Pequeno manifesto sobre a expressão ‘ex-mulher’

 

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Ex-mulher assassina, ex-mulher é assassinada, ex-mulher surta, ex-mulher salva. Ex-homem nunca nada. Em lugar nenhum.

Em uma busca rápida no meu Google, os três primeiros resultados para ex-mulher são: “ex-mulher do cantor sertanejo Hudson morre baleada em Limeira”, “ex-mulher de Renato Aragão” e “ex-mulher de Romário, Danielle Favatto”. Para ex-homem, são: “ex-homem mais gordo do mundo emagrece e encontra a pessoa amada veja essa evolução [ipsis litteris, juro], “ex-homem mais gordo do mundo” e “ex-homem aranha”. A mulher sempre em relação ao homem. O homem sempre em relação a si mesmo.

O homem não é menos homem quando se divorcia. Muito menos deixa de ser homem [talvez se torne até mais, solteiro, varão, poderoso nesse mundão!]. Ele só deixa de ser marido, ou esposo, de quando em vez.

A gente vira ex-mulher porque perde a função social. Se viemos ao mundo para ser costela-passarela, casar-copular-reproduzir-sorrir — o que somos quando o ciclo se rompe?

Eu queria lembrar — bom dia! — que ex-mulher é o caralho [não é a sua mãe nem a sua ex-tia]. Somos ex-esposas, ex-companheiras, ex-maridas, ex-parceiras. Tão mulheres antes, quanto durante, quanto depois. Nunca menos por deixar de estar casada. Jamais ex pela ruptura de um laço, de um amor, de um papel ou de uma amarra.

Com o monte de fé que carrego na vida, acredito que a gente é sempre mais. Mais humano, mais atento, na caminhada de sempre. Não desejo a ninguém ficar menos gente, assim, de um dia para o outro. De uma assinatura para outra. Não sejam ex-homens, sejam sempre mais homens. E pensem[os] oito vezes antes de deixar a linguagem subjugar a integridade e a identidade de uma mulher.

Pela Janela, de Camila Bahia Braga.
  • Este texto é parte do livro Pela Janela, lançado por Camila em março de 2015, pela Redondeza Crônicas. Com um olhar doce e forte sobre o mundo, a escritora traz recortes de gente, de rua, de ser e estar. Se quiser adquirir um exemplar do livro, é só se manifestar nos comentários que a gente entra em contato!
Autor
Formada em Comunicação Social pela UFMG, traz na bagagem algumas dezenas de cidades, pessoas e palavras. Camila olha o mundo com os olhos sorridentes e generosos. E convida esse mesmo mundo a um olhar mais demorado: para o portão dos vizinhos, para a algazarra do almoço de domingo, pra dentro da gente mesmo. Como não se emocionar com alguém que sente cheiro de amendoim torrado onde as pessoas veem gás de pimenta? Talvez seja esse desejo-vocação de ser para sempre impressionável o que envolve tanto a gente em suas palavras. São palavras despretensiosas e aconchegantes, que dão vontade de banho de chuva, conversa com mar e colo de avô. E são palavras deliciosas: não importa se é pra saborear devagarinho ou engolir em uma sentada.

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