Em nome do pai, da filha e do édipo

 Édipo em Colono, de Fulchran-Jean Harriet.

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Somos cinco irmãos e, sim, somos filhos da mesma mãe e do mesmo pai. Mas, de alguma forma irreconciliável, o pai que me habita se ausenta neles. A percepção é singular e inquietante. Não raras as vezes em que discorremos narrativas e impressões e desfilamos memórias, coube-me a solidão da construção de um pai impossível de nomear e transferir. Estivemos os dois em um estreito romance encapsulado. Tão nosso que se tornou para além de familiar, secreto e inconfessável. Não para Édipo.

Éramos, pois, quatro filhas a dividir o mesmo quarto. Meu pai, todas as noites, como que em uma cantilena anunciada, cobria-nos à altura dos ombros e beijava-nos em fileira. Aquele era o dízimo oferecido à minha seita. O toque íntimo do dia. O calor entre rostos próximos e o beijo rente à face. Certa ocasião de impensável atrevimento, em admissão reservada, ofereci-lhe repentinamente a boca. O beijo tão inevitável quanto inebriante selou lábios.

Entrei em análise, pois, pelo ponto inaugural e revelador do mais que amor ao meu pai. Foram anos entre divã e devaneios à palavra que se paga a cada sessão. Vários personagens desfilaram e foram acolhidos pela prática da escuta, lançados a seus significantes e retornando por lugares onde deitar, acomodar e ler o desejo.

Não me curei, pois não se oferta cura. Hoje, pesam os anos e o saber imperioso de que o tempo é implacável. Foi o tempo que abriu novos entendimentos e nos acordamos pacíficos, como convém, que espernear é perdê-lo ainda mais. Deixou em meu pai o corpo curvo e a mente que oscila entre estar e não estar entre nós. Ainda assim, eu e ele sempre estamos.

São 90 anos. Antes meu pai, agora avô e bisavô. Dos netos, nomes e feições são possíveis ao custo de uma vida. Mas, para sete bisnetos, a memória trai e o que resta é o olhar vago, a cabeça branca e pendente, um “não sei o quê ainda faço que não me vou”.

Coube a mim, na tarde de um domingo qualquer, aproximar o rosto do meu neto ao dele. Meu pai não virou a face. O que um dia foi ato de vivo desejo reeditou-se na forma pouco tenaz de um homem velho. Mas, o beijo tão inevitável quanto inebriante selou lábios.

Autor
Psicóloga, com formação em psicanálise, e jornalista. Escrevinhadora pelo interesse absoluto nas palavras como tentativa de pura ressignificação. A letra não é literária, sabe-se tão somente forte e intuitiva e propulsora ao pensar livre. O desejo é o da conexão com leitores dispostos aos textos abertos. Pretende-se ascender à dúvida, ampliar entendimentos, promover análises, libertar o ponto o final de sua predestinação.

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