Hanna está digitando…

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Estão dizendo que as pessoas não conversam mais umas com as outras, que só se comunicam por mensagens de texto. É um sem fim de zap zap. E que mal tem nisso? Veja bem, não estou saindo em defesa de gente que atravessa o portal tridimensional do seu smartphone, ingressa num bunker mental remoto e instantaneamente passa a ignorar por completo qualquer estímulo, conversa, a música, o cenário e tudo mais que está acontecendo ao seu redor. Isso a meu ver, além de muito deselegante (salve Sandra!), sinaliza que alguma coisa não está fazendo muito sentido.

Sei que nada, nunca, em tempo algum, ou pelo menos até onde minha imaginação Blade Runner pode alcançar irá substituir o olho no olho. A questão é que o tempo encolheu e a gente vai dando os nossos pulos pra tentar manter os pratinhos no ar. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu quero mesmo é me debruçar aqui (cafonice te amo) sobre as mensagens nossas de todo dia que tão democraticamente levam o recado pro marido comprar leite na volta do trabalho, confirmam o dentista do filho, marcam um cinema pra mais tarde, produzem um aparato intricado de boatos e correntes de passa-maria e ainda servem muitas vezes, como meio condutor de belíssimas DR’s. Minto? Tudo assim, ao alcance de uma sapecada de tecladas finalizadas por emojis de beijinhos de coração ou carrancas, se for o caso.

Os emojis são criaturas controversas, amados e desdenhados. Eles substituem preguiçosamente diálogos inteiros. Se faltar moderação no uso cansam até a beleza da Gisa. São extraordinários para demonstrar indiferença, aquele ar de desdém adequado que te adianta a vida (aquela que acredita ser sua BFF te manda 36 mensagens: áudios e prints incluídos e narração do Galvão (Bueno) sobre a briga que teve com o boy. Você responde: “Na torcida de que tudo vai se resolver da melhor forma”, seguido de emoji de mãozinha rezando x 5). Pah. Esses bichinhos também são utilíssimos pra dar o tom do papo. Convenhamos que às vezes é complicado comunicar uma ironia sem tropeços. Então, cata aí um emoji de carinha chorando de rir, de preferência a versão inclinada. Acho muito mais digno do que #SQN. Minha opinião. Quem nunca resumiu um sentimento profundo de antipatia, preguiça e desprezo em um emoji de olhinhos revirados não sabe o que está perdendo.

Uma coisa é certa: o simpático balãozinho verde do WhatsApp (com seus sádicos tiques azuis que vêm formado eficientemente uma legião de paranoicos), cujo nome acho um trocadilho adorável, mudou por completo a forma de comunicação entre as pessoas por aqui. E com essas e outras pequenas ressalvas e alguma noção de etiqueta, eu acredito que esse advento (emoji de olhinhos revirados) foi algo categoricamente espetaculoso.

A gente nunca se comunicou tanto, a toda hora com todo o mundo. Nunca soube tão depressa de tudo que é importante e do que não é também. Nunca riu tanto das nossas próprias mazelas e nem tinha a dimensão exata da falta de limites da criatividade do brasileiro. Nunca teve a oportunidade de participar de tantos grupos sobre temas deus-sabe-lá-qual e que necessariamente sempre irão fugir do tema ao qual se propõem. Isso é maravilhoso. Quer participar de um grupo de pessoas nascidas em ano bissexto? Temos! Organizar o batizado da caçula? Grupo pros peito. Grupo de feministas, de tarô, amantes da boa mesa, de adoradores de gnomos, de brasileiros que vivem no Butão. Sejam todos muito bem-vindos.

Já perceberam que nenhum evento (com toda a abrangência que o termo permite) acontece sem primeiro se formar um grupo de WhatsApp? Reunião de condomínio. Aviso no elevador é pra amadores, a jiripoca pia mesmo é no grupo do “Condomínio Maison Montparnasse”. É claro que isso tudo, tudo que é da ordem do excesso gera uma enorme ansiedade, rouba o tempo da gente, espalha muita maluquice e uma substanciosa quantidade de besteira por aí. Então entra uma coisa fundamental na vida, item imprescindível para a sobrevivência na selva: filtro. Se você não tem, ou se o seu anda meio furado… sinto dizer que você tá no sal, meu amigo.

