Pra não deixar de ser eu — embora preferisse te falar das flores

 

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Eu queria escrever sobre outra coisa e em outro tom, mas não deu. Estou como boa parte do nosso povo, tomada por esse cenário que se formou. Não tenho conseguido escrever como gostaria, o humor e a beleza que eu sempre busquei abandonaram a minha letra. Desde então tenho feito uma avaliação da extensão dos danos e, por conseguinte das minhas atitudes. Por que eu não consigo ser menos intensa? Pra que essa necessidade de sempre me posicionar? Por que o que eu tenho ouvido por aí, dito de forma tão banal, reverbera em mim como atrocidades?

Quando me dou conta já perdi boa parte do meu dia e manchei minha raspinha de esperança tragada por embates éticos. Dos quais eu prometi que me afastaria ontem e hoje de novo. Já perdi a noção das horas acompanhando entrevistas com sociólogos, historiadores, especialistas políticos, psicanalistas tentando explicar o que ninguém consegue entender e me esquivando de completar com “o que aconteceu ainda está por vir”.

Vejo tudo cru, dito por boca própria. Não precisou de nenhum artifício, distorção da realidade ou de alguma construção conspiratória. Ainda que estejamos craques em fazer isso agora. As pessoas leram o rótulo, sabem o que estão comprando e se orgulham do produto.

Eu não compreendo como é possível achar frescor e votos de mudança em algo que está posto há trinta anos. Nem Balzac entenderia. Me recuso a acreditar que num mundo de possibilidades e ações engenhosas estejam elegendo a repressão como a forma mais eficiente de combate.

Assisto incrédula a repetidos ataques a pensadores e artistas que a despeito da fuzilaria armada quebram o silêncio e expõem a sua aversão ao bizarro espetáculo que tem sido aclamado. Corta pra cena em que voltamos no tempo e assistimos às moças de família que se percebendo sujeitos desejosos de outra sina, tratavam de fugir com uma trupe de circo para conseguir existir. Ao fazer isso imediatamente decretavam a sua morte social entre as famílias de bem. Quando é que cultura e as expressões artísticas voltaram a ser atributos associados à calhordas e hereges? Seria o obscurantismo the new black?

A arte, o livro e o discurso coeso estão ganhando conotações estranhas. Ou porque vêm sendo sistematicamente esvaziados de sentido ou porque passaram a atribuir-lhes uma lógica corrompida com predicados de ameaça. Eu sigo defendendo a importância irrestrita deles seja pela coerência que persigo na vida ou porque boa parte da minha existência, pelo menos a parte de que eu mais gosto é profundamente dependente desses pilares. A subjetividade habita essas formas de linguagem e é através delas que acessamos o nosso material humano.

Tá difícil lidar com essa tristeza intrusa e tenho gasto muita energia pra não sucumbir a ela e deixar de ser eu. Mesmo me vendo cercada de pessoas que deixaram de ser elas, para mim. É uma espécie de paradoxo infeliz perceber que não tenho conseguido suportar a bandeira dessa gente neodiferente. Justo eu que acredito que são as diferenças que colocam vida na vida da gente, percebi que existem diferenças que são mesmo insuportáveis.

A verdade é que as coisas pra mim não são simples. Nunca foram, e isso se tornou um problema maior agora. Nunca consegui enxergar o mundo de forma binária porque acho que isso serve pra máquina e não pra gente. E a ordem vigente parece ser essa: se você não se define por isso, é imediatamente definido por aquilo. Sem conversa ou possibilidade de outras significações.

Andar
por aí, sob essa cerração, embalada por um
brado expurgatório retumbante, portando
minha alma inquieta e carregando o medo no
bolso tem se mostrado um enorme desafio de resistência.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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