a promessa de pagar a pequena fortuna de um dólar por dia a quem trabalhasse em sua fábrica. Sim, isso era muito dinheiro na época. Um notório racista, foi co-responsável tanto pela migração de uma quantidade enorme de negros que deixavam o sul para realizar o sonho americano com o salário obtido na fábrica, quanto por uma grande influência na distribuição dos bairros — muito bem segregados — entre white e black neighborhoods.

Hoje, oitenta por cento da população detroiter é negra, um povo orgulhoso de sua origem e que carrega o seu próprio sotaque e dialeto até hoje. Chamado de Ebonics, o “inglês de preto” é uma língua (e uma arte) à parte. Já o sotaque carrega forte herança sulista, diferentemente do accent dos brancos, que se assemelha ao resto de Michigan.

Detroit Jazz Festival, 05 de setembro de 2015. Foto por euzinha.

A força do povo negro me foi apresentada logo nos primeiros dias, quando ocorreu um festival de jazz no centro da cidade, e Downtown Detroit, normalmente tão vazia, se coloriu e se vestiu de gente, tanta gente que eu nem acreditava existir mais na cidade. Outras evidências são os artistas icônicos lançados pela gravadora Motown na década de 80, desde os Jackson Five a Diana Ross, Stevie Wonder e The Supremes.

Na universidade, eu — típica estudante da federal branca — estranhei ver os espaços acadêmicos divididos 50/50 entre negros e brancos. O que não significa igualdade, já que levando em conta a proporção demográfica, o ideal seria uma universidade com mais negros do que brancos, não é mesmo?

Aos que viram a série “Dear White People”, aviso que não é necessário existir um prédio residencial exclusivamente negro para que os estudantes brancos e pretos morem em lugares diferentes. Sejam bem vindos ao racismo estrutural.

Por algum motivo (que o leitor e a leitora saberão intuir bem qual é), o Atchinson, prédio onde se encontravam os quartos mais baratos, era onde se via a maior parte dos estudantes negros.

Outra diferença visual que notei no dia a dia da Wayne State foi a presença de mulheres usando hijabs e até mesmo burcas. Dearborn, cidade no entorno de Detroit, é onde vive a maior população árabe por metro quadrado dos Estados Unidos. Inclusive, muitos refugiados do Iraque, Irã, Líbano e Síria acabaram indo parar lá.

Uma das mais ricas entrevistas que já fiz enquanto jornalista (ou estudante de jornalismo, para ser mais exata) foi com um refugiado iraquiano, que já vive nos EUA há mais de 25 anos, após ter participado de diversos conflitos em seu país — de soldado a desertor, rebelde e, por fim, prisioneiro de guerra.

Uma de suas maiores paixões na América? A Pepsi. O primeiro gosto de sua (estranha) liberdade enquanto refugiado/prisioneiro de guerra acolhido (ou capturado?) pelo exército estadunidense.

Com tamanha diversidade, o campus da Wayne State também é um dos maiores anfitriões de programas de intercâmbio em Michigan. Na época do Ciência sem Fronteiras, chegou a receber cerca de 280 brasileiros em um semestre. A reforma do novo e reformado Student Center, centro de convivência da universidade, é provavelmente fruto do investimento do programa do governo Dilma nos anos 2012–2016. Mas as polêmicas deste programa são material para um outro textão.

Uma das bandeiras dos Warriors da Wayne é a pluralidade multicultural de seus estudantes. Não que todas as suas culturas sejam respeitadas, vide a política de de smoke free no campus, contestada pelos estudantes indígenas (native-americans) que não podem realizar ritos religiosos acendendo sálvia, erva-doce, cedro e tabaco. Michigan é um dos poucos estados que ainda conserva parte da população indígena original, largamente dizimada pelos colonizadores ingleses e franceses no século XVI.

Flour Sack Towel do Pure Detroit.

É comum ver souvenirs em Detroit que mostrem um índio e um colonizador vivendo felizes para sempre na saudosa Motor Town imperialista.

Mesmo assim, o misto de herança negra, uma nova percepção sobre árabes e árabe-americanos que se deslocavam de Dearborn para Detroit, nativos americanos, latinos, “mestiços” (ser “mixed” é uma coisa nos EUA. As pessoas te perguntam “o que” você é) e as centenas de intercambistas de todas as partes do mundo fazem da experiência universitária em Midtown algo realmente novo. Pelo menos para mim e para os estudantes detroiters e intercambistas com quem conversei.

O que uma jornalista pode fazer

Uma disciplina do curso de jornalismo, essencial para que eu compreendesse todo esse caldeirão intercultural (com o perdão da famigerada expressão brasileira que normalmente é empregada com a intenção de dizer que no Brasil não há racismo — risos) foi Reporting Race, Gender and Culture. Ela foi ministrada pela fantástica professora Alicia Nails, vencedora de um Emmy Award por seu trabalho em jornalismo televisivo.

A intenção da matéria era exercitar a capacidade dos estudantes de contar histórias sem fazer julgamento de valor ou transparecer qualquer bias (ou viés, em Portuguese) em relação a grupos mal representados pela mídia. A professora escolheu trabalhar justamente com as minorias, para que essa musculação da objetividade fosse feita com um peso ainda maior.

Além disso, Nails lidera uma iniciativa sensacional de inserção de estudantes pertencentes a grupos minoritários na bolha das redações e demais veículos da mídia norte americana, com programas de estágio e emprego destinados a esses alunos. O trabalho dela, nesse e em outros sentidos, é incrível.

Resolvi fazer um compilado de coisas que aprendi em suas aulas, dentro e fora do jornalismo, para tentar contribuir minimamente para a reflexão do que é retratar grupos minoritários com responsabilidade e ética. Também gostaria de aproveitar essa oportunidade para contar algumas das histórias fantásticas que ouvi nos painéis e entrevistas que realizei para essa (e outras) disciplina(s).

Inauguro aqui uma série de textos em homenagem a Alicia e todas as outras pessoas maravilhosas que me fizeram repensar o jornalismo e a prática de reportar assuntos difíceis, se esforçando para retirar do texto os nossos preconceitos e misconceptions sobre “o outro”. Ou seja, aquele que não é igual a nós.

“Você quer dizer: diferente de você.” (hino atemporal)

Já adianto: empatia e informação serão necessárias neste exercício.

Autor
Propositalmente perdida nas infinitas possibilidades da Comunicação. Bagunceira, espalho minhas coisas por aí sem a intenção de guardar de volta no lugar. Entrei na área pelo Jornalismo e fui parar no Marketing Digital, explorando ainda uma segunda habilitação em Publicidade e sempre flertando com as Relações Públicas. Hoje, trabalho como Social Media na Filadélfia. Sou ciclista de bike do Itaú aos fins de semana, mas meu esporte favorito é ler: quebro recordes pessoais de páginas lidas por semana. Me interesso por um mundo de coisas - não sei me decidir por uma só. E nem quero.

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