Gostar de gente, gostar de escrever

 

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A minha lua de mel coincidiu com os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Aproveitamos que temos amigos na cidade e fomos para lá ver alguns espetáculos esportivos. Só expliquei isso para contar que a cena a seguir se passa no metrô do Rio durante as Olimpíadas. Marido e eu entramos em um vagão rumo à Arena Olímpica e tinha um lugar disponível de um lado e outro do outro lado, então nos sentamos separados.

Ao meu lado, uma jovem mulher começou a contar animada que ela era de uma cidade do interior de Santa Catarina e estava visitando o Rio pela primeira vez. Seu marido, formado em Educação Física, foi convidado para ser juiz em jogos de handebol e isso era a coisa mais importante da carreira dele, então ele estava numa alegria que ela nunca imaginou vê-lo sentir. Fiquei empolgadíssima com a empolgação dela.

Um tempo de conversa depois, ela percebeu que eu estava com frio e tirou um lenço bem grande da bolsa e me cobriu com ele. O meu marido, de longe, olhava espantado aquela mulher que eu jamais tinha visto até minutos atrás fazendo um gesto tão carinhoso comigo, como uma pessoa íntima. A gente ria como duas comadres. Quando chegamos à minha estação, devolvi o lenço e nos despedimos com sorrisos e tchauzinhos efusivos.

Meu marido ria, mas estava meio espantado. Aquele foi o momento em que ele pode observar de perto e desde o início a forma como eu me aproximava de desconhecidos, voltando para casa com um tanto de histórias insólitas dessas pessoas. Acontece que eu gosto mesmo de gente. Muito.

De todos os assuntos possíveis, os modelos de carros e de celulares, a arquitetura e a decoração das casas, a riqueza ou a escassez dos recursos naturais, as melhores formas de aplicar dinheiro no banco ou de ter uma alimentação saudável, as maneiras como se constrói tudo, o que uma impressora 3D consegue imprimir, nada me interessa tanto quanto: gente. As pessoas e suas histórias de vida, seus medos e motivações, os sentimentos variados ao infinito. As pessoas são mais fascinantes do que qualquer coisa deste mundo.

Se você é também um gostador de gente sabe que hoje em dia isso é algo meio cafona. Parece mais hypado falar que odeia pessoas, tem um tanto de memes sobre isso. Gostar de bicho pode. De gente é que não. Gostar de gente é analógico, old school.

Ninguém mais precisa conversar com ninguém por educação ou para matar o tempo. O celular conectado com a internet nos permitiu o entretenimento solitário constante, mesmo em contextos em que estamos cercados de pessoas. Passou a ser ok estar com alguém e não interagir, não conversar, ficar todo mundo imerso dentro de sua própria tela.

Os fones de ouvido, já me explicaram, servem não apenas para ouvir algo sem incomodar os demais, mas também para alertar quem está em volta “ei, não incomode, não estou a fim de conversar”. Conversar com estranhos, que perda do tempo que deveria ser ‘‘otimizado’’.

Se eu fosse aquele povo que dá dicas sobre “alta performance”, estaria aqui sugerindo que você faça seus trajetos ouvindo num fone de ouvido algum podcast informativo e numa velocidade tão acelerada que pareça a do narrador de “este medicamento é contra indicado em caso de suspeita de dengue”.

Mas contadores de causo, como eu, são seres de baixíssima performance, gastam tempo pensando na morte da bezerra, ou seja, pensando na vida assim à toa, à toinha, e gostam de ouvir os causos dos outros.

Como professora de um curso de escrita livre, eu perguntava aos participantes sobre a disposição deles em conversar com desconhecidos no transporte público. Explicava sobre a importância, para quem escreve, de dialogar tanto com uma criança quanto com uma pessoa bem mais velha, de conversar com pessoas de classe social, religião e ideologia política distinta da sua.

Falar somente com nossos iguais empobrece a nossa capacidade comunicativa, já que não precisamos nos esforçar para sermos entendidos, nem para ter paciência em tentar compreender o universo da outra pessoa.

Descobri que mesmo com conhecidos, pessoas próximas, familiares queridos, muita gente não gasta seu tempo conversando. Fora o núcleo de amigos-gêmeos (aqueles da mesma idade, profissão e opinião sobre grandes questões), quase nunca sentam para um bate-papo um pouco mais profundo com ninguém.

Então os espetava com simples perguntas. Você nasceu de um parto natural ou de uma cesariana? Mamou até quantos meses? Quais foram as primeiras palavras que aprendeu?, eu perguntava e alguns não faziam a menor ideia. Não tiveram a curiosidade de saber nem como foi o primeiro dia de suas vidas. E seus avós, como eles se conheceram, com que idade se casaram? Por que sua mãe escolheu essa profissão, era isso o que ela realmente queria quando moça?

Alguns aproveitaram a oficina e a desculpa de ter que escrever um texto para telefonar ou marcar um café na casa de sua mãe, avó, irmão mais velho, e perguntar a eles sobre suas histórias. E muita coisa bonita aconteceu a partir disso.

Gostar de gente não tem a ver com coração bondoso, o prazer de ouvir os outros contarem suas histórias não vem de um senso de caridade. O que me move, ao menos inicialmente, é curiosidade pura.

Sei que, por sorte ou pena, não viverei todas as experiências humanas possíveis, não saberei toda a intensidade dos mais diversos sentimentos, deliciosos ou horríveis.

Mas imagino bem o que seja, por exemplo, ser um jovem professor de educação física em uma escola do interior e de repente realizar o sonho de uma vida de apitar um jogo dentro de uma Olimpíada. Por causa daquele encontro no metrô, vi os jogos aos quais eu fui com um olhar diferente, sabendo que aquele momento não era extremamente especial só para os atletas. Um juiz com expressão séria pode estar dentro de si explodindo de alegria e sentimento de realização. E eu adorei saber disso.

ENCONTRAR POR ENCONTRAR

Na quarta, dia 25/07, às 19h, Sílvia propõe uma conversa sobre conversar à toa, sem objetivo, aqui no GUAJA! Pode ser uma boa prosa com os de casa, ou estar aberto a começar um papo com um desconhecido. O que importa é a alegria de estar junto e o diálogo com as diferenças. Causos e causas da escritora Sílvia Amélia, que também vai abordar a escrita sobre o cotidiano e algumas coisas bonitas sem muito propósito. É gratuito, vem!

Autor
Sílvia Amélia de Araújo, professora da oficina itinerante ‘‘Escrever Simples’’ (em BH, realizada na Casa Guaja). Escrevi ‘‘No Meio do Caminho’’, livro de crônicas sobre pessoas que encontrei uma única vez no transporte público, contemplado com prêmio de literatura do Fundo de Arte e Cultura de Goiás.

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