Empoderar é preciso: uma experiência do Design for Change no Rizoma

 

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Senta aí, fique à vontade! Sirva-se desse queijo artesanal da Cangalha que ganhei de presente, enquanto o pão de queijo sai do forno para acompanhar nosso quarto café juntos.

Enquanto nos deliciamos com essas iguarias, quero te contar uma experiência fantástica que vivi no ano passado. Arrisco dizer: talvez umas das principais sementes que germinou EUgênia enquanto articulista e, antes disto, como entusiasta de um mundo de empoderamento através da Educação.

Tudo começou com meu contato com a Base — Sociedade Colaborativa, uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que tem como objetivo potencializar pessoas e ideias que querem melhorar o mundo. Com sede na cidade de São Paulo (SP), a Base se destaca por ser um espaço livre, dentro do qual fazer o bem e ajudar o próximo são as únicas características exigidas para adentrar naquela porta no Bairro Jardins. Além dos papos profundos e eventos interessantíssimos promovidos durante a semana, todas as segundas-feiras são reservadas para reuniões dos projetos da Base, organizados de forma livre, colaborativa, acolhedora e holocrática. Tais projetos, criados a partir da seleção de promissoras ideias, têm por objetivo encontrar os melhores caminhos para engajar pessoas, despertar a consciência coletiva e influenciar de forma positiva o desenvolvimento do país, e — porque não — do mundo.

Nesse contexto nasceu o “Rizoma”, um dos projetos incubados pela “Base Colaborativa” e idealizado pela Manô (Manoela Moreira) e pela Bia (Ana Beatriz Chamati), que após se inspirarem em viagens pelo mundo, voltaram ao Brasil com gás total para implementar o chamado “Design for Change” em comunidades carentes, com foco no desenvolvimento de competências socioemocionais (empatia, autonomia, resolução de problemas, criatividade e resiliência) de crianças e adolescentes.

O “Design for Change” é um movimento global que busca oferecer às crianças e adolescentes a oportunidade de serem mais atuantes na transformação de sua própria realidade, auxiliando-os a tornarem-se mais sensíveis ao seu entorno, a avaliarem situações que careçam de mudança, a esboçar uma potencial saída e a, finalmente, pôr em prática suas ideias.

Tendo seu berço na Índia, o movimento surgiu em razão de uma mudança de mindset sobre o paradigma da educação. Ao vivenciar o ensino das crianças em seu país, a fundadora da escola Riverside e idealizadora do movimento, Kiran Bir Sethi, se incomodou com a frase “as crianças são o futuro da nação, um dia irão crescer e construir um mundo melhor”. Observou, a partir de um olhar assaz crítico, que esse pensamento acaba por postergar e colocar em um lugar inexistente certos atos educacionais que podem desde agora ser desenvolvidos. E se crianças recebessem informações diferentes, no sentido de que podem mudar o mundo presente? E se a sociedade escutasse essas crianças e oferecesse, hoje, o apoio que elas precisam para desenvolver seus anseios e ideias?

Diante disso, Kiran desenvolveu um método para o empoderamento infantil através de inúmeros projetos. Por meio das etapas “Sentir, Imaginar, Fazer e Compartilhar” as crianças aprendem a observar seu contexto de forma crítica, se expressar, dialogar e, ao realizarem os projetos, saem da posição de seres que apenas obedecem e absorvem para agentes capazes de encabeçar mudanças. Percebemos inclusive que o método apresenta algumas semelhanças com a sistemática do “Foco Triplo”, de Goleman e Senge, que mencionei em nosso primeiro encontro.

Vamos ao passo a passo:

  • Sentir: o processo é inaugurado pedindo para que a criança desacelere um pouco e entenda a situação, antes de já buscar uma solução imediatista para solucioná-la.

Por que isso é importante? Desenvolve empatia.

  • Imaginar: Esta etapa pede que você faça um “brainstorming” de soluções para melhorar, enriquecer, mudar a experiência da criança.

Por que isso é importante? Desenvolve ética.

Quando você optar por oferecer uma solução para mudar a situação atual, demanda-se que você assuma “responsabilidade” por isso. Esta mentalidade te ajuda a acreditar que você NÃO está indefeso, a mudança é possível e você pode direcioná-la!

  • Fazer: Este passo é sobre “agenciamento criativo” e a capacidade de agir oportunamente.

Por que isso é importante? Desenvolve excelência.

A “ação” que segue “intenção” resulta no “impacto” desejado. Além disso, o foco nos detalhes permite que a ação melhore a qualidade da experiência, criando um hábito de excelência.

  • Compartilhar: O passo final é “Compartilhar” – cultivando a mentalidade da abundância.

Por que isso é importante? Desenvolve elevação.

Elevação é a mudança do “competir” entre si para o “cooperar” com os outros. Inerente a este passo é a crença de que o espírito do “EU POSSO” oferece esperança e inspiração para novas mudanças. Vá em frente e inspire as crianças para que elas “SEJAM A MUDANÇA”!

