O Homem Cordial e o Empreendedor Marrento

 

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Tenho cá meus devaneios…

Vivendo intensamente no aludido Ecossistema Empreendedor me encontro pessoal ou virtualmente com diversos empreendedores ou aspirantes ao fato de ser, e posso assegurar que ao final do dia tento sempre fazer uma reflexão sobre tudo o que vivi. Não sou muito de anotações, mas sim de reflexões. E numa dessas me recordei de Sérgio Buarque de Holanda e seu tão latente Homem Cordial. Fiz um retrospecto das conversas que tive durante a semana com diversos atores do meio empreendedor e, me recordando de Raízes do Brasil, pensei que de Holanda pudesse estar um pouco incomodado com certo grupo social relativamente novo, mas não por isso incipiente de material sociológico: os empreendedores millennials!

Sei que de Holanda não era sociólogo, mas sim historiador; mas, para além da discussão do fundamento sociológico presente na sua obra (e as contribuições indispensáveis de Ribeiro Couto e Afonso Reyes), tenho certeza que ele se interessaria bastante em estudar um pouco mais as características desse grupo social por vezes solidário, por vezes marrento.

Não vou ficar aqui explicando o significado de marrento. Parto do princípio que todos devem imaginar o que este adjetivo quer dizer. Só peço que não acreditem que isso signifique necessariamente algo muito ruim. Pode ser que existam alguns momentos que ser marrento seja algo bom. Ainda não sei, mas pode!

O interesse histórico-sociológico pelo qual antevejo de Holanda se levantar, bater a poeira da carcaça e observar os empreendedores millennials ocorre porque não encontro traços do Homem Cordial mais neles. O que vejo é uma marrentice sem fim. Nem sei se esse termo existe: marrentice, mas tenho certeza que xs leitorxs entenderão. Uma egolatria e um egoísmo sem fim que não se acertam nem um pouco com as noções de intimidade, de patriarcado e a tão percebida confusão entre as esferas pública e privada. Por mim essa percepção por si só já seria motivo suficiente para que o historiador se mostrasse curioso, pois tal contraste é muito evidente quando converso particularmente com o empreendedor ou com a equipe que está empreendendo. São muito espertos para diversas coisas que nem eu dou conta de ser mais (acho que já fui em algum dia): fazem duas, três e até quatro coisas ao mesmo tempo.

É áudio, é ouvir música, baixar aplicativos e responder email ao mesmo tempo. Isso deve ser muito produtivo. Mas são pouco afeitos a conexões via entendimento político. Querem estabelecer contatos com pessoas influenciadoras, estudiosas, habilidosas, investidoras, mas querem um contato frio, não muito íntimo; que gire em torno de questões profissionais relativas ao negócio que estão desenvolvendo. Não querem conexões na base da diplomacia, do anseio por poder, pela manutenção do status quo. Não querem pirâmides hierárquicas, em que terão que galgar diversos degraus para poder falar com fulano ou cicrano. Querem papo reto, dar a real de cara para aquela pessoa. Querem conhecer tal sponsor (o equivalente aos padrinhos ou compadres, caso algum sociólogo esteja lendo este texto), alguns investidores para poder apresentar a ideia deles, para poder fazer o pitch equivalente e, assim, conseguir alguma contribuição para o seu empreendimento. Tudo muito profissional, sem interesses escusos, sem maiores furtividades.

Não aludem para outro tipo de relacionamento mais cotidiano, mais íntimo. Se o fazem é de maneira contemporânea, cheia de algoritmos e pixels, perpetuando assim os fundamentos sociológicos tão atinentes ao Homem Cordial, descrito tão intensamente pelo famoso historiador. É a polidez típica e marcante do brasileiro, remodelada para o formato digital. Mais nada além do que isso. São calculistas, são objetivos em suas pretensões e, ao mesmo tempo, sabem que se aquela conexão não der certo, não irão ficar se lamuriando pelos cantos, buscando renová-la novamente. Abandonam essa empreitada e se jogam para outras possibilidades que porventura possam ter surgido no caminho do seu empreendimento. Fazem isso de forma rápida, simples e numa normalidade absurda.

Em um país em que empreender é tipicamente uma ação necessária, o que seria normal de se supor que estes empreendedores iriam repetir os traços culturais e estabelecer as relações sociais de forma tradicional, assim como o Homem Cordial sempre o fez. Não. Não vejo bem assim. Nem sei se consigo dizer se isso é algo bom ou ruim. Ademais nem faço esse tipo de julgamento. Me parece ser um novo traço que surge nesse emaranhado que é a dita persona brasileira.

O que posso dizer é que esse distanciamento entre o que é o empreendedor millennial e o que é o Homem Cordial acaba sendo um pouco prejudicial para o segundo grupo. E para tanto tenho um argumento que julgo destacável: à medida que os empreendedores millennials se distanciam da polidez política, do arranjo social planejado, da conexão hierarquicamente estabelecida tão atinentes e constantes no dia a dia dos brasileiros, eles se distanciam também do modus operandi que persiste na população brasileira (e, é claro, no consumidor brasileiro também), do quadro de valores dos brasileiros e, assim sendo, não compreendem muitas das questões que são basilares para entender a maneira de agir da população brasileira, dos consumidores e dos usuários do mercado brasileiro.

Passam a não entender por que eles (os consumidores brasileiros) não prefeririam a solução que estão oferecendo – que é prática, fácil e até mais barata, em detrimento àquela solução que já existe no mercado e que os brasileiros já estão tão acostumados a usufruir. Sabe aquela história que dizem por aí que brasileiro adora uma fila? Pois então, é mais ou menos assim, como nas charges em que se desenham as idiossincrasias tão peculiares dos brasileiros. Sei disso pois sou um destes e entendo os dois lados. Vejo com naturalidade a remodelagem da polidez do Homem Cordial e vejo também, abissalmente espantado, como os empreendedores millennials não sabem como fazer para que o seu negócio ganhe tração, pois não entendem as características do povo brasileiro.

Daí que enxergo o empreendedor marrento: não quer abrir mão da sua ideia, não quer ter que pivotar o seu modelo de negócio para adequá-lo à maneira pela qual o brasileiro está acostumado e, portanto, não engrena, não ganha tração ou mesmo não obtém o tão sonhado Growth Hacking que precisa. Fica completamente anestesiado pela sua ideia e pela vontade de ganhar dinheiro que não percebe que existem traços de cordialidade na população brasileira que a impedem de enxergar as propostas de valor do seu empreendimento. Uma pena pela a população, para os consumidores que ainda se mantém nessa tosca forma de pensar, pois continuarão a frequentar as filas dos bancos, dos caixas de supermercado, para comprar fichinha da cerveja, para ter que enfrentar problemas em estacionamentos, nas oficinas de veículos, nas consultas em hospitais ou clínicas e nas infindáveis ligações para bancos para se informarem sobre cancelamento de serviços. Pena também para os empreendedores, pois precisam estudar um pouco mais de sociologia e de antropologia além de ficarem pensando (somente) em tecnologia.

Tiro dessa situação apenas duas conclusões: a marrentice é justificada e
precisamos de outro Sérgio Buarque de Holanda.

Autor
Professor, mentor, fomentador, estudioso, facilitador e interessado em empreendedorismo e coisas afins.

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