Amor não basta para ser feliz a dois

 Os australianos Rick e Viv, 70 anos de idade e 50 anos de casados, na região do Cajón Del Maipo, no Chile. Eles seguiam viagem do país sulamericano à Antártida. Foto: Pedro Duarte

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Estes dois aí da foto são o casal de australianos Rick e Viv, uma simpatia só. Cabelos brancos, joelhos enferrujados pelo tempo, sorriso no rosto. Tivemos desses encontros improváveis, no meio da Cordilheira dos Andes, poucos dias antes de voltar ao Brasil para celebrar o último casamento do ano. Precisei mudar o texto do casório por causa da nossa conversa, que ainda ressoa.

Na terça-feira em que os conhecemos, Pedro e eu estávamos naquela atmosfera romântica de um dia bom, com coração meio apertado pela proximidade do fim das férias. Seguimos na van para o Cajón del Maipo, nos arredores de Santiago, trocando carícias, beijinhos e risadas de piadas bestas contadas ao pé do ouvido. Rick e Viv, 70 nos de idade, 50 de casados, estavam no banco da frente.

Não falavam uma palavra sequer em espanhol e, numa parada da estrada, acabamos nos aproximando. Precisaram de ajuda para pedir um café, sem açúcar, por favor. Bastou pouco tempo para descobrirmos afinidades e menos ainda para revelarem que, ao nos verem, jovens e enamorados, lembraram do início do casamento deles, desconfiavam que também atravessaríamos décadas juntos.

Rimos muito, torcendo para que estivessem certos. Era lindo ver os dois, cúmplices de uma vida, quatro filhos, tantos netos, se aventurando no Chile rumo à Antártida. Rimos mais ainda quando contamos a eles que estávamos naquele grude porque vivíamos um dia bom, ao contrário do anterior, uma segunda-feira bem mais ou menos, abalada por interferências de humor, ou melhor, de mau humor.

“Volta e meia também temos uns dias péssimos. Tenho vontade de esganá-lo”, contou Viv, às gargalhadas, olhando para o marido. Rick logo emendou: “Casamento não é feito só de amor, é também feito de escolhas”;. A frase, vinda de um senhor amadurecido, soou como um alento. Tempos atrás, à custa de muita terapia, já havia chegado a esse ponto, só que de outro jeito. “Amor não basta. Ser feliz a dois é uma escolha”, escrevi.

Sempre me incomodei com a ideia de um amor romântico, de estar sempre nos braços do amado ou do famoso clichê “a gente se completa”. Essa versão é linda na teoria, mas muito pesada na prática. Relacionamentos são pequenos laboratórios da vida e ninguém vive só de amor. As pessoas seriam mais felizes se esperassem menos da relação.

O amor conjugal não está acima de tudo, mas no meio. No meio de alegria, de cuidado, de amizade, de tristeza, de ansiedade, de impaciência, no meio de bom e mau humor, de entretantos e poréns. No meio de dois corações. E, entre de tantas nuances, é preciso escolher estar junto de quem a gente ama, nos dias bons e nos outros também. O “sim” a gente diz é todo dia.

Autor
Jornalista e celebrante de casamentos na Amor Sempre Vivo. Acredito em três verdades absolutas: pessoas precisam ser ouvidas, histórias precisam ser contadas e a razão para nossa existência está em amar e ser amado. É por isso me tornei mais do que jornalista, uma jornalista que conta histórias de amor. Tive clareza desse propósito quando eu e Pedro celebramos nosso próprio casamento. Depois daí não parei mais. Aqui, a repórter dá vazão a tudo aquilo que faz o coração pulsar e mantém o amor sempre vivo.

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