Fabíolla Amanda, uma história que se repete

 Crédito: Lucas Ávila

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Desde 2010 desenvolvo um trabalho de fotografia com pessoas trans de Belo Horizonte e do Brasil. Começou tímido, em poucos cliques, foi crescendo, virou exposição e hoje ocupa uma parte significativa das minhas produções fotográficas, ativismo e da minha vida. Ao longo desse tempo, muitas pessoas fotografadas viraram parte da família, amigos e amigas íntimas, confidentes. Desenvolvi uma empatia muito grande pela causa, é uma das realidades que mais me comove. Quando fui convidado pelo Guaja a ser colunista sobre o tema LGBT, pensei muito sobre o espaço que estava me adentrando, sobre o protagonismo, lugar de fala. Onde estão as pessoas trans, os gays e lésbicas periféricas, vítimas de tantos problemas e violências, nesses espaços? Como eu, do alto dos meus privilégios, poderia falar de forma confortável sobre essas vivências? Foi aí que resolvi deixar, a cada mês, um depoimento de alguém, narrado em primeira pessoa, sobre alguma situação que vivenciou. Que estas vozes, muitas vezes silenciadas, cheguem bem alto aos mais diversos espaços. Apresento a vocês a história da Fabíolla, uma amiga muito querida.

“Eu me assumi transexual aos 13 anos. Quando fiz 16, estava vivendo um período complicado. Trabalhava com a minha mãe, ela adoeceu, e a situação ficou muito difícil em casa. Eu tinha cabelos longos, pele lisinha, todo fogo da juventude. Chamava muita atenção dos homens quando ia para boates, festas. Minha mãe parou de trabalhar, meu pai recebia um salário irregular e eu me vi sem dinheiro, precisava ajudar em casa e pagar meu tratamento hormonal. Eu não conseguia emprego e a situação foi piorando, não queria largar a escola.

Certa vez, em uma boate, recebi a proposta de outra mulher trans. Ela me perguntou o que eu fazia e quais eram meus sonhos. Me falou sobre a casa que ela morava, onde alugava quartos para outras travestis e mulheres trans fazerem programa e atender clientes. Me falou do dinheiro rápido, do glamour, do que eu poderia conquistar e ganhar na vida. Voltei pra casa pensando sobre o assunto, que poderia trabalhar pra ela durante o dia e ainda ir à escola à noite. Liguei no outro dia, com muito medo dos meus pais descobrirem. No dia combinado pra eu começar, fiquei com tanto medo que não consegui ir. Na época, nunca tinha tido experiência sexual. Ficava pensando: “será que tem que ser assim?”. No outro dia, quando minha mãe teve uma piora, resolvi ir até a casa dessa mulher.

Ela me recebeu super bem, com ares de grandeza, me mostrou suas roupas caras e carros, tudo que eu almejava. Combinamos que eu começaria a trabalhar com anúncios de jornal, com o local e o número de telefone dela. Chegaria bem cedo e sairia à tarde todos os dias, pagando uma comissão por cliente que eu atendesse. Para meus pais, foi um alívio eu ter conseguido o emprego, mas eles não souberam com o que trabalharia. Era um turbilhão de coisas na minha cabeça: “o que meus amigos irão pensar?”, “e se meus pais descobrirem?”. Por fim, comecei a trabalhar e tudo rolou bem nas primeiras semanas. Com o tempo, eram mais obrigações a cumprir, mais favores. Mas o que mais me marcou não foram as falsas promessas, foi um episódio muito traumático pra mim.

Numa tarde, esperando o telefone tocar, ligou um cliente que marcou um programa. Tomei um banho, me preparei, enquanto a dona da casa estava no quarto ao lado esperando para receber sua comissão. Ele chegou, o recebi gentilmente, fomos para o quarto, tirei minha roupa e pedi o pagamento antecipado, como de costume. Foi aí que ele sacou uma arma e disse: “adiantado? Eu não tenho dinheiro e quero te foder”. Eu fiquei em pânico, se eu gritasse a dona da casa iria interferir e era provável que ele matasse a mim e a ela. Fiquei calada, em estado de choque, enquanto ele tirou a roupa e veio para cima de mim. Fez o que quis. Aquele homem gemendo e suando. Eu me senti um lixo, abusada, machucada. Deve ter durado uns 45 minutos. Quando ele terminou, vestiu a roupa e saiu do quarto. Fiquei ali na cama, sem entender direito, uma mistura de nojo e raiva. Logo depois a cafetina, dona da casa, chegou ao quarto e me perguntou como tinha sido o programa. Expliquei a ela toda a situação. Ela não acreditou, mesmo sabendo que a vida dela também estava em risco. Tive que pagar a comissão mesmo assim.”

Fabíolla Amanda é uma mulher transexual. Mora em Igarapé, Minas Gerais. Ela tem 30 anos e nunca teve sua carteira de trabalho assinada. E ainda precisa de um emprego.

#contrateumapessoatrans

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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  1. Parabéns pelo envolvimento tão dedicado à causa trans, Lucas. O seu trabalho ajuda a dar visibilidade aos tormentos vividos por essa camada da população tão sofrida e sempre esquecida. Gente privilegiada como eu e habitantes das zonas ricas das grandes cidades jamais teria conhecimento dessas questões não fosse a sensibilidade social de pessoas como você. Você ajuda a deixar o mundo um lugar menos sombrio. Obrigado.

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