“Fora do Eixo?” — uma conversa sobre a cidade onde vivemos e a cidade que queremos

 Gabriel Prata, idealizador do guia GUAJAnoRolê, media as discussões. Foto: William Mesquita

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Pensar a produção cultural em Belo Horizonte significa pensar a cidade e as relações que se estabelecem entre nós, seus espaços e políticas públicas. Para um rolê acontecer, diversos agentes são acionados, desde os mais concretos (documentação, fornecedores, artistas), até os mais abstratos que, sem dúvidas, marcam a produção e o uso do espaço urbano de uma forma mais profunda e complexa, dizendo muito de como a cidade foi construída e ocupada.

Fora do Eixo?” foi o terceiro painel do Além do Rolê e tinha como objetivo central discutir o movimento que se configura a partir da realização de eventos em locais que fogem da rota mais usual, ou seja, fogem da região Centro-Sul. Para contribuir na conversa da última segunda à noite no centoequatro, um time que parte de lugares e experiências diferentes enriqueceu enormemente o encontro: estiveram com a gente Paola Abreu (Diretora de Política para as Juventudes), Roberto Andrés (Arquiteto, professor e editor da Revista PISEAGRAMA), Gordaum (UAI SOUND SYSTEM), Rafa Quick (Cervejaria Viela — Juramento 202), João Rafael Lopes (produtor musical atuante em Sabará) e Danusa Carvalho (Circuito Gastronômico de Favelas).

Fora do eixo, interrogação

Sim, é fato. Tem sido percebido em Belo Horizonte um movimento de promover eventos em bairros fora do Centro-Sul-Leste, que vem ganhando mais força e visibilidade. Festas, feiras, shows, saraus, SLAMs, novos estabelecimentos e uma programação rica e diversa em áreas não-centrais.

Mas a quais outros fatores (sociais, políticos, urbanísticos e econômicos) esse momento está ligado? Quem desfruta dessa nova configuração? Quais são os desafios enfrentados por produtores e moradores? Como produzir eventos nas periferias sem roubar o protagonismo de quem lá habita? Fora do Eixo? Para quem? O que é descentralizar? A quem interessa? Por que a reforma de uma praça vale 5 milhões enquanto projetos de minorias custam a arrecadar 100 reais?

Muitas perguntas, sim, porque esse tema toca em vários pontos do planejamento urbano: (i)mobilidade, políticas públicas, ações culturais. Assim como também mobiliza várias pessoas: produtores, moradores, representatividades, rolezeiros. É uma discussão que abraça toda a cidade e que realça a construção política de não-incentivo na qual estamos inseridos maior parte do tempo.

A sucessão histórica da falta de controle do poder público sobre as periferias desencadeou um processo gradativo de precarização dessas regiões, que cresceram com uma demanda reprimida de lazer e outros produtos culturais. Ora, se os eventos acontecem no centro da cidade, como chegar até lá se o transporte público não me atende e funciona a altos preços? Vamos, portanto, produzir nós mesmos, com nossas mãos, em nosso território. Isso, inclusive, reforça nossa identidade e garante maior representatividade para os nossos rolês. Resistência.

Fora do eixo, ponto final

Parece simples, na prática, se existissem os recursos necessários para viabilizar tais produções. As periferias desde sempre têm criadores, talentos e projetos com potencial para reverberar em toda a cidade, mas quase nunca recebem os instrumentos para repercutir da forma merecida. A valorização dessas pessoas e a interação (que fala, mas escuta muito) com as comunidades periféricas é a ação mais importante de quem promove eventos ou abre estabelecimentos nessas regiões: a partir de um mindset coletivo e inclusivo, é aberto espaço para que todos possam interagir e contribuir com o rolê, com a possibilidade de também gerar renda.

Felizmente, a reocupação dos espaços, que tem sido mais efervescente nos anos mais recentes, é um desdobramento do fortalecimento da cidadania. Existe um movimento de reconscientização da população acerca do nosso direito à cidade e, a partir da formação de movimentos e coletivos, a luta pela marcação desse lugar fica mais forte. Estamos aqui, produzimos aqui e é aqui onde queremos investir nossos recursos e o reconhecimento que estamos conseguindo.

Basicamente, as duas linhas que merecem atenção são: valorizar e incentivar iniciativas que já existem nas periferias, de forma a fortalecer o empoderamento dessas pessoas para que elas continuem produzindo; e reconhecer o lugar onde se está, sabendo do potencial a ser explorado e reconhecendo o Estado como um reprodutor de privilégios que não atua igualmente para todos os setores da sociedade.

Assim, criar ações coordenadas e pensar projetos acessíveis são pontapés iniciais para rolês, de fato, fora do eixo. E aqui, fora do eixo não é apenas uma questão geográfica, mas também o modo de fazer diferenciado. É lutar contra as amarras, contra os padrões; é articular vozes, somar forças e conectar pessoas.

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Nos encontros me redescubro, nos desencontros me reinvento e nas experiências me multiplico e inspiro para ir sempre além. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou.

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