Os grupos de família merecem um capítulo à parte, e como já tenho um flerte contumaz com a verborragia licenciosa, me aterei a dizer que eles são fonte inesgotável de manipulação, chantagem, barracos insuperáveis, e, sabe-se lá por quê, são verdadeiros imãs de mensagens de conteúdo controverso que não foram originalmente destinadas àquele grupo. No grupo do qual eu sofro, um primo certa vez mandou um link com cenas de uma cópula ferrenha, daquelas de barba e bigode, seguido por mensagens desesperadas de “não abra”, “mandei errado, por favor não abra” (ainda não existiam os 7 minutos de livramento). Não poderia haver convite melhor, é claro. E por ironia maior, o link sacana vinha na sequência do ultimo sermão do Papa Francisco, enviado por ninguém menos que a própria genitora do cidadão. Vamos deixar por aqui.

Eu peguei uma simpatia imediata pelo verdinho, e desde então passo o dia dependurada nele. O fato de me sentir tão à vontade não significa que exista uma excelência comunicativa da minha parte. Não escrevo abreviando as palavras, não entendo as gírias, não curto áudios. Tenho preguiça infinita de vídeos e mensagens do gênero “a formiga e a cigarra”, e outras que comecem por “vale a pena ler”. Nada que vem com uma advertência assim é digno de atenção. Envio “memes” que eu acho bacanas, com parcimônia e com um certo delay. Ok, um delay considerável. Me valho dos ensinamentos bíblicos de amor ao próximo para conseguir ignorar as mensagens de “bom dia” e para não tomar ranço irreversível do remetente feliz. Os que acreditam que só não existe solução para a morte, ainda não experimentaram o genuíno sentimento de ranço.

Em síntese, digamos que eu seja um pouco démodé (essa palavra é muito démodé) no uso da ferramenta, mas nunca; em tempo algum, juro pela minha mãe morta atrás da porta, que eu nunca me prestarei ao vexatório papel de “malinha do Zap”. Você sabe de quem eu estou falando e as coisas que essa pessoa é capaz de fazer. O mais engraçado é que ao mesmo tempo que você nutre um profundo desprezo pela malinha do Zap, você não pode viver sem ela. Pensa aí, quantos grupos você faz parte que se originaram para falar mal daquela única pessoa que não está nesse novo grupo? Ela é a sua dose regular de gratidão por ser quem você é, ela é sua corneta da autocritica.

Tudo na vida bem que poderia ser regido pela elegância e pela polidez. Esse desejo se estende ao aplicativo e também não se aplica ali. Uma pessoa que é inconveniente, mal informada, excessiva e mal-educada no real não tem razão para assumir postura diferente na banda virtual. Não se criam álter-egos cibernéticos, ou melhor; se tenta criar com afinco, mas eles não se sustentam por muito tempo.

E mesmo com tantas possibilidades e promessa de diversão garantida se tudo estiver indo mal, seus grupos, contatos e conversas estiverem sacais, azucrinantes em tom púrpura; não se deixe abalar. Depois de checar se o problema não é você (geralmente é), sempre haverá o formidável recurso de silenciar todas as notificações por um ano. Glória-aleluia-salve. Quer coisa mais engenhosa? Fico imaginando se eu pudesse silenciar a minha vizinha por um ano. Agora, ainda mais incrível que isso seria a possibilidade de “sair do grupo” sem dar pinta de que você saiu. Você escolheria a opção de sair do grupo e então, imediatamente um “avatar” ocuparia o seu lugar; e vez por outra, assim meio que de bobeira, lançava um bom dia com flores, corações e tudo a que se tem direito.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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  1. Você com esse humor negro seu me fascina . Já fiz tudo que você escreveu aí … morri de rir de mim mesma … parabéns pelos puxões de orelha bem colocados

  2. Texto delicioso e já compartilhado nos meus grupos (só faltou o bordão “senta que lá vem textão” hahaha).
    Acrescentaria como observação apenas o infame e onipresente “kkk” que serve pra tudo! Adoro usá-lo pra dizer umas verdades e dar um ar de brincadeira rsrs. Exemplo: Pra variar não me convidou pro evento kkk. Pimba! Deixo o recado e jogo como brincadeira rs.
    Ps- pra rir mesmo gosto do “hahaha” muito mais eloquente e simpático do que o kkk.

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