Di mattina presto

 

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O alarme despertou às 6h, ela já estava acordada mapeando de onde vinham os sussurros e o rangir de que portas. Ele soaria de novo às 6h30, mas os gritos de um mendigo que passava pela rua a convenceu, ela não pegaria no sono outra vez. Levantou com o dia ainda escuro, o sol sairia dentre alguns minutos. O céu a essa hora fica nessa cor que não dá pra saber se vira azul ou nublado. Os barulhos são íntimos mas também distantes, dá pra ouvir o vizinho de cima apoiando a caneca na bancada de pedra, os passos de um ou outro que andam pela rua, a vassoura varrendo as folhas da calçada — tudo assim, fresco, com calma, com tempo.

Foram duas fatias na torradeira, um ovo na frigideira, café, pimenta, sal, meia banana e as quatro últimas amoras que poupou da noite anterior. Com exceção dessas últimas, hoje o menu se repetirá para almoço e jantar, sim, todos com café, o normal são 600ml diários. Checou os emails, respondeu as mensagens que chegaram de madrugada dos homens que dormem menos que ela em São Paulo. Your Friday Briefing: Here are five New Year’s resolutions to protect your technology. Nessa época do ano, e agora até 8 de janeiro, as redações estão todas de plantão, nada tão interessante. Permanecia sem acender as luzes, na penumbra, o que mantinha a sensação de madrugadinha, com horas pra desperdiçar. Enfiou a calça jeans, calçou os chinelos, e com a caneca ainda metade cheia foi lá fora ver o que as árvores e o vento estavam fazendo. Retornou ao escritório, ajustou os grampos mais ou menos soltos num coque desarrumado, sentou na cadeira velha de couro ressecado. Conectou o som do computador às caixinhas portáteis, e pôs de volta o filme argentino sobre pessoas solitárias, só para ter a companhia de outras vozes.

“Wally en la ciudad: lo encontré en el shopping, lo encontré en el aeropuerto, en la playa, pero en la ciudad no lo encuentro. Sé que los nervios enceguecen, pero no lo encuentro y entonces me pergunto: ¿Si aun cuando sé a quién estoy buscando no lo puedo encontrar, como voy a encontrar al que estoy buscando si ni siquiera sé cómo es?”

Será que ela acorda cedo com a luz do dia? Ou bloqueia qualquer entrada de sol e detesta quando o despertador toca? Será que ela se perde vendo as notificacões no celular? Ou vai direto pro banho? Será que ela precisa de muito café? Ou prefere frutas com granola e iogurte? Será que ela escolhe primeiro a parte de baixo ou a parte de cima da roupa? Ou os sapatos? Ou ela é do tipo que tem o sapato de trabalhar e os outros pra sair? E aos domingos? Almoça onde? O que será que passa antes e depois do protetor solar? Qual fator? Será que escolhe a pasta de dente pelo sabor ou pelo percentual de flúor? Será que penteia o cabelo com escova ou só ajeita com os dedos? Qual a cor da roupa de cama? Tira o lixo toda manhã? Lembra de molhar as plantas? Dá tempo? Será que come pão de forma ou vai até a padaria? Erra a mão na torradeira ou prefere nem esquentar? Será que senta à mesa e lê algo? Será que assina algum jornal diário impresso? Será que ouve de madrugada o entregador arremessando o jornal no jardim? Dorme com a TV ligada ou nem tem TV no quarto? Será que usa demaquilante ou nem tem maquiagem para tirar? Será que toma chá? Com ou sem leite? Lava a louça à noite mesmo ou pela manhã? Sabão e bucha ou máquina de lavar? Lava os cabelos todos os dias? Seca com secador ou sai com eles molhados? Toalhas brancas ou coloridas? Ou pretas? Sabão de barra ou líquido? Glicerina ou hidratante? Entra com sapato em casa? Velas, incensos ou óleos essenciais? Academia, pilates ou yoga? Low carb ou vegetariana? Pinta os cabelos brancos? Será que sente falta da sua pele de 10 anos atrás? Antiaging? Será que fica enjoada com cheiro de açougue? Ou andando de barco? Toma remédio pra quê? Será que existe algum pedinte específico pra quem ela nunca nega um trocado? Será que sentiu mal quando negou? Tem fé em que Deus? Será que acredita que Maria era realmente virgem? Toma anticoncepcional? O que será que vê no espelho num dia que está se sentindo bem? O que vê quando olha no espelho num dia em que está se sentindo mal? Escolhe os caminhos alternativos ou não consegue escapar do engarrafamento na avenida? Será que compra água no sinal? Ou sai de casa com a garrafinha cheia? Lava o próprio carro ou leva no posto? Espera do lado de dentro ou de fora? Será que quando cansa do cheiro de fumaça daqui, sente falta da vida pedestre de algum lugar? De onde? Escreve de lapiseira ou caneta? Caderno com ou sem pauta? Ou quadriculado? Moleskine ou Cícero? De capa dura? Bolsa ou mochila? IPhone ou Android? HBO ou Netflix? Drama ou documentário? Ikea ou Pé Palito? Taco ou cimento queimado? Vinil ou Spotify? Praia ou montanha? Chocolate ou doce de leite? Esmalte preto ou nude? Aquele relógio, foi comprado ou foi presente? Dança sozinha em casa? Na cozinha ou no quarto? Fumou até que idade? Concorda com clareamento nos dentes? Alguma lembrança de ódio que ainda a faz tremer? Qual foi o último episódio que foi mal educada? Sobre sua última paixão, o amou por quê? E ele? Por que a amou? Deu certo? Por quanto tempo? Acabou? Por quê? Será que é essa a pergunta que se faz à noite, antes de dormir? Senão, qual é?

Autor
"I am a lot sillier than I look. I’m unable to keep my mouth shut and so, as a result, am the content editor of GUAJA." (Meredith Talusan, editor senior da 'them') – Sou Arquiteta e Urbanista pela UFMG com formação complementada no Politécnico de Milão, gerente de conteúdo do GUAJA, e apaixonada por pessoas verdadeiramente obcecadas e constantemente curiosas pelo que fazem.

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