Uma leitura sobre Beijo na boca, o filme

 

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*Por Eliska Altmann

 

Em 1982, doze foram os filmes brasileiros de maior público: Os trapalhões na Serra Pelada, de J.B.Tanko, com 5.043.350 espectadores; Coisas eróticas, de Raffaelle Rossi, com 4.729.484; Os vagabundos trapalhões, de J.B.Tanko, 4.631.914; Menino do Rio, de Antonio Calmon; Luz del Fuego, de David Neves; Fome de sexo, de Ody Fraga; Pra frente, Brasil, de Roberto Farias, com 1.298.055 espectadores; Aventuras da Turma da Mônica, de Maurício de Sousa; Amor estranho amor, de Walter Hugo Khouri; A noite dos bacanais, de Fauzi Mansur; Índia, a filha do sol, de Fábio Barreto; e Beijo na boca, de Paulo Sérgio Almeida, que contou com 562.851 espectadores.

Segundo o pesquisador Arthur Autran, nos anos 1980, devido a uma “censura mais liberal, filmes tornam-se mais ‘pesados’ e degringolam no pornográfico, com cenas de sexo explícito, chegando a representar cerca de 70% do total da produção brasileira em 1988”. Nesse sentido, a referida década teria sido marcada “pela decadência das formas de produção cinematográfica desenvolvidas no Brasil durante o decênio anterior”.

Deste contexto, o presente ensaio trata do longa carioca Beijo na boca, cujo realizador, posteriormente, viria filmar Banana split (1988), Sonho de verão (1991), Xuxa popstar (2000), Xuxa e os duendes (2001) e Xuxa e os duendes 2 – No caminho das fadas (2002). Seguindo temáticas comuns à maioria das produções do período, Beijo na boca não se furta a cenas de nudez, sexo e violência, como indica a sinopse encontrada na ficha catalográfica do filme disponibilizada pela Cinemateca Brasileira: “Uma garota de Copacabana enamora-se de um misterioso rapaz. Quando é pega com tóxicos, acaba sendo expulsa da casa dos pais e vai morar com o namorado. Este, influenciado por um primo, parte para investimentos em cocaína. O amor louco cresce em meio a drogas e revólveres e, para amenizar o ciúme do rapaz, os dois decidem matar os ex-namorados da moça”. Além do referido trecho, na ficha ainda podem ser lidos os seguintes dados: “Gênero: drama; Termos descritores: tóxico, comportamento social, juventude, homicídio; Descritores secundários: cocaína, praia; Termos geográficos: Rio de Janeiro”.

Mais do que “Rio de Janeiro”, Beijo na boca se passa, sobretudo, na Zona Sul (além da Cinelândia e Barra da Tijuca), revelada desde a abertura em cenas de Copacabana, do Pão de Açúcar, de orlas cariocas intercaladas com uma mão que segura um revólver e porta um soco inglês, sob a música de Marina Lima “Nos beijamos demais”. Entre os cenários “clichês” da “cidade maravilhosa” que ilustram a ficha técnica, o espectador ainda é apresentado aos protagonistas Claudia Ohana (Celeste), que sai do mar e veste uma camiseta “Rio I love you”, e Mário Gomes (Mário) a fazer exercícios na janela de seu quarto antes de se arrumar para sair. O prólogo termina com uma visão ampliada do Rio a se enquadrar numa espécie de cartão postal.

Tais informações dão ideia dos “termos descritores” de Beijo na boca: praia; homicídio (por meio dos signos revólver e soco inglês); comportamento social (também verificado através de marcadores sociais como classe, gênero e raça) e juventude. Destes, relacionados a índices socioeconômicos nacionais e regionais do período, vale conferir alguns dados: Cr$ 16.608,00 era o salário mínimo vigente em 1982 e 6.313, o número de vítimas de homicídios por armas de fogo no país no ano do lançamento de Beijo na boca.

