Com amor: motivos para escrever uma carta para um eleitor de Bolsonaro

 

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Um amigo meu me pediu ajuda para escrever uma carta para sua mãe que votou em Bolsonaro no primeiro turno. Sou professora de escrita. Mas esse meu amigo não é uma pessoa com dificuldade para escrever, ele é um doutor em linguística. Só que o impacto de saber que a mãe dele (um homem gay) votou em um homofóbico foi tão grande que ele paralisou, não sabia nem por onde começar a explicar sua tristeza.

Escrevi. Já havia escrito outras cartas abertas e também ajudado pessoas a escrever para seus familiares. Meu amigo mandou pelo celular a carta para sua mãe. Ela respondeu dizendo que até então nunca havia compreendido direito o que era a homofobia de que ele tanto falava. A mãe disse então que não votará em Bolsonaro no segundo turno, e pediu perdão para o filho.

Compartilhei o resultado positivo na internet e Pedro, um amigo de BH, comentou: e se todos que não querem ser governados por um incompetente preconceituoso escrevessem uma carta para a pessoa mais próxima que votou em Bolsonaro? E um outro amigo, o Guilherme, que mora em São Paulo, fez uma arte para esta espécie de campanha. Por curiosidade, eu moro em Goiás. E este texto aqui foi revisado pelo Vicente, meu amigo que mora em Porto Alegre.

Postei a proposta e logo recebi mensagens pelo inbox de pessoas de todo Brasil escrevendo suas cartas. Nem todos postaram nas redes sociais ou, se postaram, não deixaram totalmente público, por medo da exposição. Mas escreveram. E você, sentiu vontade de escrever também? Lá vai uma lista de motivos.

Melhor estratégia

Acredite, eu já tentei de tudo! Já apresentei todo tipo de argumento, textões, links confiáveis, o resultado disso nessa altura do campeonato é bem pequeno. As cartas pessoais e sinceras foi o que realmente vi funcionar com várias pessoas.

Por alguém especial

Tem que escolher alguém que você ama como destinatário – e se desarmar. Fale da relação de vocês, demonstre respeito e gratidão, e então explique de maneira pessoal seu sentimento de repulsa com a possível eleição de Bolsonaro. Implore, isso mesmo, não tenha vergonha de implorar que a pessoa pense de verdade sobre o que está fazendo. Mas não perca tempo com pessoas por quem você já perdeu o afeto. Essa atitude é pelo Brasil e também por uma pessoa boa que, você acredita, não tem plena consciência da gravidade do que fez no primeiro turno.

Ainda dá tempo

O jogo ainda não acabou, estamos no segundo turno. Mesmo que a pesquisa aponte para a vitória de Bolsonaro, não devemos entregar os pontos até o resultado final. Um motivo importante para insistir é que ainda podemos fazer isso.

O Brasil continua

Seja qual for o resultado, o Brasil vai continuar existindo, mesmo que se transforme num país muito pior. Bolsonaro representa, além de profunda incompetência, valores terríveis, preconceitos de todo tipo, opressão de minorias sociais, propagação de mentiras. Precisaremos continuar, mais do que nunca, enfrentando essas questões. Então, mesmo que você não consiga virar o voto, plante uma semente de dúvida. Faça com que essa pessoa que você ama vá votar em Bolsonaro se sentindo angustiada com essa escolha. Isso já será um passo para uma futura virada de visão de mundo. Se não podemos impedir que um ser asqueroso seja eleito, ao menos podemos, aos poucos, ajudar pessoas a enxergarem-no como ele é.

Consciência tranquila

Talvez não dê para bloquear todo mundo da sua vida que votou em Bolsonaro. Na verdade, até dá, mas você quer realmente isso? Vai cortar relações com sua mãe, com seu pai, sua avó, seu sobrinho para sempre? Escrever essa carta pode ser uma maneira de salvar essas relações, ao menos a mais especial dentre elas. Sentir que fez realmente tudo o que podia vai deixar seu coração mais tranquilo, reconfortado na certeza de que tentou.

Por favor, eu te peço, enquanto é tempo, faça mais uma tentativa.

Com a pessoa que você mais ama e que votou no pior candidato de todos os tempos.

Com a paciência que resta.

Com amor.

Escreva.

Autor
Sílvia Amélia de Araújo, professora da oficina itinerante ‘‘Escrever Simples’’ (em BH, realizada na Casa Guaja). Escrevi ‘‘No Meio do Caminho’’, livro de crônicas sobre pessoas que encontrei uma única vez no transporte público, contemplado com prêmio de literatura do Fundo de Arte e Cultura de Goiás.

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