Essa é uma carta de amor

 

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Jonas,

A gente transformou a vida numa ciranda louca com esporas afiadas nos pressionando numa inércia cretina. Roda moinho e pião, sem pensar o porquê, pra que e para onde. Não cabem questionamentos, o inconcebível é parar; frear é sinal de fraqueza. E, ordenados pelo imperativo das tarefas, vivemos uma ciclotimia perversa, ora embriagados por nossos desempenhos narcísicos, ora massacrados pelo peso da nossa auto imposta servidão. Mas, em ambos os polos nosso valor está sempre atrelado a nossa performance. Quanto vale o show?

Pode ser que valha tudo e por isso mesmo, de nada valha. Pra isso escrevo, porque é o que eu consigo fazer. Essa é uma carta de amor e, portanto, deve ser bem coió, favor não botar reparo, mas é de peito aberto e sentimento descoberto.

Escrevo pra você, meu irmão Jonas. Dos quatro o mais parecido comigo, o mais cabeça dura e temperamental. O que mais tem delírios de controle. Vixe, meu irmão… agora ficou bem difícil interpretar esse papel. O mundo virou um caminhão sem freio descendo uma ladeira atroz; descontrolado, desgovernado. As poucas certezas que a gente achava que podia ter, se esvaíram no ar.

Você tá aí nos States e quer voltar pra casa. Você está sozinho e tem medo. Você está com saudade e quer aconchego. Você que sempre perseguiu o triunfo e se pôs em função de realizar. Você que sempre teve sonhos grandes, e sempre foi tão destemido e obstinado na sua caçada.

Você que veio do rio Doce, ganhou o mundo e aprendeu a ser acre pra sobreviver a ele.  Das muitas noites insones que você coçava e feria a cabeça tentando ajeitar as ideias para planejar seus próximos saltos, chegamos até aqui.

Um caminho que só a sua companheira de vida toda consegue dimensionar. Da delícia, mas da dor. A ousadia muitas vezes posta à frente do bom senso, a teimosia infinita, a inconsequência tão característica dos Cunha. Você tem muito do nosso pai, por mais que não goste de admitir. A falta de ouvidos e a mania de fazer o que quer, contrariando qualquer razoabilidade. E tantas vezes você ignorou todos os riscos e forçou tanto a barra, que o seu coração estourou. Uma vez. Duas vezes. Precisou de reforço mecânico. Me fez ver na cara do seu filho a reedição do meu medo maior: o pavor de perder “o cara”.

Hoje soube que você foi a uma feira, saracotear.  Não sei se é negação ou completo esculacho. Você ainda não entendeu a importância de se confinar? Sério, cara, assim não dá. Queria escrever num tom mais meloso, afinal essa é uma carta de amor, mas aí tu me fodes o obséquio.

Um respiro profundo pra tentar continuar. A você eu peço: para! Se aquieta! Esse é um pedido de profundo amor. Agora não há o que fazer, a não ser esperar. Não sei se conhece esse verbo, mas é urgente se inteirar. Ninguém sabia que as coisas iam caminhar assim, e a situação do mundo muda em minutos. As dúvidas se acumulam, assim como as histórias tristíssimas.

E calhou de você estar aí, no país que mais registros tem atualmente desse vírus que reina sobre a (nossa) humanidade. Não, não é hora de voltar, meu irmão. Os médicos dizem isso, os noticiários mostram aeroportos apinhados de desespero e foco. A fragilidade da nossa raça completamente desnudada, assim como posta à prova a nossa capacidade de cooperar. Lições diárias temos vivido. Um uppercut em toda a prepotência e a constatação óbvia da interdependência e fragilidade humanas.  É uma barcaça mundial e não tem primeira classe que salve você, eu ou o presidente do Santander.

Tu já abusaste tanto da sorte, que até o gato tem te olhado atravessado, resmungando aos quatro cantos que as sete vidas, que pro diabo vá. E, ademais, ia ser de péssimo tom terminar a jornada assim. Morreu de que?

– Morreu de Jumentice. Acho que pega mal pra caramba pra tua fina estampa.

O corona tá na tocaia pra pegar homi valente que nem tu, jacu! Se toca. Minha vontade é fazer voltar em vigor a mão-de-pilão, taca, chinela, palmatória e vara de marmelo, tal como descreveu pai, naquela carta intitulada “Posologia para Jonas  – modo de usá-lo, quebrá-lo; leis e freios recomendados e demais disposições e posturas subsidiárias às vigorosas e sadias normas dos trancos- e- barrancos”.

Ok. Superado o momento de cólera que sinto por seu comportamento afrontoso, termino essas linhas de maneira chantagista, chantagem branca decorada com florzinhas. Imagina só.

Imagina a festa que vai ser quando tudo passar e você passar por tudo? A Tantã e a Lili hão de fazer outro natal temporão ainda muito mais sensacional, abençoadas que são. Vou te receber com trancinhas para que puxes à vontade. O Rato vai levantar o brinde convocando o Henricão pra encher as taças até derramar. Muitos não notarão que pouco tempo antes, esse projeto de delinquente pisou no cocô do Otávio e saiu carimbando a casa toda. No olhar do Érico você escutará a música do Fábio Jr. embalada por aquele sorriso imbatível. A Jandira virá toda garbosa ofertando bolinhos de bacalhau que colocam no chinelo qualquer buffet assinado ou comida do Papai Noel. Até aquela sua cachorra histriônica vai ser convidada e poderá batizar todos os tapetes da casa pela alegria de te encontrar. Pellegrines virão em peso pra te prestigiar.  A gente vai fingir que o Cruzeiro tá na série A e o Xu vai dar aquele grau no Despacito para que ninguém se escute mais e que só nos reste abraçar. De alegria, de graça pela vida tão cheia de graça que a gente há de voltar a enxergar. Isso, se e somente se, prometer se comportar.

Um murro,

Ninica.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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