Fermentar os frutos

 Imagem: Tamarcus Brown via Unsplash

Receba artigos sobre comida semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Um mapa acontece quando uma linha marca um rumo, o percurso de alguma comunidade (ou de algum peregrino eremita) em busca de pertencimento. Uma Terra, um Lugar onde habitar, ser e se reconhecer.

Assim, revisito minhas raízes.

A ancestralidade por onde as fronteiras desaparecem e os trópicos tornam-se destino e esperança de uma vida sem guerra nem perseguição. Marrocos, Peru, Brasil: Amazônia; Pará, o litoral, o Rio de Janeiro.

Essa foi a travessia marítima de muitos marroquinos desejantes por “uma vida melhor” nos meados do século XIX em nome do refúgio e da libertação: a liberdade com os próprios passos e o desejo de mudança.

Os nômades, essencialmente coletores, mercadores, comerciantes, buscadores, viviam no desvio de um sistema controlador e operante do risco. Nômades são subversivos e vivem na disrupção. Confiam no deslocamento e criam trans-sistemas. Tuaregues, caminhantes do deserto, bérberes, bárbaros que permutavam e negociavam suas moedas e estabeleciam trocas, a partir de suas necessidades e daquilo que fosse disponível em abundância e em suas mãos.

Hoje, ainda resistem em outras escalas e por outros dispositivos, talvez românticos, também artísticos e crentes de que o impulso para o movimento seja encontrar pouso, descanso e casa, através de vias criativas e ou filosóficas.

A cozinha é a alma desse lugar onde se constrói referência e identidade, onde acumulamos objetos e afetos. A casa é o corpo: reservatório de infinitudes e mistérios. Alma e corpo precisam de energia, vida e alimento.

Livros de receitas são diários de memórias e sentidos. Os ingredientes, o modo de fazer e o registro pessoal revelam a intensidade e o sabor de uma história. Um prato típico é uma assinatura. Transparece a personalidade de quem prepara e escolhe servir cardamomo ou noz moscada no tempero. Temperança: Mais pimenta, mais calor. Festejos ou fome.

Assim, lembro da cozinha da casa da minha bisavó, fervendo favas com aipo e hortelã, ensopando ameixas e damascos com cravo e canela. A mesma cozinha onde o açaí na cuia de coco em plena década de noventa só aparecia como um presente de alguma visita que vinha do norte ao sudeste sem tratar de qualquer moda e trazia na mala, embalado no isopor, iguarias para acabar com a saudade e manter a tradição viva no paladar.

Cupuaçu era um tesouro que ficava escondido, assim como os bombons de castanha do pará e os marrons glaceados. De tarde, após a escola, fazia com meus primos longas expedições ao quarto da bisa para descobrir esses esconderijos. Gavetas, armários e finalmente vencíamos nossas missões. Éramos tão inteiramente felizes comendo aquelas delícias.

Havia uma prateleira na despensa com os potes das conservas em que se afirmava uma preservação, não somente do alimento, mas também de uma cultura.

Conservar, preservar, cultivar, isso também é fermentar.

O limão galego, capeta, o limão amarelo submerso na salmora, curtindo para uso múltiplo após alguns meses. Perfume e aroma do mediterrâneo. O azedo, o salgado, gotas cítricas refrescantes sobre os assados.

Desse mapa desenhado com maresia e tempo, dias e noites, registrados e vividos por mulheres, mães, crianças, irmãos e homens que atravessaram continentes, as bagagens imateriais, projetos e escritos ainda permanecem nas células de seus descendentes, em ideias ascendentes e marcas que vibram e retornam diferentes quando são compartilhadas e revividas.

Revivalistas: Somos os ativistas, fermentadores, cozinheiras, pesquisadores, seres sensíveis que escolhemos ver através das lentes, ampliar o invisível e dar nome, lugar e valor para o que existe discretamente ou que temporalmente pudesse ser esquecido, mas que transformados, alcançam na potência outro uso e destino. A culinária e a arte são curvas de renovação da arqueologia. A agricultura dos desejos. A micropolítica do afeto e a ética do cuidado. Conservar limão é para além do pote de uma fruta fermentando, um universo de vidas preservando o sabor e a relação do homem com a natureza.

Receita para conservar/fermentar limão

Para 1 litro de conserva:

Colher a fruta do pé se possível (ou tentar comprar de algum produtor ou mercado local);

1 dúzia de limão

2 colheres de sopa para dissolver na água mais a quantidade de sal para passar nos limões (evitar o sal refinado)

1 litro de água filtrada

¼ xícara azeite de oliva

Modo de fazer:

1 pote de vidro de 1 litro higienizado;

Corte os limões em 4 partes no sentido longitudinal;

Abra como uma flor, passando bastante sal por dentro e acomodando-os abertos para o fundo do frasco com a casca para cima;

Aperte uns sobre os outros, com o mínimo de ar entre eles;

Acrescente a água e isole com o óleo, para a coluna de azeite cobrir totalmente os limões. Tampe bem o frasco;

Deixe em um local ensolarado por 3-4 semanas;

Usar (picado ou inteiro) como desejar sobre assados, sopas, em ensopados, no arroz, na fruta.

Fermente seu alimento. Lactobacilize-se.

Autor
Sou artista visual, vivo em Belo Horizonte e trabalho com fermentação selvagem. Por meio da Cozinha Nômade, interface criada para se deslocar pelos lugares, pesquiso e construo um trabalho em diálogo com a microbiologia, a filosofia, as medicinas e o cuidado com os seres vivos, desenvolvendo dinâmicas para criar pontes entre a arte, a poesia, a micro-agricultura, as economias colaborativas, as experiências culinárias e a reconexão com a natureza através do alimento.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

Aprenda lettering agora

Com apostila grátis! BAIXAR AGORA