Receba artigos sobre trabalho + vida contemporânea semanalmente em sua caixa de entrada!

×

O que o multi-empreendedor Facundo Guerra, o agricultor Ernst Götsch e o sócio-fundador da startup Sympla Rodrigo Cartacho têm em comum? Um convergente mindset (jargão que se populariza e, na tradução mais simplória para português, significa pensamento) em direção à nova economia.

Entrevistei os três recentemente e cada um deixou uma reflexão sobre um mesmo universo em transição, rompendo com tradicionalismos arraigados na economia clássica, seja pela valorização do patrimônio cultural das cidades, dos recursos naturais ou das pessoas no momento de ingresso na era digital.

O trio rompe paradigmas quando o assunto é onde e como vivemos, o quê e como consumimos. E se é para ter métrica, não querem atingir 1 bilhão de dinheiros, mas sim 1 bilhão de pessoas.

Facundo Guerra, conhecido por ser “o dono da noite de São Paulo, embora ele não seja fã desse rótulo, escreveu o livro Empreendedorismo para Subversivos (editora Planeta, 2017), uma espécie de guia para abrir um negócio no “pós-capitalismo”. Ele conquistou esse título após mais de uma dezena de empreendimentos na capital paulista que desafiou a reputação da cidade — a do trabalho, do dinheiro e do trânsito, apenas -, sendo um dos responsáveis pela revitalização do cenário cultural da cidade.

Para Facundo, esse grande capitalismo, o corporativo, começa a se fragmentar: os meios de produção ficam cada vez mais acessíveis, seja pela cultura maker, ou pelo “do it yourself”, ou pela volta ao handmade.

“Talvez você continue comprando parafuso de uma grande fábrica, assim como remédios, pois são produtos precisam de muita tecnologia integrada que ainda virão de grandes corporações. Mas, cada vez mais, procuraremos produtos sem obsolescência programada na sua concepção, que provavelmente virão de empreendedores e não de corporações. Precisaremos de menos coisas”, diz Facundo, que também poderia ser identificado como ex-funcionário de multinacional e estudante de anarquia.

O pensamento está alinhado com o conceito das tecnologias exponenciais, segundo o futurista Peter Diamandis. As novas empresas estão desmaterializando, digitalizando, desmonetizando e democratizando o que já foi físico um dia, criando novos produtos e processos.

Neste sentido, surge um case de sucesso em Belo Horizonte, nascido no San Pedro Valley, o berço da inovação da cidade: a Sympla. Se você já precisou comprar um ingresso on-line para participar de um evento, congresso, curso ou workshop, provavelmente conhece a startup. Fundada em 2012, é hoje a maior plataforma para venda de ingressos, inscrições e gestão de eventos no Brasil. É líder no segmento “faça você mesmo”, onde qualquer pessoa, produtor cultural ou não, consegue organizar o seu evento por meio do site.

Em seis anos de operação, vendeu mais de 16 milhões de ingressos virtuais, em mais de 2 mil cidades brasileiras e 200 mil eventos. Em 2017, a empresa movimentou mais de R$ 200 milhões, um resultado 120% maior do que o registrado no ano anterior. Por trás deste sucesso estão aproximadamente 200 pessoas, divididas entre a sede Belo Horizonte e outros cinco escritórios, em São Paulo, Recife e Goiânia, além de Porto Alegre e Rio de Janeiro.

Para Rodrigo Cartacho, um dos sócios-fundadores, estamos vivendo um momento único na história, uma etapa de extrema transição. “Muito além de uma revolução tecnológica, acredito que estamos vivendo uma revolução de modelos de negócios e plataformas. Se pensarmos que o smartphone como conhecemos hoje nasceu há pouco mais de 10 anos e que hoje todos os brasileiros “vivem” nos seus celulares, imagine o que irá acontecer nos próximos 10 anos. É uma época difícil de prever, mas uma coisa é certa: todas as indústrias, mercados e plataformas serão transformados nos próximos anos. Todas!”

A “crise” que mais preocupa o geneticista, agricultor e pesquisador suíço Ernst Götsch, há quase 30 anos vivendo no Brasil, é resultado do sistema racional em que a sociedade vem sendo submetida. “Ninguém quer ser submetido à exploração: nem eu, nem você, nem o seu vizinho, nem ninguém. Esse maravilhoso e abençoado país, o Brasil, tem seus sistemas submetidos aos princípios da concorrência, da competição, da exploração. O planeta se recusa a isso, o ser humano se recusa a isso.”

Para Ernst, o ser humano, desde a escola, está sendo ensinado, ou melhor, forçado a pensar de forma racional e analítica. “Imagina as pessoas produzindo o seu próprio alimento nas cidades? Iria requerer mudanças fortíssimas na lógica da economia. De repente, o parâmetro mais importante de desenvolvimento não seria o PIB, mas o índice de bem-estar”. Segundo ele é preciso pensar no significado, na função da vida. “Estamos desconectados do planeta, achando que nós somos inteligentes, e não vendo que somos parte de um sistema inteligente. As respostas podem ser encontradas na própria natureza”.

Facundo, Rodrigo, Ernst: três perfis completamente diferentes. Mas, deles, podemos tirar uma única conclusão. O mundo vive uma transição de eras, da industrial para a digital, onde é preciso romper com o que nos moldou até então para, inovando ou não, seguir em frente de uma forma mais consciente. As repostas para as várias crises que encaramos podem estar onde você não imagina: na gente mesmo, no outro, no simples, na natureza.

Ah! As inscrições para o curso Newspaper x Hyperlink, que darei no GUAJA, estão abertas. O encontro será nos dias 4 e 5 de junho, segunda e terça da semana que vem, de 19h30 às 22h30. Saiba mais aqui

Autor
A jornalista Paola Carvalho é colunista sobre nova economia no jornal Estado de Minas, editora do portal GUAJA.cc e fundadora da agência de comunicação e produtora de conteúdo Blank_Space. Passou pela TV Band, Rede Minas, assessoria de imprensa da operadora Claro, Diário do Comércio, Folha de São Paulo, Metro SP e VEJA BH. Como repórter, ganhou prêmios, como os do Sebrae, Senai, Apimec, Crea e Ministério Público de Minas. Foi finalista de outros, a exemplo do Prêmio Abril de Jornalismo, na categoria política. Entretanto, não acredita que a sua profissão a define hoje. É mãe do pequetito Otávio, filha de empreendedores, que ama se conectar com o mundo, com as raízes, seja por meio do que as cidades contam, ou do que as pessoas revelam. E, claro, ama mais ainda escrever sobre todas essas experiências e conversas. Participa de projetos, como o Chão Que Eu Piso, a Conexão Leopoldina, a Escola de Livre Aprendizado (ELA) e o FoodColab.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Você vai gostar

14 novembro — trabalho

A vez delas na barbearia: lugar de mulher é onde ela quiser

por

Como um mercado exclusivamente voltado para homens incentivou Fran Dias a empreender uma barbearia inovadora e comandada por… continue lendo ->