O gozo solitário de quem se “deu bem”

 

Receba artigos sobre cidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Uma das últimas vezes que visitei São Paulo, comentei com uma amiga sobre a quantidade de pessoas em situação de rua na cidade — em cerca de três anos, a estimativa de pessoas vivendo em situação precária nas ruas subiu em 57%: de 16 mil, em 2015, para 25 mil, até o início de 2019.

O que ela me disse ficou na minha cabeça: “aqui, ou você cria uma justificativa horrível na sua cabeça para conviver com tanta gente em desigualdade, ou você tem dinheiro suficiente para se ocupar e se alienar de tudo isso”.

***

Naturalizar a diferença do outro ou fazer de tudo para esquecê-la: ao que me parece, essas devem ser tratadas menos em termos de soluções para o “problema” da convivência e mais como estratégias. Estratégias da segurança.

Digo estratégias porque são as formas que inventamos para assegurarmos, com a maior naturalidade, que “isso não me diz respeito” ou “não devo ou preciso pensar nisso” — quando, obviamente, já estamos implicados em algo e pensando sobre.

Uma estratégia da segurança é um muro que se constrói, na maior altura possível, só para descobrir que é tarde demais: o outro, mesmo estando fora, mesmo eu não o vendo, já está lá dentro.

***

Muitas vezes, é difícil manter algum otimismo sobre possíveis mudanças positiva e igualitárias nas hierarquias sociais.

Se o rico está ficando cada vez mais rico, se pessoas brancas e homens cisgêneros criam uma solidariedade inabalável entre seus iguais, fazendo vista grossa ou, mesmo, celebrando a própria violência que cometem, e se o “resto” da sociedade continua não ser escutado e é minado, em diversos aspectos, das suas possibilidades de vida e da sua autoestima: talvez estejamos perdendo nossas batalhas?

O que precisamos, talvez, é repensar o lugar do poder.

***

Christian Dunker é um psicanalista e pesquisador brasileiro que tem ganhado muita relevância nas ciências sociais e na psicologia.

Em um dos seus mais recentes livros, ele investiga as formas brasileiras de sofrer. Para ele, existe um momento de mudança no sofrimento brasileiro, que pode ser localizado em um acontecimento específico: a construção do primeiro condomínio Alphaville, em 1979.

Anunciado como uma possibilidade de fugir dos grandes centros urbanos, e viver uma vida “feliz” e “entre iguais”, a construção do condomínio foi um marco arquitetônico e econômico. Nos anos seguintes, a construtora responsável criou sete unidades do Alphaville, que ditou o modelo de habitação condominial brasileiro.

A diferença, segundo Dunker, entre os condomínios do Brasil e outras “comunidades entre muros” no mundo, é que, aqui, temos uma especificidade: nossos muros são muros de defesa.

Para ele, os condomínios brasileiros se moldam principalmente na ideia de uma segurança provida pela vigia, pelo controle do território, pela proteção contra o que está lá fora. Muros altos, cercas elétricas, guaritas: é preciso não só se precaver, mas vigiar o inimigo para que ele não se aproxime.

Não é difícil entender essa neurose quando observamos materiais como um guia dos “disfarces mais utilizados em assaltos à condomínios” do site SindicoNet: os possíveis “inimigos” da segurança podem estar fantasiados de bandidos, podem ser jovens e adolescentes, falsos policiais, falsas grávidas, “mulheres bonitas e vestidas de maneira provocante”, entregadores de comida e até crianças pedindo ajuda.

Essa forma de exclusão da presença do outro que nos intimida e nos causa medo, Dunker a nomeia de “lógica de condomínio”. Uma lógica que escapa os muros do edifício controlado, e pode ser vistas em outros lugares da nossa vida: estamos desesperados por uma ideia de segurança baseada no conforto material e na continua busca de convívio entre “iguais”, excluindo, portanto, aqueles cuja precariedade e vulnerabilidade nos é incômoda.

Achamos que assim, ao só sobrarem os “iguais”, seremos felizes. A tese de Dunker é que não.

***

Pobres e marginalizados lutam por algum poder econômico e político em uma sociedade que mal os reconhece como sujeitos. Afinal, não existe uma vida possível no capitalismo sem que haja para o sujeito comum, pelo menos, alguma sensação de poder aquisitivo e poder social de decisão sobre as próprias vidas. A luta aqui, portanto, não é gananciosa: o dinheiro e o capital político são demandados a fim de uma qualidade de vida digna e justa.

