Eleger mulheres inspira futuras candidatas

 Foto: Bárbara Ferreira

Receba artigos sobre vida contemporânea semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Até o início deste ano, entrar para a política estava fora de cogitação para a advogada Andréia de Jesus. Aos 40 anos, ela é uma estreante nas urnas. A decisão de disputar o cargo de deputada estadual foi construída depois de ver uma mulher, negra e da periferia, assim como ela, ser eleita vereadora de Belo Horizonte, e outra semelhante ser morta no Rio de Janeiro por sua atuação política. Foi só após ver conquistas como as de Áurea Carolina e Marielle Franco, ambas do PSOL, que a advogada acreditou ser possível ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas.

A história da mineira de Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, é mais comum do que se imagina. Uma pesquisa do professor da Universidade de São Paulo (USP) e cientista político Bruno Speck analisou a influência da eleição de mulheres em pleitos seguintes, com base nos resultados das disputas em todos os 5.570 municípios do Brasil entre 2004 e 2012, e constatou que a vitória de uma mulher nas urnas estimulou o registro de novas candidaturas femininas nos anos subsequentes.

No período analisado, em um quarto das cidades brasileiras, as mulheres disputavam a cadeira de chefe do Executivo Municipal. Onde houve vitória de uma mulher, a chance de ter um número maior de novas candidatas na próxima eleição para prefeito foi 76% maior em comparação com os municípios onde um homem venceu o pleito anterior. Isso ocorria quando a prefeita eleita disputava seu primeiro mandato.

O professor da USP considera que o estudo se aplica para outros cargos eletivos, apesar de ter sido feito com base em uma disputa para prefeituras. O efeito contágio é no sentido de mulheres que venceram eleições influenciarem outras a entrarem para a carreira política. O fato de uma mulher dirigir uma prefeitura tem um impacto positivo sobre potenciais candidatas. A ampliação da presença das mulheres na política brasileira tem que passar justamente por essa criação de exemplos.

Comício de Manuela D’Ávila e Haddad com Deputados Federais, Estaduais, representantes do PT e apoiadores na cidade de Belo Horizonte-MG | 28 de Agosto de 2018. Foto: Isis Medeiros.

Para Andréia de Jesus a construção partidária no país ainda é um desafio à inclusão das mulheres, mesmo dentro da esquerda. Há uma limitação para as mulheres atuarem e tomarem decisões dentro do partido, segundo Andréia.

Também candidata à deputada estadual, a pedagoga Selma Carmo (Novo), de 37 anos, concorda que exemplos positivos dão força para as mulheres enfrentarem o desafio de ir às urnas e cita o exemplo da presidenciável Marina Silva (Rede), que já disputou as eleições várias vezes. “Às vezes, até as próprias mulheres me falam ‘o que você está fazendo se metendo nisso’”.

Essa falta de espaço dentro dos partidos para formação e incentivo de lideranças femininas é histórica e não é exclusividade de nenhuma legenda. Com um cenário desfavorável, muitas vezes, a primeira barreira para elas entrarem na política pode ser a auto-exclusão. Aos 58 anos, Margarete Oliveira (PPS) tenta chegar à Câmara Federal e acredita que a mulher ainda tem medo de se lançar na política. “Muitas ainda acreditam que precisam ser apenas donas de casa e mães e estão perdendo espaço por não ocuparem a política”.

De olho nos planos

Neste ano eleitoral, muitos candidatos têm voltado suas estratégias de campanha para a população feminina, uma vez que as mulheres representam mais da metade dos eleitores e grande parte dos votos indecisos. No entanto, apesar dos discursos pelas mulheres, nem todos os postulantes ao governo de Minas de fato dão espaço a elas. A Campanha Libertas analisou os planos e propostas de oito candidatos ao cargo e apenas uma traz propostas específicas para as mulheres: Dirlene Marques (PSOL). Quatro destacam a importância de pensar propostas para as mulheres, mas não especificam quais as maiores urgências ou como colocá-las em prática: Adalclever Lopes (MDB), Antonio Anastasia (PSDB), Fernando Pimentel (PT) e Jordano Metalúrgico (PSTU). Três não apresentam nenhuma proposta para quaisquer questões relacionadas às mulheres: Claudiney Dulim (Avante); João Batista Mares Guia (Rede) e Romeu Zema (Novo).

Os últimos anos têm sido marcados pela luta das mulheres para a garantia de direitos e da própria sobrevivência. Em 2017, 433 mulheres foram vítimas de feminicídio e mais de 145 mil ocorrências de violência doméstica foram registradas. No campo trabalhista, as mineiras receberam quase R$ 500 a menos que os homens. Em âmbito nacional, 48% das mães deixam seus empregos nos primeiros 12 meses após ter filhos, motivadas pela falta de auxílio, carência de creches e ausência de espaços para amamentação. As mulheres precisam enfrentar inúmeras dificuldades e falta de apoio governamental para se firmar na sociedade, por isso é urgente pensar se estamos elegendo pessoas que vão olhar para as nossas demandas.

No plano de governo de Dirlene Marques, a palavra “mulher” aparece 74 vezes, nas propostas dos demais candidatos, duas, uma ou nenhuma vez, à exceção de Jordano Metalúrgico (PSTU) que menciona nove vezes. A chapa de Dirlene é composta apenas por mulheres e não seria surpresa que a população feminina fosse contemplada com mais ênfase. O projeto do PSOL também contempla importantes discussões sobre os movimentos LGBT, indígena, negro e feminista, e promete tratá-los com prioridade em um possível governo.

Dia 7 de outubro, nós, da Campanha Libertas, daremos nosso voto feminista. E você? Qual a sua pauta? Está votando na que te representa?

Autor
Somos um coletivo de mulheres jornalistas de Minas que já trabalharam em redações de grandes jornais de Belo Horizonte e em assessorias de imprensa. A "Campanha Libertas – Por mais mulheres na política" surgiu para fazer uma cobertura jornalística independente das eleições de 2018 com foco nas candidaturas femininas.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Você vai gostar

14 novembro — trabalho

A vez delas na barbearia: lugar de mulher é onde ela quiser

por

Como um mercado exclusivamente voltado para homens incentivou Fran Dias a empreender uma barbearia inovadora e comandada por… continue lendo ->

19 fevereiro — vida contemporânea

2018 será feminino?

por

A gente se pega repetindo que o futuro é feminino. Em estampas, posts, hashtags, a expressão ganha força dentro e fora das redes… continue lendo ->