De acordo com o especialista Julio Jacobo Waiselfisz (2016), em 1980, “as armas de fogo foram utilizadas para cometer 43,9% dos homicídios”, como os consumados por Mário e Celeste. Interessante notar ainda que o desenvolvimento econômico nacional concentrado nas grandes regiões metropolitanas, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo, era fator para o aumento da violência. Enquanto as taxas nacionais de homicídio eram de 5,1 por 100 mil habitantes, as das capitais seriam de 21,3. Recortados por sexualidade, índices mostram exclusividade masculina das vítimas, como os ex-namorados da protagonista: “94,4% na média nacional”. Deste número, a imensa maioria compreendia (e ainda compreende) a população negra. Na faixa de 15 a 29 anos de idade, igualmente em semelhança com os personagens, o crescimento da letalidade foi mais intenso do que no resto da população. Em 1982, 3.118 jovens foram mortos no Brasil.

Na década do lançamento de Beijo na boca, o antigo Estado da Guanabara liderou o processo de transição da fecundidade no país. Como aponta o sociólogo José Eustáquio Diniz Alves, as mulheres cariocas tinham em média 5 filhos em 1960, caindo para 3,5 em 1970, e chegando ao nível de reposição (2,1 filhos) na década de 1980. Entre 1980-85, contudo, o maior grupo etário brasileiro foi o de 0-4 anos. Conforme Alves, o aumento não teria ocorrido devido ao crescimento da fecundidade, mas porque havia mais mulheres em idade reprodutiva, especialmente entre 15 e 24 anos, como Celeste.

Entretanto, contrária aos ideais reprodutivos, familiares e religiosos de uma sociedade a viver os resquícios da ditadura militar que durou 20 anos, Celeste diz frases do tipo “dispenso seu dinheiro e esse tal de marido, tá legal?” Desse modo, pode-se supor que a personagem desvia, em certo sentido, da visão objetificada da mulher dos filmes eróticos campeões de bilheteria da época, bem como se posiciona numa margem de erro dos estereótipos ilustrados no filme.

Destes, vale ressaltar 1) o protagonista: homem branco, músculos definidos (Mário aparece quase 90% do filme sem camisa), que cumpre papel de protetor apaixonado por sua femme não submissa. Com verve machista, obstinado em apagar o passado de Celeste, ele pergunta incessantemente “que namorado? Quanto tempo vocês namoraram? Tem certeza que não tem mais nada com esse Arthur? Como pode provar?” Depois da decisão de assassinarem o ex da moça, Mário justifica: “Ele te comeu. Precisava mais alguma coisa? Você é minha mulher. Ninguém come”; 2) Osmar (Milton Moraes), o pai de Celeste. “Sempre em viagens de negócios”, o coronel da polícia reformado “sempre quis ter filho homem”, mas “como nasceu mulher, a responsabilidade maior da educação dela é sua”, diz à esposa ao limpar seu revólver. O personagem, evidentemente, é o provedor da família e também fornece mesada à filha; 3) a mãe de Celeste (Joana Fomm): do lar, “passou a vida inteira passando panos quentes” na cria. “Deixa a menina… Osmar, Celeste acabou de fazer 21 anos. Você não sabe o que é a cabeça de uma mulher nessa idade”. Por outro lado, adverte a filha: “Assim você não vai conseguir casamento. Não sabe nem fazer café!”.

Ao lado e à margem desses lugares-comuns, Celeste, de certa forma hesitante, parece antecipar princípios feministas mais articulados no Brasil contemporâneo. Há mais de trinta anos, a jovem dava indícios de uma desnaturalização das estreitas relações entre sexo e gênero. Assim, apesar de ter nascido biologicamente “fêmea”, parecia entender que não possuía uma “condição invariável”. Não precisava cumprir o papel reprodutivo de sua mãe, não precisava ser boa esposa nem moça de família. Seu devir mulher lhe conferia certo desapego e liberdade a ponto de dizer, com segurança e empáfia, a Mário ao telefone: “eu não te disse que era pra ligar só no final de semana? Saudades… já? Você não acha que está exagerando um pouquinho?”. Ademais, Celeste enfrentava o pai: “tira a mão de mim!”. “Mania de querer saber o sobrenome das pessoas… Até parece que aqui alguém tem sangue azul”. Seu pecado foi ter se apaixonado por Mário. Apesar de também enfrentá-lo (“deixa de ser ridículo! Fica me vigiando, se quiser. Eu, hein, que saco!”), confessa: “Estou com medo. Qualquer dia você me mata e diz que matou por amor”.

