O que move a escritora é o que move a escrita

 Foto: Leonardo Lott

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“(…) no próximo nem precisa botar esse tipo de selo ISO 9000 que são orelhas e prefácios de outros escritores… Você pode encarar o leitor diretamente! Há tempos não me surpreendia tanto com um texto de estreante!”

Quem assina as esfuziantes aspas acima, para tratar de Sobre Pessoas Normais (editora Patuá, 2016) da mineira Marcela Dantés, é a escritora e ganhadora do Jabuti Maria Valéria Rezende. Apenas. As orelhas e prefácios a que ela se refere são, apenas, impressões de Daniel Galera e Assis Brasil. Sobre Pessoas Normais não deixa dúvidas: junto a ele, nasce uma escritora vigorosa e extremamente atenta ao ato da escrita, sua paixão desde a infância, quando pedia às primas que a deixassem escrever as redações da escola ou quando optou por passar as férias organizando os livros da biblioteca, também no período escolar.

Do nascimento, outros frutos, bastante raros em livros estreantes: Sobre Pessoas Normais ficou entre os semifinalistas do prêmio Oceanos e rendeu à autora um convite de José Eduardo Agualusa para residência na Vila literária de Óbidos, em Portugal. Voraz, o tempo que separa Marcela-publicitária de Marcela Dantés-escritora parece-me curto para sua produção. Dois novos livros estão a caminho, além do romance Aguarrás, abandonado sem hesitação assim que embarcou para Portugal. O fruto dos três meses passados em Óbidos está finalizado e, embora ainda sem nome, tem previsão de lançamento para este ano. O outro, que ela deseja lançar em 2020, está em andamento e já foi batizado: Da Cor do Fundo, cujo pontapé inicial parte de uma notícia de jornal (o primeiro capítulo você confere logo abaixo, com exclusividade). Talvez pela urgência do tema, Aguarrás tenha que esperar um pouco mais para acontecer.

Tais pausas parecem não afligir a autora. Ou, ao menos, não interferem em sua clara proposta de se reinventar sem o apresso do tempo urgente do mundo contemporâneo. Marcela é claramente movida por suas paixões e, quando se deu conta que dedicava-se à exaustão por algo que não formava mais sentido em sua vida, tratou logo de buscar outros caminhos. Após cinco anos de exclusividade em sua profissão, a autora partiu para uma pós-graduação em Processos Criativos em Palavras e Imagem. Em 2013, apresentou uma novela no trabalho de conclusão de curso. O livro foi escrito em três meses para a conclusão do programa. Finalizado o curso, jamais voltou a lê-lo, embora acredite que tenha ali material para ser “salvo”, um dia. Isso se sua necessidade aflita de escrever tudo aquilo que a move permitir: seria muito dizer que ela já tem tema, enredo e personagens para um próximo livro?

Essa questão é facilmente respondida após uma conversa sobre seus processos de escrita. Ao ser questionada sobre a existência de um método, Dantés precipita-se em afirmar que desejaria ser uma escritora com horários fixos e diários para logo em seguida revelar o extenso percurso que se propõe a trilhar após o surgimento da mola-mestra que a move no sentido dedicado da construção narrativa. Funcionária pública há seis meses, função que considera útil para se debruçar com o afinco necessário à literatura, Marcela faz valer um dos ensinamentos capturados na tradicional oficina de escrita criativa ministrada por Assis Brasil, que ela cursou em Porto Alegre: a criação e o desenvolvimento dos personagens.

“Depois que defino a história que quero contar, me ocupo das personagens, vou a fundo a suas histórias, me debruço em suas biografias. Mantenho um diário com anotações que julgo importantes sobre cada um para evitar contradições e desvios. Gosto de atingir metas, e para isso, marco datas para finalizar cada projeto, sei exatamente a quantidade de palavras que preciso produzir diariamente e, não sei bem o motivo, demarco o número de páginas que julgo necessárias para dar início e fim a cada narrativa”.

Literatura em primeira mão

Conheça, em primeira mão, um dos capítulos de Da Cor do Fundo, romance em construção de Marcela Dantés:

Elas não estavam preparadas para ser uma dupla, porque não se pode estar preparado para se perder qualquer parte vital do corpo, como os rins ou a pele. O frágil equilíbrio daquela família parecia estar nas costas de Francisco, que era sempre doce e tão bom para as duas (e para qualquer outra pessoa que existisse). Elas eram intensamente apaixonadas por ele e Francisco nem precisava fazer esforço para amar de volta: esse era o seu maior talento, amava como amam os vira-latas. Mas estava morto e seria preciso reconfigurar aquela casa e aqueles corpos. Estar sem Francisco era como viver na corda bamba — o que era difícil para uma menina de quatro anos com pés muito miúdos e para uma mulher cujo equilíbrio nunca fora uma virtude digna de nota.

Mas não se pode dizer que não tentaram. Como num circo, ensaiavam até que os músculos doessem uma dor insuportável, assistiam aos tombos e tropeços uma da outra, se ajudavam a levantar e recomeçavam. E depois tudo de novo. Anja, que fazia pouco tempo aprendera a dormir sozinha em seu quarto, foi relocada para a cama do casal (que já não mais existia). O peso da menina não era suficiente para enganar Dulce, mas ajudava. Quando ela acordava sobressaltada, porque o ar atravessava o quarto de um jeito diferente, atropelando os seus pulmões e ardendo as pálpebras fechadas, ela se lembrava da menina ali e apertava o seu corpo quente em silêncio para conseguir dormir de novo. Ninguém nunca se esqueceu daqueles abraços.

Aos poucos a casa foi voltando à sua rotina normal. Tomavam o café da manhã juntas e seguiam para as suas obrigações: uma trabalhava e a outra brincava, ambas em silêncio. Tinham a seu favor a máquina de costura que ficava em um quarto grande e arejado. Assim, entre um ponto e outro, Dulce podia observar a menina crescer. Às vezes se sentava no chão ao lado da filha e enquanto ajudava em quaisquer que fossem as aventuras em que a menina estava envolvida, repassava, incessantemente, os acontecimentos que levaram até a morte de Francisco, se culpando em silêncio por todo o excesso de sal e gordura. Provavelmente foi por isso que Anja associou qualquer brincadeira às lágrimas. E nas raras vezes que saía e via as crianças brincando na praça, ela não conseguia entender como elas podiam passar horas com seus castelos de areia ou seus quebra-cabeças ou ainda as bonecas sem derramar sequer uma lágrima por isso.

A voz do autor

Escute na voz da escritora:

Autor
Publicação belo-horizontina dedicada à produção literária autoral mineira e brasileira. Em parceria com o GUAJA e com a curadoria de Flávia Denise e Val Prochnow, a revista publica neste espaço, mensalmente, contos, poemas e trechos de textos de autores locais.

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