Quando você quer alcançar uma solução melhor, você precisa passar das meras “suposições” para “insights” — isso acontece quando você se envolve com o usuário e projeta soluções “com ele”, em vez de “para ele”.

Em seis anos de aplicação na Índia, o movimento gerou mais de 6 mil projetos protagonizados por estudantes em aproximadamente 4 mil escolas, resultando em uma série de benfeitorias à sociedade local: 1900 adultos foram alfabetizados, 104 mil árvores foram plantadas, 300 mil rúpias foram captadas para investimento em projetos, 408 mil litros de água economizados, 100 bibliotecas criadas e 150 crianças retiradas do trabalho infantil e matriculadas na escola.

Atualmente, o “Design for Change” já se faz presente em 45 países, dentre eles o Brasil, o qual, por meio de diversas iniciativas, já vem se atentando para a necessidade pungente de mudança dos paradigmas industriais envolvendo o processo educacional. Um programa que vale notar é o Criativos da Escola, de iniciativa do Alana, uma organização sem fins lucrativos que busca a garantia de condições para a vivência plena da infância. O Criativos da Escola faz parte do Design for Change e promove a cada ano um desafio aos estudantes de todos os municípios do Brasil para o desenvolvimento de projetos que se destacam pelo protagonismo, empatia, criatividade e trabalho em equipe. Todo ano são selecionados 11 projetos e os prêmios envolvem viagens às equipes vencedoras com atividades culturais e celebrações, prêmios ao educador responsável pelo projeto e à instituição na qual o projeto foi criado, para celebrarem a conquista e/ou investirem no projeto vencedor. Lindo né?

O Rizoma é outro incrível projeto que, desde o início de 2017, comprou esse desafio. Todos os domingos os Rizomers visitam as crianças da comunidade Olga Benário, no Capão Redondo, realizando atividades práticas. Em meio a conversas e brincadeiras, os encontros são sempre voltados para o desenvolvimento da capacidade de se expressar das crianças. No início e no fim de cada encontro são realizados os chamados “check-in” e “check-out”, nos quais cada um divide com os demais como está se sentindo naquele momento. As crianças são separadas por idade em dois grupos e, com as crianças maiores de 7 anos, são desenvolvidas atividades com o intuito primordial de ouvi-las, incentivando-as ao diálogo por meio da construção de projetos coletivos, através dos quais estimula-se criatividade, proatividade e empatia.

Em um dos encontros marcantes que participei, chegamos à comunidade e recebemos a notícia de que casas haviam sido derrubadas em razão de uma desapropriação que havia ocorrido na região. Os resquícios das construções expropriadas estavam amontoados quase em frente à entrada da comunidade. Em nossas conversas, as crianças nos contaram que estavam tristes com aquela situação e notavam que as pessoas da comunidade dividiam daquela tristeza. Então, a partir disso, tiveram a ideia de construir placas com mensagens de amor utilizando os pedaços das casas que ali restavam. Ao fim da atividade, felicidade e orgulho estavam estampados na cara das crianças, que passaram a discutir onde seria o melhor lugar para exibir as placas que fizeram. Foi naquele dia que eu percebi, com meus próprios olhos, a potência do “Design for Change”.

Ter participado por um ano do Rizoma é motivo de muito orgulho. Foi incrível perceber como abordagens singelas e empáticas podem alcançar resultados poderosos, os quais são catalisados pela ação das próprias crianças, que, cada vez mais empoderadas, sentem-se à vontade para, com voz ativa, atuar efetivamente dentro de seu contexto familiar e social, realizando mudanças. O Rizoma, assim como alguns outros projetos na área, faz renascer a esperança de que o mundo possa verdadeiramente ser melhor e comprova que criança é mesmo tudo de bom! Continuarei acompanhando cada passo do projeto e torço para que os pequenos da comunidade Olga Benário consigam efetivamente mudar, ainda mais, a realidade em que vivem.

E você, tem alguma experiência educacional/social inspiradora? Me conta nos comentários!

Autor
Cresci cheia de perguntas sem nunca me convencer das respostas. Minha teimosa curiosidade e alma inquieta sempre me fizeram questionar o mundo e a forma como me ensinaram a enxergá-lo.  Desde esse tempo, aliás, flerto com a "Educação", questionando suas fórmulas comportamentais e acompanhando o movimento criativo que gira em torno das mudanças nesse espaço. De Cecília Meireles a Paulo Freire, da tabuada decorada da professora do primário às longas prosas nos cafés da tarde com o Vovô, sou um todo fragmentado, inteira na minha incompletude e certa de que a vida é mesmo feita de trocas: de afeto e de conhecimento.  Hoje, Eugênia, (re)construo o mundo sob a minha ótica - por vezes, meio míope – e o pincelo com minhas cores. Se meus devaneios e reflexões tocarem ao menos um de vocês, já terá valido a viagem.

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