Como iniciativas locais lidam com problemas globais em BH

 Final do campeonato interdrag de Gaymada, projeto do grupo Toda Deseo. Foto: Limonada Audiovisual

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Vivemos a era das grandes falências institucionais. Se por um lado avançamos tecnologicamente de outro vivemos várias crises que a tecnologia por si só não parece ser a solução. Ainda existe muita pobreza no mundo e é grande o nível de desigualdade entre pessoas e nações. Temos medo da violência, do terrorismo e da iminência de uma nova guerra em escala global. As mudanças climáticas e o aquecimento global são problemas longe de serem resolvidos. Vivemos uma crise de representatividade em que políticos se distanciam cada vez mais do mundo real.

Por que não conseguimos superar esse contexto de crises? Por que estamos presos em tantos desafios que parecem sem solução? No nível empresarial por que não conseguimos criar negócios que gerem mais valor para a sociedade? É sempre tentador responder a essas perguntas apontando o dedo para o que está fora de mim. Mas o que estamos fazendo individualmente para melhor a realidade a nossa volta? De que forma iniciativas podem lidar com desafios globais em pequena escala e começar uma micro revolução? Felizmente, estamos vendo um grupo de pessoas que se mobilizou para agir e queria contar o que tenho observado em Belo Horizonte.

As grandes separações

Uma grande referência para mim quando se trata de enxergar os desafios que a sociedade atravessa é o Otto Sharmer, professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e criador da Teoria U, metodologia base dos nossos processos no Movimento Ímpar. Para Otto não conseguimos avançar em muitas questões justamente porque os líderes da nossa sociedade não conseguem lidar com a real dimensão e as causas dos problemas, logo, não criam soluções pertinentes. Estamos tentando enxergar um mundo exponencial, de vastas possibilidades, com lentes antigas e assim não conseguimos criar algo realmente novo. E essa forma obsoleta e limitada de olhar para os desafios acaba reforçando as estruturas que mantém o problema. Por isso, criamos negócios, escolas e ambientes sociais que não nos conduzem a uma melhor sociedade.

Acredito que se não nos vermos como parte do problema não vamos conseguir propor soluções pertinentes. Por isso a teoria U foca no desenvolvimento de um olhar para os problemas a partir do eu. Otto propõe categorizar os desafios da nossa era em três grandes separações do eu: a separação ecológica (eu e a natureza), a separação social (eu e os outros), e a separação espiritual (eu com a minha essência).

O nosso modelo econômico atual baseado em crescimento econômico – sem que isso se reflita necessariamente em bem-estar social – vem exaurindo os recursos do planeta em uma escala nunca antes vista. Muitas áreas férteis desapareceram e os recursos hídricos estão se tornando cada vez mais escassos. Nos distanciamos cada vez mais da natureza e o consumismo exagerado só faz aumentar o problema do uso dos recursos naturais.

Estamos também cada vez mais criando abismos sociais que se refletem nas crises humanitárias e de imigração. Sem contar o nosso modelo econômico que faz, de acordo com dados da Oxfam, com que 62 bilionários tenham mais patrimônio que toda a metade “inferior” da humanidade.

Além da separação com a natureza e com os outros, vivemos também uma separação espiritual-cultural que nos afasta do nosso potencial enquanto ser humano. A falta de um olhar para dentro de nós mesmos, a falta de um propósito maior e a busca de sentido na vida apenas através de coisas materiais nos faz refém de um sistema fadado ao colapso ao passo em que aumentam nossos níveis de stress, infelicidade e depressão. Para se ter uma ideia do quão alarmante é a situação, atualmente mais pessoas mataram a si mesmas do que foram mortas por guerra, assassinato, e desastres naturais juntos, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

Essas três grandes desconexões geram problemas interligados e novas desconexões. Por exemplo, a falta de uma conexão com a gente mesmo faz com que busquemos satisfazer nossas necessidades fundamentais, como afeto e pertencimento, com compras, o que gera mais lixo e alimenta um sistema de produção injusto. Esse sistema desconexo gerou uma economia que gera uma bolha de desigualdade extrema impedindo o acesso igualitário às oportunidades, levando a pessoas viverem em condições miseráveis. Vivenciamos também um vácuo de liderança em que criamos coletivamente resultados que (quase) ninguém quer e não nos sentimos representados pelos políticos. A lista de desafios aqui é enorme, mas o importante é enxergar como eles se interligam e a importância de se enxergar parte do problema é o início do caminho de uma solução.

