Horror à Gamification

 

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É como se tudo estivesse de cabeça pra baixo! Quanto mais se fala em compartilhar, em cocriar, menos vemos isso acontecendo! Menos temos notícias de pessoas que prezam e praticam a divisão, o fracionamento, a distribuição de seus pertences, seus recursos, sejam estes quais forem: tempo, conhecimento, sentimentos, espaço, esforço, energia, qualquer item que seja. E toda essa situação só me faz crer que o mundo está ficando cada vez mais egoísta.

Por vezes o maniqueísmo pode explicar muitas coisas, e o que se vê é que o oposto do compartilhamento é o egoísmo: se não se quer partilhar o que quer que seja, automática e naturalmente pensa-se que quer ficar com o todo; possuir o máximo que puder, sequer pensando em passar uma parte para o outro. Aliás, se for para fracionar algo com alguém, isso só ocorrerá se houver compensações, e a financeira é uma das mais recorrentes. Daí debruça-se boa parte do capitalismo. E todos nós achamos isso absolutamente normal, correto, adequado. Precifica-se o tempo doado, o conhecimento ofertado, o espaço cedido, a energia demandada. E seguimos soletrando essa palavra tão bonita e comprida: compartilhamento.

No universo do empreendedorismo é notado e notável também. Tudo é precificado. E inventaram um nome super bacana pra isso: gamificação (ou se preferir, gamification, mais um típico e preguiçoso anglicanismo).

Por trás dessa proposta está, a meu ver, o complemento político-social da lógica capitalista: a meritocracia e a sua vertente mais sofisticada e contemporânea, a competição.

Não creio que modelos de negócio que se amparam em uma perspectiva que sugere que para que você adquira algum benefício, desde pular para outra fase até a possibilidade de obter mais funcionalidades para aquele app ou programa, você deve competir com os demais para chegar ao ponto que pretende. A lógica que está por trás dessa trajetória é uma lógica que privilegia a competição. Não é uma questão de proporcionar o bem estar para todos – que seria certamente uma forma brutal de compartilhamento. Ninguém quer saber disso não! Se você quer angaariar alguma vantagem, alguma benesse, você deverá se esforçar para conseguir. Sabendo que cada indivíduo é distinto por só ser, por ter uma singular existência, já seria possível pressupor que certamente nem todos tem as mesmas condições necessárias para entrar num jogo, num game, e disputar o que quer que seja para obter certos benefícios e, por assim pensar, o processo já terá os seus vencedores e os seus perdedores, antes mesmo de se iniciar. Para os modelos de negócio que possuem como Relacionamento com os Clientes a gamificação a designação mais utilizada é mais engajados ou menos engajados respectivamente: um baita eufemismo!

Em princípio não haveria problema algum em pensar que se se quer mais, esforce-se. Mas isso só seria adequado se todos tivessem as mesmas condições no ponto de partida.

A comparação de que o ato de compartilhar é a antítese da tudo isso me parece ser bem verossímil: deve doar mais para aqueles que mais precisam e deve-se buscar receber menos do que os que menos possuem. Taí o real argumento para que os indivíduos possam começar a se perfilarem na linha de partida. Depois de alinhados, calibrados, justapostos aí sim, deve-se dar a largada para a disputa. Assim teremos um game em que todos os que estão querendo obter determinadas vantagens poderão competir de igual para igual. A gamificação, pelo simples fato que o cliente mais engajado irá chegar ao fim e obter o que precisa, me parece promover um desequilíbrio em que os mais capacitados (em qualquer aspecto: financeiro, tecnológico, etc.) e aqueles que, por qualquer que tenha sido o revés do destino, não possuem estas mesmas capacidades para competir.

O que eu já vi por aí de Canvas cujas Propostas de Valor são compartilhamento, aumento da autonomia e acesso é um absurdo! E praticamente todos vêm acompanhados de gamificação como forma de Relacionar com os Clientes. A situação começa a piorar mesmo quando, por alguma trajetória predestinada, esse empreendedor que possui essa ideia sobre este tipo de modelo de negócio se consubstancia na minha frente. Quando ouço então sobre o porquê de ele ter escolhido a gamificação como forma de ampliar e/ou reter o tal segmento de cliente meus ouvidos até derretem. Vem toda aquela historinha de que o engajamento proporcionado pela gamificação vai ser capaz de possibilitar mais autonomia para o cliente é realmente muito desagradável.

É preciso e urgente repensar esse procedimento. E um dos caminhos que acho mais valoroso é o da personalização, da customização como forma de se relacionar com os clientes. Encontre uma solução pertinente e correspondente para o perfil que está querendo que seja o seu público alvo. Empreendedores dirão que esse tipo de alternativa despadroniza os processos, tornando o produto/serviço mais cara e, sob a ótica destes mesmos empreendedores, pouco escalável. Daí vem o meu pensamento então de que a partilha não mais existirá (ou pelo menos não deverá existir) e, portanto, toda aquela história de dividir, de ajudar no que for preciso, de apoiar “dentro das limitações” torna-se vazia e banal. Se o empreendimento for gamificado nada disso poderá ocorrer.

Penso que a raça humana ainda não esteja preparada para poder compartilhar o que quer que seja. Os empreendimentos e as ideias de negócios seguem a mesma linha. E isso me deixa horrorizado com essa espécie a qual pertenço. Que pena para todos nós!

Autor
Professor, mentor, fomentador, estudioso, facilitador e interessado em empreendedorismo e coisas afins.

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