Empatia, comunicação e por que a poesia podia ajudar a resolver isso

 

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Li recentemente uma publicação do Tiago Belotte em que ele nos convocava a “salvar a empatia” contra as garras da banalização. É aquela coisa: tem palavra que vira modinha, cai no vocabulário raso e perde toda essência. Foi aí que lembrei de uma conversa que tive mês passado sobre a tal da empatia e um outro jeito de enxergá-la.

Nos dicionários, empatia é descrita como a habilidade de imaginar-se ou colocar-se no lugar de outra pessoa. Partindo daí, já temos um desafio virtualmente impossível — a gente nunca vai saber o que uma pessoa está sentindo e pensando, realmente. Mas não é este o problema: a gente pode chegar satisfatoriamente perto disso, e vai funcionar. Acompanha o raciocínio.

Com essa noção, cabe olhar para o problema da falta de empatia como nada mais e nada menos do que um puta problema de: comunicação. E quando a gente fala de comunicação, falamos de interação, e aí dá pra pensar nas falhas tanto em quem diz quanto em quem escuta (isso sem falar de todas as outras dimensões da comunicação).

Será mesmo que a gente é bom em descrever o que sente? Será mesmo que a gente é bom em escutar? O ponto da empatia não é, ou pode não ser, a habilidade sagrada de imaginar-se no lugar do outro. Tudo beira o comunicar. E quando falha o comunicar de quem se abre, o comunicar falho de quem escuta termina a bagunça — preconceitos, falsas reciprocidades, e a gente acaba dizendo “sei o que você tá passando, migo”.

Não, migo, não sabe não. Mas, se a gente conversasse melhor, mais fundo, talvez desse pra realmente haver comunicação (em tempo, vale lembrar que o ato de comunicar corresponde a, basicamente, “tornar comum”). E é aí que entra a menina poesia.

Pra quem não foi parar nas humanas — de corpo e alma ou mesmo clandestinamente — , poesia ainda mora nos livros de literatura. Aqueles poemas escolhidos a dedo para que a professora apontasse, claríssimas, todas as características daquele período. O classicismo que era assim, o pré-modernismo que era assado. Formas, temas, e a gente decorava a história da literatura até chegar nos dias atuais e agora tudo caber no pós-pós-pós-contemporâneo. Com sorte, ainda deu pra ver um brilho num Fernando Pessoa ou se apaixonar por alguma verdade cuspida por Drummond.

E aí, amigos, mora o elixir da empatia. Imagina se, em vez de (só) viajar no ziguezague da poesia (razão, emoção, razão, emoção, num loop ao longo dos séculos), a gente aprendesse com a poesia.

Sim, aprendesse melodia, aprendesse ritmo, aprendesse a metaforizar, aprendesse práticas pra tirar do âmago palavras precisas e composições surreais que dissessem cirurgicamente dos amores e das pontadas frenéticas dos corações arrebatados. E não é só a poesia sacra dos outros séculos. A poesia da música, do rap, do repente, todo canto que usa a arte como pretexto pra falar de coração, sabe?

Ah, o coração, os sentimentos. Soubera eu conversar em poesia sobre o que sinto, o que penso e o que fica entre as duas coisas. Bem que pode ser uma viagem, mas eu apostaria: poesia nos ajudaria muito a nos comunicar melhor. As figuras de linguagem, as ficções, a escolha mais cuidadosa de cada palavra, imagina isso tudo fazendo parte viva (ou muito mais viva) do jeito que a gente se comunica. E então a empatia, a famosa empatia, seria só o resultado prático de uma comunicação mais sensível, mais profunda e mais corajosa.

O Belotte falou pra gente salvar a empatia, e agora taí um caminho: salvemos a poesia! Talvez seja a rima que vá dar jeito no mundo, e até agora a gente nem sabia.

Autor
Adoro meu nome, mas pode me chamar só de Cris, viu? Acho que já cresci, mas ainda quero ser astronauta - e escritor e cientista e menos megalomaníaco. Tento abraçar o mundo todos os dias e, quando não cabe, às vezes restam ao menos algumas palavras. Sou apaixonado por falar verdade e por acreditar que posso resolver os problemas do mundo. Quero tornar o impossível parte da rotina do ser humano - será que é possível? Já estudei Comunicação na UFMG, hoje sou designer no Méliuz, e amanhã eu provavelmente não faço a menor ideia.

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