Problemas complexos não se resolvem em um passe de mágica. Talvez esse seja o maior problema das soluções que surgem por aí. Focamos apenas nos sintomas, muitas vezes por desconhecer as causas ou até mesmo por puro oportunismo de quem busca soluções rápidas por um interesse político ou empresarial. Nesse caso precisamos pensar em como atuar em cima desse problema, intervindo nele, reconfigurando-o e permitindo que outras ações possam vir na sequência para abordar o problema sob uma nova perspectiva.

No Movimento Ímpar fazemos parte da rede Cidades em Transição, um movimento global de pessoas que promovem iniciativas para favorecer os mercados locais e criar projetos, negócios e iniciativas despretensiosas, divertidas e que de certa forma agem nesses problemas que vivem todo o mundo. Eu tenho visto uma série de novos empreendedores atuando de forma realmente criativa em cima dessas questões urgentes em Belo Horizonte também. Veja abaixo quinze iniciativas que vale a pena conhecer.

1. A Be Green, que fica no Boulevard Shopping, é a primeira fazenda urbana da América Latina que está pensando em como podemos ter um mundo mais sustentável a partir da produção de alimentos na cidade.

2. O Seu Pechincha busca trazer um novo olhar para o consumo, incentivando as trocas, garimpando roupas de segunda mão e fazendo os ajustes para revenda em feiras.

3. O Pachamama foca em oferecer para as mulheres produtos naturais e que trazem a filosofia de resgatar o sagrado feminino.

4. O Incontrês valoriza o produtor artesanal e local, utilizando seus produtos no cardápio do restaurante e coloca o produto desses produtores a venda em sua lojinha.

Produtos orgânicos vendidos na Casa Horta.

5. A Casa Horta busca incentivar um sistema alimentar mais justo através da venda de produtos orgânicos de produtores pequenos e locais, em sua maioria.

6. O projeto Roots Ativa difunde a cultura Rastafari produzindo alimentos artesanais e integrais baseados nas culinárias vegana e vegetariana no aglomerado da serra.

7. O Lá da Favelinha é um centro cultural do aglomerado da serra que realiza oficina e eventos culturais para a comunidade. Se mantém com um financiamento coletivo recorrente.

8. O Fa.vela atua como uma aceleradora de negócios e projetos de base favelada ajudando empreendedores da favela.

9. O Mooca é uma rede de empoderamento de pequenos produtores que presta consultoria e também é plataforma de venda para os produtores.

10. O Movimento Ímpar, da qual sou um dos idealizadores, busca democratizar ferramentas e metodologias para empreendedores e criativos que querem construir iniciativas e negócios ecossistêmicos.

11. Os produtores culturais encontram na plataforma Evóe uma ferramenta poderosa para recorrer ao financiamento coletivo e acesso a benefícios fiscais.

12. O Nossa Grama Verde busca valorizar também os produtores locais, realizando feiras e ações de conscientização.

Feira promovida pela Nossa Grama Verde.

13. O coletivo Somos Muitas elegeu duas vereadoras nas eleições de 2016, uma delas a mais votada de Belo Horizonte, utilizando fortemente as redes sociais como plataforma dando voz a uma população que costuma estar longe da política.

14. O Transvest fornece supletivos, aulas de idiomas, atendimento Jurídico e cursinho para Enem para transexuais.

15. A Gaymada surgiu despretensiosamente e consegue dar visibilidade para os movimentos LGBT de uma forma divertida e já foi exportada para outras cidades.

Precisamos de mais

Esses são só alguns exemplos entre tantos outros que estão surgindo por aí. Além de uma cidade vibrante culturalmente, polo de empreendedores e empresas startups, Beagá também mostra que podemos criar iniciativas locais com esse olhar global para a transformação social que precisamos. E podemos fazer muito mais! Quando focamos no nosso desenvolvimento e nos conectamos com a nossa essência conseguimos criar e começar a lidar com grandes desafios. E mais do que nunca precisamos divulgar essas iniciativas e potencializar essas ações. Conhece outras? Conta para gente nos comentários. Vamos juntos fazer micro-revoluções!

Autor
Raoni faz parte do time de design thinkers da Echos, onde lidera cursos de Design Thinking pelo Brasil. Publicitário, administrador e curioso do mundo venho me dedicando a ajudar empreendedores, transformadores e empresas a direcionar sua energia para a criação de iniciativas que fazem sentido em um mundo em transição. Sou entusiasta da inovação, novas visões de mundo e do uso inteligente da tecnologia. Acompanhei o surgimento de diversas startups e passei por empresas como Fiat, Fundação Dom Cabral e Tropos Lab. Atualmente sou co-fundador do Movimento Ímpar, responsável pelo marketing da startup Permuto e professor de empreendedorismo do Centro Universitário Una. Viciado em pipoca, papo cabeça e gin tônica.

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