Vida urbana no pós-pandemia, liberdade coletiva, Eleições 2022: entrevista com Roberto Andrés

 

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Vida urbana no pós-pandemia, liberdade coletiva, Eleições 2022. O que podemos esperar deste e dos próximos anos nas cidades, no Brasil? Como podemos e devemos nos organizar para um futuro mais sustentável?

Entrevistei Roberto Andrés — urbanista, professor da UFMG e editor da PISEAGRAMA — e a conversa traz análises, informações e perspectivas bem importantes. Confira:

1. Roberto, quais as principais mudanças — físicas, socioeconômicas — já podemos tomar como decorrentes da pandemia nos centros urbanos?

Roberto Andrés — A pandemia fortaleceu uma tendência que já se insinuava no Brasil, que diz respeito a uma certa saturação dos centros urbanos, visto que nas últimas décadas as cidades cresceram muito dentro de um modelo insustentável: do automobilismo e dos privatismos.

O carro ocupa muito espaço nas ruas, produz muita poluição, barulho e torna a vida na cidade mais difícil de ser vivida. Quem pode começou a fugir desse modelo há mais tempo, indo morar em condomínios e lugares com mais espaço, o que se intensificou agora também com a possibilidade do trabalho remoto. No entanto, principalmente no Brasil, quem tem essa possibilidade é uma parcela mínima da população. A imensa maioria não tem condição e vai continuar vivendo nas cidades.

Outra tendência que se fortaleceu foi a do lazer privado, fora do espaço público da cidade. Esse movimento também revela uma série de privilégios: a maioria da população vai continuar usando a rua.

Depois que as pessoas estiverem vacinadas e a circulação estiver regular, vamos poder ver mais efetivamente quais mudanças de hábitos continuam ou não.

2. Como você enxerga a relação entre liberdade individual e responsabilidade coletiva hoje no Brasil?

R.A — Acho que o Brasil tem uma grande confusão. Sérgio Buarque de Hollanda falava muito de um “mal entendido da democracia brasileira“, que se expressa nessa contraposição de liberdade individual e coletiva. No fim das contas, a ideia de liberdade individual prevalece em determinados grupos que, de certa maneira, querem manter seus privilégios em relação a outros grupos que sempre foram subalternizados. A Liberdade só vai existir de fato quando for coletiva e comportar toda a sociedade, o tempo todo.

Até mesmo a liberdade de andar de carro em alta velocidade, sem radar, por exemplo, é uma liberdade que não comporta a sociedade toda; ela gera acidentes, é perigosa. Não está escrito em lugar nenhum da nossa Constituição que as pessoas podem são livres para se deslocar de carro. O carro tolhe a liberdade do outro: ocupa grande espaço nas ruas, produz muita poluição e oferece grandes riscos de acidentes.

3. A questão dos alagamentos e tamponamento dos rios, o preço da passagem, o plano do metrô, o número de imóveis sem uso, por exemplo, são problemas antigos que seguem existindo em BH. O que tem sido feito a respeito dessas pautas e por que a passos tão lentos?

R.A — São questões antigas que dizem respeito ao modo como ocorre a acumulação financeira, um certo controle político por parte de algumas elites. A luta por uma cidade melhor para todos e todas enfrenta uma meia dúzia de barões que lucra com a cidade como ela funciona hoje. Por isso precisamos de muito mais organização. Não é possível ter uma cidade para todos enquanto tantos carros circulam pelas ruas, enquanto não temos uma política de habitação…

Uma mudança de visão e de cidade nunca vai ocorrer sem desagradar certos interesses de grupos específicos. A notícia boa é que esse grupo é minoritário. São proprietários de empresas de ônibus, da indústria automobilística, de grandes construtoras… Quase como um colonialismo tardio. Pessoas que têm suas casas em Miami, moram em condominios, não vivem a cidade, mas lucram com o caos que ela oferece para todos nós.

4. O número de mortes por acidente de carro e poluição do ar são alarmantes aqui e no mundo. “Em que pé” o Brasil se encontra na discussão e efetivação de políticas e campanhas que mudem esse cenário?

R.A — As mortes por poluição do ar no mundo passam de 7 milhões por ano, e uma parte considerável é no Brasil, embora os números mais significativos sejam dos países asiáticos. Esse é um problema diretamente ligado ao tamanho da indústria automobilística. Por acidentes de trânsito, são mais de 1 milhão de pessoas por ano, e o Brasil tem uma das maiores taxas.

Infelizmente, com o governo atual, que não é só negacionista em relação à pandemia, mas também nega outros problemas reais do país, não temos nenhum avanço nessas políticas; pelo contrário, temos retrocessos por meio de decisões como a retirada de radares das estradas e a flexibilização dos pontos da CNH, incentivando os motoristas a cometerem mais infrações. Tudo isso leva a uma situação que tende a piorar.

Esses números tendem a piorar no Brasil até que a gente tenha as políticas corretas, voltadas para a segurança no trânsito — diversos estudos mostram que a redução da velocidade tem impacto significativo na redução de acidentes e mortes — e para a priorização dos modos que geram menos acidentes e poluição: transporte coletivo e público, e modos ativos, principalmente a bicicleta e andar a pé. Essas medidas trazem impactos positivos para toda a sociedade, no entanto, não é a toada do governo que nos preside hoje em dia.

5. Há esperança de contermos o bolsonarismo até as eleições de 2022?

R.A — O bolsonarismo está um pouco enfraquecido nesse momento, por conta da questão da vacina. A população está vendo que o governo é inepto, incompetente. Temos um general como Ministro da Saúde, e embaixadores que prejudicam nossas relações exteriores. São pessoas com problemas cognitivos elementares gerindo o país, é uma situação de calamidade e, ainda assim, o governo ainda conta com o apoio de cerca de 30% da população.

É possível se organizar e vencer esse governo? Depende muito de como a oposição vai lidar com isso. Se for cada um por si, cada partido fazendo seu cálculo político para ver como pode se sair melhor lá na frente, existem grandes chances de o Capitão Cloroquina se reeleger em 2022, e aí teremos um problema muito mais grave, porque a gente sabe que o segundo mandato desse tipo de gente é o mandato em que eles conseguem implementar medidas autoritárias mais consistentes que tendem a perpetuá-los no poder: inviabilizando a mídia independente, alterando regras eleitorais, favorecendo os seus. Tudo isso está no horizonte.

Bolsonaro tem como princípio ser autoritário, eles pretendem de fato implementar uma democracia iliberal no Brasil — que é aquela democracia em que se mantém o voto mas as características de uma democracia liberal já foram todas erodidas.

Se a oposição se organizar e se dispor ao diálogo, buscando alternativas reais com consensos maiores que possam superar o presidente, é possível vencer sim. Não é uma disputa invencível, mas acho que o Bolsonaro conta com a desorganização e o “cada um por si da oposição”. Se cada partido olhar só para o seu projeto, acho que ele tem grandes chances de se reeleger.

* Entrevista por Stella Nardy 

Autor
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