Faltou Beijo pro Rafinha

 

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Na minha cidade existia um homem que chamava Beijo. Acho que ninguém sabia o nome dele de verdade, nasceu e morreu Beijo. Ele vendia picolé de groselha e de coco num casarão do centro, de pé direito altíssimo e portas grossas de madeira pintadas num tom verde anemia. Tinha mesa de sinuca e funcionava como bar, mas sempre que entrei lá, só tive olhos para o grande freezer horizontal, então pra mim sempre foi uma sorveteria.

O Beijo era um sujeito alto, magro e andava sempre muito alinhado. Ele pintava os cabelos de preto graúna e com o tempo ia desbotando, ficando acaju ao estilo do homem do baú. Acredito que era a mulher dele quem executava a tarefa e por conta dessas vingancinhas de casal, deixava sempre as orelhas do homem tintas também. Toda vez que ele se curvava sobre o freezer para apanhar os picolés ficava aquela orelha pulsando bem na altura dos nossos olhos, uma visão “picasseana”.

Andávamos sempre aos bandos descarrilhados pela cidade e entrávamos na venda falando todos ao mesmo tempo. O pobre homem respirava fundo, arrependido do ofício. O problema era que além de dois sabores, os picolés também tinham dois formatos: quadrado e redondo; e logo a algazarra começava:

– O meu é de groselha redondo!

– Eu quero o de coco quadrado!

– Beijo, Beijo!

O infeliz revirava as entranhas e geralmente a cena acabava assim:

– Acabou a gritaria! Agora é do que sair!

Dia desses estava almoçando num tradicional restaurante de BH. Lugar acolhedor de comida muito bem-feita. Entra um casal e com eles o Rafinha, com os seus possíveis seis anos. Rafinha vai passando as mãos sobre todas as mesas do lugar, a que ocupávamos inclusive. Dá a volta no salão e a mãe suplica baixinho:

– Rafinha, filho… escolhe aonde você quer sentar.

Rafinha olha pra ela com desdém e prolonga um pouco mais a triagem.

Acomoda-se numa mesa próxima a nossa e os pais fazem o mesmo. Rafinha fala alto e deixa bem claro que não está feliz:

– Não gostei desse lugar – delibera do alto de sua vasta experiência gastronômica.

– Filho, aqui é bem legal, vou pedir uma batatinha e uma carninha que você adora.

Ele, irredutível:

– Não quero batata, não quero carninha, não gostei desse daquiiii…. mia. Os supostos adultos fingem ler o cardápio com naturalidade. Mas Rafinha está inabalável. A garçonete se aproxima com cuidado. O pai usa o cardápio no modo máscara, a mãe pede com a voz melosa pro Rafinha “contar pra moça” o que ele quer beber, sugerindo as prováveis escolhas. Ele, impiedoso profere a sentença sumária olhando através da moça:

– Eu vou embora daquiiii. Caminha categórico em direção à rua. A mãe corre atrás. O pai-cardápio fica atônito. Resolve ir também e alguns minutos depois volta, conversa alguma coisa com a garçonete-invisível e vai embora pra onde Rafinha o levar.

Me deu uma saudade danada do Beijo. Tive pena do Rafinha não o ter conhecido, e nesse dia, o agradeci sinceramente por já ter chupado muito picolé de groselha quadrado, mesmo quando o que eu queria era o de coco redondo.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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  1. Hanna amo crônica a casos historinhas mão coisinhas deliciosamente escritas por que está sorrindo enquanto escreve
    Amo você princesa

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