Tais tipos de Beijo na boca viviam numa urbe eminentemente praiana. Das raríssimas locações do filme, pode-se dizer que 90% são praias. Em tomada no Cristo Redentor, ouvimos de Celeste: “Ai, eu adoro o Rio. Acho que não conseguiria morar em outra cidade”. Deste amplo cenário, poderíamos concluir que o Rio de Janeiro de 1982 ou, pelo menos, de Paulo Sérgio Almeida, era branco, classe média, autoritário e machista – por meio das representações masculinas –, conformado e insubmisso no que concernia às mulheres. Como tal visão parece reducionista, valeria perguntar: Por que e para quem tal recorte discursivo? Como seriam representados outros grupos e tipos? Quem fala através do filme e quem o assiste? E se a geografia fosse deslocada do Centro – Zona Sul – Barra?

Como reflexão para estas e outras questões, averiguamos uma minutagem das aparições a apontarem para as representações das subjetividades cariocas no filme.

Dos primeiros 02’49’ a praticamente 04’07’’ (com um pequeno intervalo), Claudia Ohana aparece nua e só. A atriz ainda ocupará a tela na mesma forma por mais meio minuto ao longo do filme. Nua ou seminua, Celeste aparece, em cenas de sexo com Mário, também nu ou seminu, por mais 16 minutos. Diminuindo esses 17’50’’ dos 97 minutos totais do longa sobram 79 minutos. Destes, vemos por três segundos (12’45’’ a 12’ 48’’) um menino negro vendedor de balas e por cinco segundos (29’03’’ a 29’08’’) a empregada da casa de Celeste – igualmente negra e com uniforme – que nada fala. Em menos de meio minuto (28’36’’ a 29’01’’) ouvimos um porteiro branco e idoso, do tipo “fofoqueiro”, e por seis segundos, “Alemão”, um rapaz negro prestador de serviços, responde ao Mário dando-lhe a chave de seu conversível: “Aí, já está na mão, chefia”.

Como apontam e denunciam as inúmeras discussões sobre raça e gênero no Brasil atual, os tempos contados acima confirmam que percepções multiculturalistas a refletirem pluralidade racial e social não estavam na pauta dos dias de 1982. Entretanto, hoje, se lido a partir de abordagens culturais complexas, Beijo na boca serve-nos para compreender historicidades cinematográficas e sociais, e questioná-las. Um exame do passado, por meio de jogos políticos do presente, fornece ferramentas intelectuais sobre imaginários e resistências.

Em tempo: Beijo na boca ganhou primeira página do Caderno B do Jornal do Brasil no domingo, 10/10/1982. Na matéria intitulada “O sonho de ser uma estrela começa a se realizar”, a crítica Susana Schild indica que “embora o diretor negue a inspiração do filme no Caso Lou (e ao final de Beijo na boca surja na tela a advertência de praxe ‘qualquer semelhança é mera coincidência’), o enredo segue a trilha daquela tragédia”.

*A 17ª edição do Curta Circuito – Mostra de Cinema Permanente traz para a próxima sessão o filme Beijo na Boca e o bate-papo com o ator Mário Gomes e com a crítica carioca Eliska Altman. A exibição acontece hoje, no Cine Humberto Mauro (Palácio das Artes), a partir de 20h.

Autor
Formada em Produção Editorial com pós graduação em Gestão Cultural. Sou sócia das empresas Le Petit e Frutilla Filmes. Diretora do Curta Circuito — Mostra de Cinema Permanente e Coordenadora de Programação do Cinefoot — Festival Internacional de Cinema de Futebol — edição Belo Horizonte. Trabalho com audiovisual há mais de uma década. Recebi prêmios no Brasil e na Itália. Atualmente desenvolvo três projetos para TV: Chão que eu Piso, 7ª Arte em Cartaz e Tô Diet: sem açúcar com afeto.

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