Hanna, a estranha

 

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Ontem saí com uma amiga que apesar de encontrar pouco é garantia das melhores risadas. A gente sempre troca mensagens falando: vamo encontrar? “Vamo! Saudade!” Aí retoma essa conversa no próximo mês. Essa semana rolou. Marcamos num lugar bem modernete e cheguei no horário combinado porque isso é mais forte do que eu. Ela já tinha avisado que atrasaria um bocado. Tratei de me acomodar, meio sem graça num pufe lá no fundão, bem escondidinho atrás de uma árvore. Junta timidez, insegurança e pouca milhagem na baladenha. Sou casada há vinte um anos, gente! Façam o favor de entender que o meu habitat noturno de diversão é o restaurante. Então, estava me achando a Carrie total apesar de curtir super a proposta do lugar. Sabe quando você começa a sentir que tá destoando de tudo? Meio fazendo subir a média de idade do lugar enormemente. Desejando que tivesse vestindo alguma peça de crochê peruano ou pelo menos mais colorida, e tentando em vão esconder o mega trombolho de bolsa grifada. Até o perfume que eu escolhi achei que tava um pouco fora do tom.

Tratei de tentar ficar descolada tomando minha Heineken no bico e fingindo a melhor descontração que eu podia. E um grande salve para o celular, parceiraço da sem-gracisse nossa de todo dia. Não sei você, mas é difícil o dia que eu acho que acertei em cheio. Que a minha expectativa encontra com a realidade. Elas geralmente combinam de me sacanear. Privilégios de quem tem um superego em formato de Hulk, o incrível. Mas confesso que nesse dia eu tava me sentido era cagada mesmo. A amiga não chegava, a cerveja não descia e o medo de acabar a bateria do celular já me rondava. Não sou a pessoa mais insegura da vida e acho que a gente pode e deve tudo que quiser desde que não incomode o coleguinha. Mas acontece que tenho mais medo do ridículo do que de altura. E altura eu considero qualquer dimensão que supere a minha desprivilegiada estatura, ou seja, três engradados de cerveja empilhados eu já não encaro. Nesse momento no qual eu já acendia o neon da testa “ do que é que eu tô fazendo aqui?”, o tal do Deus que é do capeta, como meu pai costumava dizer, coloca uma cena preciosa na minha frente. No pufe ao lado estava sentado um casal visivelmente nativo, ele de boina inclusive. Então chega o casal amigo, para a minha alegria!

Ele: malhadinho na medida, cavanhaque aparadinho, gel reluzente no cabelo minguado, camisa Dudalina e sorriso extra white. Por que diabos essa turma do clareamento dental persegue um sorriso branco que não existe na escala Pantone de dentes humanos?

Ela: portava (tipo bandeira mesmo, na elegância da Sapucaí) um drink maior que aquela minha bolsa. Não que eu pertença à turma do “beba com moderação” definitivamente, mas aquilo ali tava bem esquisito. Acho que ela deve ter trazido a taça de casa. Não tá na moda carregar sua própria marmita? Então, vai ver que levar o seu drink também é trendy. Aliás acho de uma cafonice tremenda essa palavra: drink. Pior só cocktail. Continuando. A moça era uma versão Jeannie (é o gênio), com franjinha cortada na régua, em cor amarelo ovo. Vestia uma blusa peplum branca (aka muitos babadinhos brancos na cintura) e sandália coberta de strass que reluziam toda vez que o companheiro sorria. Só o ouro, minha gente!

Dudalina cumprimenta o boina com toquinho de surfista a lá Juba & Lula (pode usar o google aí, que eu não vou ficar traduzindo todas as minhas referências de teledramaturgia over) e solta:
— Nossa… galera estilosa aqui… gostei de ver… (expressão de quem está prestes a acender o neon de testa, mas preferiu acender o sorriso mesmo). Aí nossa gênia completa:
— Sim, sim! Uma gente… irreverente!
Juro que a vi mexer o narizinho até encontrar essa classificação digamos, burlesca.

A intenção dela não era fazer piada, mas eu soltei uma gargalhada alta de deboche e alívio. Desviei o olhar para o celular pra disfarçar a minha inconveniência. Minha amiga ainda não tinha chegado, mas mando pra ela no zap como senhas “estilosa / irreverente”. Mais tarde explico, mas não podia perder o registro. Fico pensando em como a gente é inseguro e fica tentando se enquadrar naquilo que definitivamente não é a gente. Pra “caber” nos lugares precisamos comunicar uma coisa que a gente não é? Tentar ser cool, dar uma de iniciado? Eu já me peguei tentando ser “irreverente” muitas vezes. Hará! Adoro frequentar lugares diferentes, conhecer gente interessante e passear em mundos que não me pertencem. Percebi que sempre que tento forçar a barra me sinto mais inadequada e pago de canastrona. Quando conseguimos compreender e admirar elementos fora do nosso mundinho fechado e além daquele vestidinho preto indefectível, naturalmente nos tornamos uma pessoa mais safa e interessante, com o bônus de não precisar fazer carão.

Essa cena me valeu uma sessão inteira de terapia, dessas que a gente sai exausta e tem insights orgásticos. Não tem nada melhor do que ser quem se é, e não precisar mudar de acordo com a coleção que estreou. Aliás, essa descoberta é uma das raras vantagens que muitas vezes acompanha os quilômetros rodados. No entanto, é preciso estar com as revisões em dia. Se você ainda não se descobriu e se bancou, eu recomendo fortemente. Tenha certeza que rir de si mesmo é uma licença infinita (#chupahulk) e uma liberdade irrestrita.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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