Experiências surreais para além das palavras

 

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Existem certas situações na vida que são impossíveis de serem descritas em palavras. O que dizer da perda de um filho? Como narrar a reedição do primeiro amor na maturidade? Ou sobre a experiência de sair ileso de um grave acidente de trânsito?

Acredito que algumas vivências são embrulhadas em um tecido especial e é inconcebível capturá-las por completo. Sempre escapa algo. Esse tipo de situação eu costumo nomear de experiências surreais, a definição mais aproximada que eu consegui alcançar. Uma realidade desprovida de qualquer racionalidade, não importando a natureza do fato, na qual está sempre presente um perfume kafkiano.

Há algum tempo decidi celebrar meu aniversário sempre que posso, através de uma viagem. Deleitosamente escolhida, planejada e vivida. Esse ano, por uma série de questões ordinárias da vida, a programação foi sendo adiada e o entusiasmo não estava na sua melhor forma. Esgotado o prazo razoável e economicamente viável para a compra de passagens, decidi meio de supetão abrir uma gavetinha de desejos antigos e elegi a Turquia como destino.

Pouco tempo de preparo, pouca pesquisa e muito chão pela frente. Muitas horas de voo e de estrada já que resolvemos (marido e eu) conhecer o país de carro. Eu não tinha noção de como a Turquia era grande. Foram cerca de 3.500km percorridos durante intensas duas semanas de jornada.

Como em toda viagem, fizemos grandes descobertas. Istambul é a única cidade no mundo que está em dois continentes ao mesmo tempo, Europa e Ásia. Cruzar a ponte intercontinental, atravessar o estreito de Bósforo das aulas da quinta série; me fez imediatamente lembrar de onde eu vim, da pequenita Virginópolis (VGP para os iniciados) e me conduzir ao genuíno sentimento do mundo, tal como descreveu o nosso poeta de ferro.

Temperos, lenços, tapetes, ouro, chá. Os séculos de lutas, de diferentes domínios e impérios fizeram surgir um enorme sentimento de nação. Já andei um bocadinho de mundo e não me lembro de ter visto tanta bandeira hasteada. Nos prédios e monumentos públicos enormes bandeiras rubras dançantes, nas fachadas das casas, também nos carros, lojas, nas fábricas e ao longo das estradas: o orgulho turco encarnado.

Assim como quem separa o recheio do bolo para as ultimas bocadas, chegamos na região da Capadócia restando apenas dois dias de viagem. Além das formações rochosas sem paralelo no mundo, o voo de balão estava há algum tempo fazendo o meu coração palpitar. Já de cara recebemos a informação de que o voo tinha sido cancelado devido ao mau tempo. Ferrou! Tínhamos só mais uma chance de não voltar para casa aos prantos. Fui dormir rezando e nunca acordei tão feliz às 4h da matina.

Uma van nos buscou no hotel e fomos levados a uma espécie de QG das empresas de balão. Foi servido um café da manhã naquela torre de babel, o mundo todo estava representado ali. Recebidas as instruções gerais, cada um foi procurar por seu piloto. O meu se chamava Kamal, um rapaz de uns trinta e pouco anos que trazia a peculiar beleza turca nos olhos miúdos como que delineados por lápis kajal.

Um trechinho a mais de estrada e então um descampado. O dia ainda escuro é inesperadamente iluminado por rajadas de fogo que alimentam uma cúpula elástica que ia, aos poucos, se agigantando. Com olhar de incredulidade pensei: eles existem! Foi tudo muito rápido, do embarque à decolagem. Ainda travada pelo medo de altura percebi que isso não seria problema quando o marido me avisou que não estávamos mais no chão. Daí em diante, meu amigo… abriu-se o portal do absurdo. Eu não conseguia falar e nem acreditar. O sol rompendo as nuvens, pintando o céu e o mar de balões. Balões ridiculamente reais, enormes, muitos… planando. Epifania. Tela de Dalí. Inconsciente jorrando sonhos.

Apurando o surrealismo da cena, a superfície lunar/marciana daquele lugar com sua extraordinária geologia. Eu que tinha ensaiado fazer um clipe e interpretar Biafra cantando “Sonho de Ícaro” porque sou comediante incompreendida, acabei por ficar numa espécie de catatonia atônita. Virei uma Alice abestalhada numa Capadócia das Maravilhas. Surreal. Alguém, por favor, me empreste algumas palavras.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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