Gustavo Mayran, vetado pelo nome no papel

 Foto: Lucas Ávila

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Desde 2010 eu desenvolvo um trabalho de fotografia e ativismo com pessoas trans de Belo Horizonte e do Brasil, como tenho contado aqui e aqui no guaja.cc. Resolvi deixar, a cada mês, um depoimento de alguém, narrado em primeira pessoa, sobre alguma situação que vivenciou. Hoje vocês vão conhecer um pouco da história do Gustavo Mayran na busca por emprego. Ele é libriano com ascendente em áries, graduado em Letras (Inglês), professor e homem trans.

“O cabelo bem penteado, a barba aparada, camisa abotoada. Tudo nos conformes. Outra entrevista pela frente, mas essa vai dar certo. Dez candidatos. Uma vaga. Dinâmicas cansativas, mas vamos lá, estamos quase. Obrigado pela participação. Você se saiu muito bem. Obrigado! Pode passar no RH na segunda? Claro, muito obrigado.

Volto pra casa aliviado, feliz, o aperto do ônibus nem incomoda tanto. Vou poder pagar os boletos que estão em atraso. E também já dar uma parte daquela grana que minha amiga me arranjou. Ih, calma, mano, nem começou e já tá pensando em como vai gastar o salário? Inevitável, só quero pagar minhas contas e acabar com esse torcicolo.

Chegou a segunda, todos os documentos em ordem. Lavei até as lentes dos óculos. Coordenador me chama. Conversamos amistosamente. Ele pede pra checar os documentos, entreguei a pasta novinha. Estava à vontade, mas contido.

Me adianto, receoso, mas tentando expressar uma tranquilidade ensaiada. Sou uma pessoa trans, o nome que consta aí, de registro, é diferente. Ahn. Como assim, trans? Seu nome é fulana de tal? Não, meu nome é Gustavo, meus documentos estão em processo de mudança judicialmente, ninguém me chama por outro nome. Forço um sorriso.

Olha… Gustavo, né? Isso. Olha, Gustavo, aqui a gente respeita todo mundo… Não nos importamos com o que o funcionário faz fora da escola, veja bem, mas… É complicado, essa coisa do nome, estranho, parece falsidade ideológica. Deu uma risada discreta, mas debochada. Não, senhor, há portarias que asseguram a pessoa trans o… Olhando bem seu perfil assim, acho que você se encaixa melhor nas turmas que vamos abrir no próximo semestre, uma turma mais jovem, entende?

Entendo, que alternativa me resta?

É sempre isso. A vaga magicamente some ou de repente não estão mais contratando. Qualificações, diploma, experiência. Sorte. E fé. Enquanto isso, o aluguel tá vindo, as contas vão juntando. Tudo por um nome, um traço, um pedaço de papel. Tudo é papel.

E a gente é o quê, não é gente não?”

Gustavo tem 7 anos de experiência profissional com carteira assinada. Tem proficiência em TOEIC e TOEFL. Já trabalhou na Wizard, Uptime e outras escolas. Quer ajudar o Gustavo a conseguir um trabalho? Escreva pra ele: [email protected]

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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