Guerra e Grama: o cultivo de um prazer primitivo

 

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por Beatriz Colomina

O gramado emerge, durante e depois da guerra, como o símbolo absoluto da vitória do modelo de vida americano. Os cuidados com a grama e o combate às pragas foram a versão doméstica dos esforços bélicos e de aniquilamento do inimigo.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o gramado tornou-se um campo de batalha. Cuidar do gramado era uma forma de guerra, um dever nacional cumprido tanto para o moral de quem estava em casa quanto para o das Forças Armadas. Cuidar da grama significava nada menos que cuidar do rosto da nação. Anúncios em revistas de grande circulação apresentavam uma controvérsia ampla e contínua sobre o papel central do gramado na definição da arquitetura doméstica e, simultaneamente, da ideologia nacional. Um anúncio do fertilizante Vigoro na revista House Beautiful diz: “Provavelmente você, também, tem um ente querido em serviço… um filho cujas poucas horas de lazer são gastas pensando em casa”. Sintomaticamente, o que deve ser relembrado pelo soldado como “lar” não é uma casa, mas um gramado: “Onde quer que ele esteja, está sonhando com a grama aveludada, lindas flores… ele quer voltar para elas. Mantenha-as bonitas, esperando esse dia! Elas contribuirão imensamente para um front doméstico vencedor”. O gramado é o lar do soldado americano.

Inúmeras imagens de gramados foram enviadas ao front. Encartes na revista Lifelembravam aos leitores de repassar a publicação para os familiares que estivessem nas Forças Armadas, e as matérias dirigidas aos soldados eram dominadas por fotos de gramados. Dezoito das 29 fotografias em An American Block: War Has Made Few Marks on Progress Avenue (“Um quarteirão americano: A guerra deixou poucas marcas na avenida Progresso”), uma matéria de 1943 na revista Life, são de gramados: famílias posando nos jardins em frente a suas casas, o carteiro entregando a correspondência no gramado, o garoto entregando o jornal, um grupo de crianças lendo gibis na grama, uma mulher recolhendo as folhas, uma mulher com crianças e um bebê na calçada, mulheres no gramado lavando roupas, uma mulher saindo de casa para trabalhar em um emprego de apoio à guerra. Finalmente, e mais impactante, há uma fotografia de crianças brincando de guerra em uma trincheira no quintal, com metralhadoras feitas de madeira e alumínio e capacetes de tigelas de batedeira.

O gramado não é só um campo de batalha improvisado ou o lugar de uma divertida brincadeira de guerra. Cuidar do front doméstico é cuidar da grama, o que uma matéria na revista House Beautiful descreve como “um desafio para os guerreiros do front doméstico”. Revistas de grande circulação recorrentemente dão dicas, admitindo, ao mesmo tempo, que não se trata de tarefa fácil: “Sem ajuda, é um trabalho e tanto, isso de cuidar da casa. O que fazer para controlar os arbustos? A cerca viva? Os zimbros ao lado da porta têm que ser aparados? O gramado ficaria cheio de ervas daninhas se você deixá-lo crescer pelo resto do verão?”, escreve a revista Better Homes and Gardens, em 1944. O front doméstico de fato é um gramado, uma fachada verde, horizontal, vista do céu – como nas incontáveis vistas aéreas dos subúrbios que lembram a fotografia aérea, que teve um papel fundamental no reconhecimento militar de territórios e em bombardeios.

Durante a guerra, o governo encorajou as pessoas a ficar em casa e cuidar do gramado quando não estavam no trabalho. Como Virginia Scott Jenkins apontou, cuidar da grama era um hobby que economizava gasolina, pneus e transporte público, todos eles recursos cruciais para o esforço de guerra. Mais do que isso, as pessoas eram estimuladas a transformar parte de seus gramados em um “jardim da vitória”. Cultivar vegetais para o uso pessoal aliviava não apenas os produtores, mas também os transportadores e empacotadores dos crescentes carregamentos de guerra. As revistas contribuíam em grande medida para a campanha: “Tenha seu jardim E COMA-O TAMBÉM!”, escreveu a House Beautiful. “Procuram-se! 20.000.000 jardineiros da vitória”, dizia um anúncio da marca de sementes Stum & Walter. Ao mesmo tempo que a empresa lucraria com o aumento nas vendas, o que o anúncio apontava era a obrigação patriótica de ter um jardim da vitória. O bronzeador mais vendido, Gaby, era anunciado com uma mulher de biquíni usando um par de óculos na forma de dois sóis escaldantes: “Com as nossas Forças Armadas sob os céus tropicais ardentes… nos jardins da vitória, Gaby faz milagres!”. Até a Coca-Cola se promovia como a “Hospitalidade… em um jardim da vitória”. O anúncio mostra uma grande imagem de uma horta em um gramado, enquanto uma imagem menor em cima dela mostra duas mulheres, uma delas com roupas de jardinagem, perto de um conjunto de cadeiras e uma mesa com garrafas de Coca-Cola. A Coca-Cola é para aquele momento de relaxamento em que o jardineiro recebe o vizinho que veio admirar o jardim.

Mas o maior benefício de ter um jardim parece ter sido o psicológico: “Deixe a GUERRA no portão de seu jardim”, escreve a House Beautiful em 1943. O jardim, segundo a matéria, é o antídoto da guerra: “A guerra te observa dos jornais da manhã em sua porta. Ela se espreme com você no ônibus das 8h16. Ela te arrebata das prateleiras da mercearia. Mas há um lugar em que a guerra não pode te alcançar – seu jardim”. Uma matéria de 1942 na revista Life, Gardens for the U.S. at War (“Jardins para os Estados Unidos em guerra”) narra os benefícios econômicos e a obrigação patriótica de ter um jardim e depois afirma: “Mas, acima de todos esses ganhos, está a simples alegria de cultivar coisas – o prazer primitivo de sentir a terra úmida entre os dedos em abril, o encanto de ver o milho brotar e os tomates crescerem e amadurecerem de um dia para o outro, o intenso deleite de aniquilar ervas daninhas e insetos inimigos, a dor prazerosa do sol quente nas costas e nas mãos… Essas são coisas que trazem uma paz gratificante para quem está preocupado com a guerra e transformam homens mudos em poetas”.

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