Foto extraída de tiagogamaliel.com.br

Receba artigos sobre tecnologia semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Marcas, institutos de pesquisas e outras empresas de todos os tipos estão explorando sua própria espécie para extrair dados. O ser humano padrão está consciente e inconscientemente sendo usado como um engrenagem na máquina do branding e da informação, reproduzindo uma “alucinação consensual” onde os dados podem sem visualizados, ouvidos e sentidos. Parece uma definição simples do que seria uma realidade virtual, mas pode ser facilmente aplicado ao nosso estado de existência.

As empresas estão usando dados de localização, observando onde e como nos conduzimos. As marcas não precisam mais interagir com nossa presença física para coletar essas informações. O nosso eu-código é tudo o que importa, e esses são os dados que estão sendo cada vez mais explorados pelas empresas para prever tendências e criar campanhas. O escândalo do Facebook-Cambridge Analytica é um marco recente do que é a realidade disso, afetando 87 milhões de usuários.

Uma imagem de você já existe por meio de tags, pesquisas na internet, informações carregadas em aplicativos e localizações de GPS. Nossas pegadas digitais e os traços que deixamos no espaço virtual estão sendo entrelaçados por marcas, resultando em nosso próprio reflexo familiar, um pouco genérico, e bastante assustador, que nos é apresentado de volta. Como é que os anúncios que aparecem online podem ser ligados à conversa que tive com um amigo por telefone? Essa versão codificada e simulada de mim, construída através da minha pegada digital, está se infiltrando em minha consciência para me dizer o que devo comprar e como devo interagir?

O corpo e a mente criam dados, e o modo como esses dados são extraídos e a maneira como essas informações são usadas ameaçam o futuro do corpo humano biológico. As fronteiras entre tecnologia e natureza continuam a desmoronar, e as informações do corpo estão sendo usadas para encontrar maneiras de corrigir suas imperfeições e fragilidades, removendo sua natureza de seu futuro. As informações sobre a mente são preservadas para manter alguma forma de humanidade, enquanto tentam criar corpos artificiais que possam abrigar essa informação.

Sandy Stone, em seu artigo “Will the Real Body Please Stand Up”, mencionou que é interessante que no momento em que os últimos locais do campo antropológico do “mundo real” estão desaparecendo, um novo tipo de campo se abriu. O do campo on-line – um espaço em que a reunião cara-a-cara modificou as definições de “conhecer” e “encarar”. Ela destaca como esses espaços aceleraram o colapso das fronteiras entre a natureza e a tecnologia, a biologia e a máquina, o natural e o artificial, como explicam os teóricos pós-humanos. Esses espaços fazem parte de novas formas sociais que ela descreve como sistemas virtuais.

Stone apresenta um exemplo do poder desses espaços codificados e das novas formas de interação que eles geraram através da história de Julie. Julie era uma mulher com deficiência mais velha em uma conferência online em Nova York em 1985, que operou seu computador com um headstick. A personalidade que ela projetou on-line era enorme, criando conexões mediadas por computador com pessoas on-line que a viam como uma amiga para confidenciar informações íntimas. Aqui, sua deficiência era invisível e irrelevante. Anos depois da conferência on-line, os participantes descobriram que Julie não existia. Acontece que “ela” era um psiquiatra de meia-idade que passou semanas criando uma persona crível. Acidentalmente iniciando uma conversa com uma mulher que o confundiu com outra mulher quando conectada à conferência, ele ficou fascinado com a vulnerabilidade, complexidade e abertura que elas expressaram online. Uma vez que a verdade da vida real por trás de Julie foi exposta, as mulheres que haviam confiado nela expressaram vários níveis de raiva e mágoa por causa dessa fraude. Embora essa história pareça um episódio caótico e instigante do Catfish da MTV, ela aponta para uma dimensão fora da natureza transformada de fraude, ética e risco. Esta dimensão é o começo de uma existência não-corpórea.

O artigo de Stone, entre outras discussões, destaca como a internet, a realidade virtual e as máquinas têm transformado conceitos como a distância, on / off, e até mesmo o do corpo físico, enfatizando como esses conceitos estão assumindo cada vez mais “significados novos e freqüentemente perturbadores”. A história revela como a persona codificada pode assumir vida própria, criando novas formas de interação dentro dessa existência virtual. O mais impressionante é como isso demonstra como as dinâmicas discursivas e visuais desses espaços construídos digitalmente fazem a ancoragem de uma pessoa em um corpo humano físico perder sentido.

Se a interação e os relacionamentos podem se formar sem a necessidade do corpo humano, e o fato de que tudo o que fazemos e tudo o que somos é tratado como dados, então a ideia de existir sem o corpo humano biológico não parece ser tão distante.

Ah! Eu conduzo o curso Coolhunting, a partir desta sexta (8), no GUAJA! Vamos mergulhar no universo das tendências. Saiba mais aqui.

Highlighter Stats
×
1 total highlight
Autor
Mineiro de Belo Horizonte e, atualmente, morando em São Paulo. Com formação pela Escola de Design da UEMG e especialista em Coolhunting pela Elisava em Barcelona, estou há mais de dez anos no mercado desenvolvendo projetos para moda, cultura, economia criativa e novos modelos de negócio. Acho que tendências servem para tudo, porque antes de qualquer coisa, falam sobre pessoas. E o que eu faço é ajudar as marcas a se tornarem as versões mais legais delas mesmas. Desenvolvi projetos para Telefonica (Espanha), KWS (Alemanha), Oi, Yunus Social Business, GUAJA, Manoel Bernardes, Hometeka/Bimbon.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!