Gabriel Pereira: quando o amor de Deus é interpretado como intolerância às diferenças

 

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Desenvolvo um trabalho de fotografia e de colaboração com pessoas trans de Belo Horizonte e do Brasil desde 2010. Resolvi deixar aqui, a cada mês, um depoimento de alguém, narrado em primeira pessoa, sobre alguma situação que vivenciou. Já escrevi sobre a Fabíolla Amanda, a Aniky Lima e o Gustavo Mayran.

Hoje vocês vão conhecer um pouco da história do Gabriel Pereira. Nascido em uma família muito religiosa, ele nos conta como o “amor de Deus” pode ser interpretado como intolerância às diferenças. Gabriel tem 22 anos, é aquariano e sonha um dia trabalhar com gastronomia. Ele namora a Júlia e é um homem trans.

“A religião sempre esteve presente em minha família, muito antes de eu reconhecer minha orientação sexual ou identidade de gênero. Todos são evangélicos.

Desde criança me sentia mais confortável no universo masculino; não só pelo meu jeito de ser, mas também pelas roupas, brincadeiras, gostos e vontades.

Começaram com uma certa repressão, dizendo que eu me comportava de forma errada, e, com o tempo, vendo que eu não mudava, passaram a me agredir verbalmente, fazer chacotas, etc.

Parei de estudar por causa do bullying e só conclui o Ensino Médio mais tarde. Tinham mães que proibiam a filha de brincar comigo, muitos amigos se afastaram, me mandaram raspar as pernas aos 11 anos de idade.

Eu nem tinha consciência do que estava acontecendo. Diziam que era o diabo se manifestando ali. A pressão foi muito grande. Eu me sentia culpado, achava que eu estava errado e que deveria seguir o que aquelas pessoas falavam. E olha que era muita gente. Iniciei minha transição no final de 2013.

Não só minha família, mas a todas as pessoas que frequentavam a igreja condenava essa minha busca pelo conforto. Na época, eu não conhecia quase ninguém fora deste meio.

Em 2015, eu comecei a ter crise de pânico e ansiedade, muito em função do que estava vivendo. Minha família e pessoas da igreja passaram a fazer grupos de oração para tentar me “curar”. No fim das contas, me sentia tão mal que me submeti a esta “destransição” proposta por eles, achando que me livraria da depressão e das crises que estava tendo. Durante três meses eu me “vesti de mulher”, mas fui percebendo que era insustentável fingir aquilo.

Voltei a ser quem eu era, o Gabriel, não com menos pressões. Vivi por muito tempo em um regime de compensação, achava que estava em dívida com minha família ou devendo favores para as outras pessoas pelo simples fato delas me tolerarem enquanto trans. Isso fez com que eu sempre pensasse que todos os lugares fechariam as portas para mim, já que ninguém gostaria de conviver com alguém como eu.

Hoje percebo que várias pessoas que falam do amor de Deus são as primeiras a apontarem as diferenças, como se fosse algo errado, abominável e não fruto da própria diversidade da existência humana. Hoje sei e aprendi que não há nada de errado comigo, errado é a pequenez de não se respeitar a vivência do outro.”

Quer ajudar Gabriel a aprender mais sobre gastronomia? Entre em contato com ele: [email protected] #contrateumapessoatrans

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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