Eu não mereço

 Homepage Eu não mereço. Go to the profile of Lívia Campolina Lívia Campolina Feb 18 Nós merecemos mais. Foto: Gabriel Juan Fotografia.

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Quem te deu esse direito de falar assim comigo?

Desci, triunfante, com a fantasia com que passei meses sonhando. Do jeitinho que eu queria, o tule da cor da minha pele, as flores como se pregadas direto no meu corpo.

Recebi a primeira cantada.

Hora um do Carnaval das Mina, um evento pensado pelas, com e para as elas. Mulheres de todas as idades e histórias, unidas para cantar e tocar juntas, músicas feitas por mulheres, que falam e clamam pela vida dessas e de outras de nós.

Quem você pensa que é pra tentar se aproximar?

Hora dois do Carnaval das Mina. Fui assistir As Pandeirista, depois de aguardarmos uma trégua da chuva. Minhas amigas arrumavam seus instrumentos, decorando-os com flores e elementos verdes, os temas do bloco. Uma delas amarrava na caixa uma faixa — muy adequada — a favor do aborto legalizado e gratuito.

As Pandeirista. Foto: Maxwell Vilela/Jornalistas Livres

Enquanto isso, fui sozinha ficar mais próxima do trio. Dois homens viram esse movimento. Comentaram entre si (alto o suficiente para que eu pudesse ouvir) o que eles achavam do meu corpo e da minha roupa.

Eu não te conheço, nem quero saber. O que você pensa a meu respeito não precisa me contar.

Os dois homens estacionaram seus olhares (e seus corpos) logo atrás de mim. Um outro apareceu ao lado desses primeiros. De cima a baixo, eu sentia os olhares perfurando o leve tecido do tule. Um deles esticou a cabeça, na intenção de ver melhor.

Guarde pra você todas as palavras, os olhares, a malícia, que só enxerga quem quer ver.

Eles continuaram comentando entre si. Não sei se se dirigiram à mim. Tentei ignorar e ouvir a música d’As Pandeirista. Mas o som do machismo era alto. Não consegui curtir, só conseguia sentir os três me cercando.

Olhei para a roda de mulheres, cantando por sua liberdade, enquanto eu era coagida a voltar para perto de minhas amigas. Longe daqueles que insistiam em me assediar.

Talvez eles não tenham percebido as tatuagens do “não é não” estampadas no meu corpo. Talvez eu precisasse gritar para que eles parassem para pensar no quanto estavam me incomodando. Talvez nada disso faria diferença?

Meu jeito de andar, a minha saia, minha blusa decotada não são convites pra você.

Hora três do Carnaval das Mina. Outras amigas foram chegando, o sol saiu, a animação foi nos contagiando. Um dos mesmos homens apareceu do nosso lado em algum momento, nos encarando, tocando em nossos instrumentos, perto demais para quem se preocupa com o espaço pessoal das outras pessoas. Mas pedimos a ele que nos deixasse. Ele saiu.

Eu queria uma foto na luz do sol, com a praça, com a rua. Enquanto uma de minhas amigas preparava o ângulo dessa fotografia, o mesmo homem apareceu novamente. Pediu uma foto, mas não uma dele — queria entrar na minha foto, queria passar o braço em meus ombros. Qualquer coisa para tocar no que ele acredita que está à disposição?

Minha liberdade vai além do seu desejo.

Eu não sou boneca programada pra te dar prazer. Olha no meu olho e vê se mostra algum respeito.

Foto: Cadu Passos.

Hora quatro do Carnaval das Mina. Dentro da bateria, só mulheres. No apoio e entre as batuqueiras, carinho e cuidado. As Mães pela Diversidadepassando com amor, leveza e paçoca. Água mineral, bala, biscoito, catuaba? Uma borrifada de água para aplacar o calor?

Um sorriso, uma gentileza, todas unidas para cantar as músicas do Bruta Flor. Cantei, pela primeira vez para um público tão grande e diverso, os versos de Elza Soares. A responsabilidade era muita: dar voz à Maria da Vila Matilde.

Com a companheira cantora, as companheiras regentes, as companheiras do batuque, até mesmo a fotógrafa que nos acompanhava, eu sentia a força do incentivo e da parceria. O sol brilhava.

E quando deixou de brilhar, brilhamos nós, na chuva.

Foto: Cadu Passos.

Eu sou minha, escolho comigo quem vai. Meu corpo, minhas regras, nada mais. Demorei muito pra dizer.

Foto: Gabriel Juan Fotografia.

O sentimento era esse. “Demorei muito pra dizer”. A sensação de subir ao palco e projetar a minha voz pelos auto falantes. Era isso. Eu precisava disso. De ter feito isso antes.

Enaltecendo as cantautoras de BH, cantar ao lado de quem emanava força, verbalizar os versos e as histórias de tanta mulher imensa.

Priscilla Glenda, Nath Rodrigues, Vi Coelho, Claudia Manzo, Julia Dias, Maíra Baldaia, Elisa de Sena, Gal Duvale, Manu Ranilla, Luísa Nascimento, Joana Machado, Anna Lages, Nina Sartori, Coletivo Negras Autoras. Luísa de Paula. Marina Araújo. Marina Clara, Pipoca, Adriana, Esther, Efigênia, Lygia, Bella, Ariane, Iolanda, Vivian, Paola.

Éramos tantas e éramos uma só. Bruta Flor.

O texto está recheado de versos dessa música da Priscilla Glenda, vocalista do Djambê, que diz tanto e tão claramente. Eu não mereço, ninguém merece.

Lindo seria se as más experiências com homens no cortejo parassem depois de eles nos ouvirem nas canções. Cantei a música da Priscilla a plenos pulmões, encerrando o cortejo do Bruta.

“NÃO É NÃO”, completei.

Os episódios com aqueles que se usavam de fotos para se aproximar: teve mais. Homens que invadiram a bateria. Que ficaram nervosos quando dissemos que não, não podia. Que precisaram da mobilização de todas as mulheres presentes na última apresentação, da banda do bloco Truck do Desejo, para nos deixar tocar. Com quem tivemos de gritar, pedir, chamar os bombeiros para nos respeitar.

A gente não merece. A gente não aceita. A gente não se cala.

A gente segue. Na chuva, no sol, com ou sem instrumentos.

Durante e depois do carnaval.

Tantas. Uma só.

Bruta Flor.

Autor
Propositalmente perdida nas infinitas possibilidades da Comunicação. Bagunceira, espalho minhas coisas por aí sem a intenção de guardar de volta no lugar. Entrei na área pelo Jornalismo e fui parar no Marketing Digital, explorando ainda uma segunda habilitação em Publicidade e sempre flertando com as Relações Públicas. Hoje, trabalho como Social Media na Filadélfia. Sou ciclista de bike do Itaú aos fins de semana, mas meu esporte favorito é ler: quebro recordes pessoais de páginas lidas por semana. Me interesso por um mundo de coisas - não sei me decidir por uma só. E nem quero.

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