O movimento das classes mais privilegiadas, no entanto, é o mesmo. Mas muito longe de ser uma luta igualitária, nossa busca é por uma promessa nos feita pelo capitalismo: nossos incômodos serão resolvidos na busca por mais dinheiro, mais conforto, mais poder. Torne-se ainda mais rico, torne-se uma “autoridade” em algo, não seja uma pessoa comum. A felicidade é fácil: compre, lentamente, a vida que você precisa comprar.

Dentro dos muros dos condomínios que construímos, queremos excluir aquilo que nos nos faz olhar criticamente para a vida que levamos. Não queremos ser lembrados que temos conforto financeiro, porque nosso desejo é continuar com a pequena ganância de sermos ainda mais ricos, bem-sucedidos e com um maior poder aquisitivo do que temos.

Não queremos pensar sobre o porquê só convivemos com pessoas brancas e só frequentamos espaços brancos — afinal, pensar sobre o racismo tira o meu foco da vida feliz entre [brancos] iguais que devo seguir para ser feliz. Por que eu tiraria o foco de mim e da minha felicidade para conviver com uma pessoa que me lembra que eu também posso categorizado em uma raça, a branca? E que todos os meus “méritos” podem ser lidos como cálculos precisos de um sistema racista? Como assim uma pessoa negra pode ser mais talentosa que eu, mais inteligente que eu, mais interessante que eu?

A presença da lésbica masculina, da gay afeminada, das travestis e dos corpos LGBT, para além do nojo que me causam, me lembram o quanto eu odeio mulheres e tudo o que me remete ao “feminino” porque, no fundo, sei que sou frágil e estou longe de ser o homem forte e dono de si que eu sempre achei que deveria ser.

***

Dentro dos muros, estamos infelizes porque a ausência de determinados outros não resolvem nosso problema.

Segundo Dunker, o resultado disso é a solidão intramuros.

O outro não desaparece da forma com gostaríamos — sua negação se torna presença. Nos tornamos ressentidos pelo poder que ele exerce sobre nós, construtores do muro. Nos descobrimos impotentes sobre a vida. Nos tornamos infelizes, cínicos. Estressados porque, de alguma forma, a autoridade que achávamos ter não nos completa totalmente. Ao final, como relata Dunker, o poder cria o exílio e o isolamento. “Não é isso”, dizemos para a promessa de felicidade que tanto acreditamos.

Compramos a vida que desejamos, sofremos no privado, nos descobrimos irrealizados no poder que tanto desejamos. O que nos sobra? Passar a impressão de uma vida completa, dentro dos muros. O gozo está ao pensar que, visto do lado de fora, somos felizes para os outros. “Nessa imagem de satisfação que eu suponho que o outro lê em mim, posso recuperar um fragmento do hedonismo real ao qual renunciei”, escreve o psicanalista.

Aqueles que antes eram nossos “iguais”, “irmãos” entre muros, se tornam, gradualmente inimigos. Porquê nos vemos neles, vemos nossas próprias fraquezas e incompletudes. Nossas ambições que, quando “realizadas”, se mostram insuficientes. Fomos gananciosos porque fomos, desde o início, fracos diante do poder e por ele seduzidos.

***

Estamos todos, em nossos lugares de aparente “segurança”, sob essa lógica. É uma lógica que, arrisco dizer, pode ser identificada nos projetos de poder da masculinidade, da branquitude, do neoliberalismo e da construção econômica e geográfica que permite que “viremos o rosto” para aqueles que nos lembram que nosso poder e privilégio têm um preço, um custo.

Não queremos pensar que somos responsáveis uns pelos outros. Somos responsáveis e estamos implicados na vida, inclusive, de quem não conhecemos, mas cuja existência apela uma escuta, uma atenção. Fugimos da única possibilidade de vivermos uma vida mais completa, mais ética, mais crítica e consciente. Não se trata de “buscar” estar próximo de outros cujas vidas são diferentes e, muitas vezes, desiguais; mas entender que já estamos inevitavelmente próximos dessas vidas. Elas falam, mas não as escutamos ao nosso redor. Elas se mostram, mas não queremos olhar para esses rostos.

Não olhamos e não escutamos porque tememos que ali haverá um ser humano com muito mais semelhanças, do que diferenças. E isso nos lembrará que, independente da estratégia de segurança que estivermos seguindo, viver é estar sempre diante do outro e seu mistério. Afinal, o que ele dirá sobre nós?

Autor
Doutorando e Mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais. Jornalista desertor, hoje pesquisa ética e crítica na mídia e na vida cotidiana. Tio do Faísca e da Sushi.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

procurando um serviço de impressão?

a Futura Express também está no GUAJA! Nossos novos parceiros oferecem entrega grátis todos os dias no GUAJA. conhecer a Futura Express