Horta de Mandioca: um caminho artístico ancestral

 Foto: Amilton Vieira

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Umuarama, no tupi: “local ensolarado onde se encontram os amigos, lugar de descanso”.

A palavra “arte” não tem tradução em quase nenhuma língua indígena porque, assim como no contexto ancestral africano, os povos tradicionais não separam a arte da vida. Assim, a arte abrange um universo de práticas que não são necessariamente um objeto ou um artefato, mas que compõe em ritualizar a vida.

No mundo globalizado, em que vivemos com esgotamento de sentidos, faz-se necessária a construção de novos valores que deslocam para revalorização da cultura ancestral, o que deveria parecer arcaico, mas é, ao final, futurista. Nesse sentido, nasce a Horta de Mandioca, em terreno anexo ao Museu de Arte da Pampulha.

A Horta de Mandioca faz parte de uma ideia da divisão territorial originária, e que coloca as nossas raízes de volta ao pensamento da cultura e do mundo da mandioca, dos povos que habitam esse território.

Nessa divisão geopolítica originária, existem os Povos do Milho, que habitam parte do que chamamos de América Latina; os Povos da Batata, que é o cultivo tradicional dos povos dos Andes; e os Povos da Mandioca, que são os povos originários do Brasil e região. Acredito essa ser a divisão indígena deste território Abya Yala (nome indígena para América).

Entendo a mandioca como caminho artístico ancestral, como possibilidade de enraizar a cultura indígena na cidade. A mandioca é tecnologia indígena, e é também um ser encantado, que será cultivado coletivamente.

Mutirões de plantio e colheita

Os povos tradicionais se organizam, geralmente, em estruturas circulares e que permitem a participação de toda comunidade nos processos: mulheres, crianças e homens, com um número ilimitado de participantes. Valorizado o trabalho em equipe fundamentado pelo princípio comunitário, e que se desenvolve coletivamente, a horta de mandioca é, então, uma prática artística baseada na cosmovisão indígena, que permite a participação de qualquer pessoa interessada, sem fazer classificação ou exigir pré-requisito de ter algum tipo de conhecimento em relação à prática de plantio.

A mandioca vai conduzir ao resgate do sistema da tradição indígena, da sabedoria ancestral, da prática compartilhada, da arte que transita do individual para o coletivo, que se manifesta com a natureza, com a terra.

Serão duas grandes ações, no início e no fim do processo, durante a realização da Bolsa Pampulha — programa realizado pela Prefeitura de Belo Horizonte, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e da Fundação Municipal de Cultura, e pelo JA.CA — Centro de Arte e Tecnologia. O mutirão de plantio ocorre no dia 15 de junho. Já o mutirão de colheita final culmina com a exposição realizada ao fim da residência artística, em Belo Horizonte, em setembro.

Durante o processo vão ocorrer outras ações no espaço como rodas de conversa e eventos artísticos culturais. Indígenas e comunidade poderão ter acesso para se reunirem no espaço para acompanhar o crescimento da mandioca. Na mureta que cerca o terreno, haverá um grafismo — sempre presente em todos os processos coletivos indígenas.

Invocando o mundo da mandioca, será possível atuar de diversas maneiras com esse universo, que é de pensar a tradição da alimentação, a descolonização da alimentação, a cultura da farinha, do cultivo, e do pertencimento, de nós no território mandioca.

Autor
Artista selecionada pela 7ª edição da Bolsa Pampulha, que tem o propósito de estimular a produção e a pesquisa em artes visuais na capital mineira, contribuindo para o processo formativo da comunidade artística local e nacional. Sallisa Rosa é natural de Goiânia, e se dedica a investigações contemporâneas de imagens e temas que a atravessam, como a sua própria identidade, o universo feminino, futuro, ficção e descolonização. Seu trabalho se desenvolve a partir da fotografia de indígenas urbanos – uma investigação em torno da identidade nativa contemporânea.

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