Building the Future: o valor da arquitetura na incorporação imobiliária

 

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Gostaria de propor a todos que aqui me leem, um breve exercício: fechem os olhos e imaginem uma cidade grande qualquer do Brasil. (Brasília não vale). Agora imaginem uma capital europeia, ou entre no google street view e “caminhe” um por algumas ruas destas cidades. O que você vê?

No Brasil, as cidades têm edifícios que parecem ter brotado do chão, espontânea e aleatoriamente. São individuais, espalhados, variados em altura, forma, fachada. Distribuem-se nos quarteirões, afastados uns dos outros obedecendo as regras que o zoneamento, o código de obras e o capital impõe a cada uma destas células limitadas e limitantes, que são os lotes. Nas capitais europeias (e aqui estou generalizando um pouco) a imagem que temos é outra: enxergamos primeiramente a imagem do bloco, da quadra, do quarteirão edificado. Um conjunto de edifícios que compõe um conjunto maior. Alinham-se a rua, alinham se na altura e por fazes rodeiam um vazio, o miolo da quadra.

Estas são observações simples, diferenças há muito observadas. Que valores urbanos estas duas tipologias ou morfologias promovem? E de quais resultam?

Estamos falando de cidades e edifícios já construídos resultantes de processos históricos, econômicos e políticos. Mas é urgente pensarmos a cidade que queremos. O arquiteto não pode abrir mão de imaginar a construção e a transformação da cidade. E, no entanto, ele opera timidamente hoje, num momento da máxima especulação imobiliária, onde a construção é balizada pelo lucro, desde a concepção espacial até a escolha de soluções técnicas.

Além disso os planos diretores e códigos se eximem da responsabilidade sobre o valor do projeto. Criam-se regras de ocupação, coeficientes de aproveitamento, uso, gabarito, taxas etc. Número que o incorporador terá que equacionar em sua constante busca pelo lucro máximo. E como as nossas cidades são basicamente construídas pela construção de edifícios comerciais e residenciais, isolados no lote eu me pergunto: a quem cabe reinventar os espaços urbanos? Não é o uso, o destino, o programa e o espaço, é a fluidez da circulação e a luz. Em que arquitetura queremos viver? Por onde passar, por onde subir, onde permanecer, como morar?

Proponho aqui mais um pequeno exercício. Vou usar SP como exemplo porque é a idade em que tenho minha experiência, vivência. Observem este quarteirão da cidade, no centro expandido. Não vou citar o lugar, justamente porque esta situação poderia ser em muitos lugares da cidade. É uma configuração recorrente na cidade.

A quadra está dividida em lotes de dimensões similares. Aliás o formato da quadra já é resultante do desejo de vender todos os lotes com garantia de testada para a rua e possibilidade de construção ilhada. Em cada lote onde poderá ser construído um edifício qualquer, desde que respeite os recuos, genericamente, de 5 m na frente e no fundo e 3 m nas laterais e respeite o gabarito. Como resultado teremos um edifício plenamente isolado e desconectado dos demais. Uma construção que nasce equivocada, por ser concebida como um objeto sobre uma bandeja, e que, ultimamente os incorporadores querem conferir ares cada vez mais escultóricos, “exclusivos” e espalhafatosos.

Como bem citou Carlos Alberto Maciel, em seu artigo nesta mesma publicação:

O arquiteto italiano Aldo Rossi diferenciava os edifícios em dois tipos: “os monumentos e os edifícios-tipo. Os edifícios-tipo teriam a importância de conformar e melhorar a cidade, ao invés de se definirem como edifícios singulares. Essa seria a responsabilidade dos milhares de prédios que abrigam as nossas moradias e os espaços para o trabalho cotidiano. No entanto, pouquíssimos dentre estes são de fato comprometidos com a construção da cidade”.

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Autor
Arquiteta e Urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, em 1996. Em 1998, ganhou primeiro prêmio no concurso para Plano Diretor de Restauração da Faculdade de Medicina da USP em colaboração com o escritório Andrade Morettin. Em 2001 Fundou a NITSCHE ARQUITETOS ASSOCIADOS LTDA com o irmão Pedro Nitsche, após ter trabalhado nos escritórios: Felipe Crescenti, André Vainer & Guilherme Paoliello e Isay Weinfeld. É professora de projeto na Escola da Cidade - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo desde 2009.

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