Instagramável? Eu?

 

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Nada melhor do que ir para outro local passar as férias! Que seja o campo, a praia, fazenda, um sitiozinho perto daqui, os escambau! Mas penso que conhecer um local diferente é imprescindível para que possamos exercitar o olhar para vivenciar outros ambientes.

Lembro sempre que o ser humano chegou onde chegou pela sua ampla capacidade adaptativa. Desde o período iluminista até hoje há uma farta bibliografia que, sob diversos ângulos das ciências, prega essa “justificativa”. Não tomo o mérito da questão em si: se adaptar for sobreviver, então adoto aqui essa correspondência.

Mas o que tem acontecido ao nosso redor que tem nos forçado a buscar se adaptar mais e melhor? Vejo daqui e dali, viro uma esquina e me deparo com uma paisagem que nunca tinha visto anteriormente, quero conhecer sobre algum lugar e acho que para isso preciso fazer uma busca na internet sobre esse mesmo lugar.

Pertenço a uma substancial fatia que nos últimos 20 anos vivenciou o desenvolvimento da internet quase que na sua totalidade; portanto, sou da época da chegada do e-mail, do surgimento da rede social e por aí vai. Por isso sempre começo as minhas buscas escrevendo, digitando a referida localidade. Depois passo para um app de roteirização, salvo e depois vou para as fotos, vídeos e finalmente em 30 minutos, passo a conhecer tudo (ou quase) sobre o local que pretendo ir. Sabe aquele papo sobre adaptação, pois é…

Pela busca feita na palma da minha mão, acabo por me fornecer um conhecimento prévio do local, que me permite analisá-lo, fazer escolhas e tomar decisões antecipadas: vejo pontos turísticos, paisagens deslumbrantes, olho os comentários positivos, neutros e negativos de vários que ali estiveram. Tiro minhas conclusões e já avalio pela balança que de um lado tem o nível de risco e do outro o grau de segurança que aquele tipo de programa poderá me proporcionar; com base nisso traço as rotas, uno passeios, me programo em termos de horário, valores, documentos, regras etc., etc. Conveniência? Por um lado digo que sim. Conforto? Comodidade? Sim, sim! Num mundo tão atribulado de questões, quem não quer obter mais tempo livre para descansar? Melhor adaptabilidade (e então melhores chances de sobrevivência)? Com absoluta certeza! Se sei do destino de antemão, então antes mesmo de vivenciá-lo eu já o “conheço”, então já sei exatamente como comportar-me, como me vestir, quanto pagar, quando ir, o que levar (e o que não é permitido levar) e os cuidados que devo ter ao chegar na localidade tão esperada. Que bom!

Que mal!

Desapareceu com isso aquela perda de fôlego que se tem ao entrar em um museu e ver uma obra qualquer (antiga, clássica, moderna ou contemporânea)! Já vi tantos posts, fotos, vídeos e por vezes até memes sobre aquele local, sobre aquela obra, que sinto que já até a conheço. Vou lá e por vezes acabo engrossando os sites de busca, as hashtags com as minhas fotos, meus posts, meus comentários (mas perto do que já existe por aí, acho que a minha contribuição é até irrelevante). Dando aos outros mais informações e, por esse ponto da conversa que exponho, mais capacidade adaptativa. Sim, replico e engrosso por ter sido seduzido pela conveniência, pelo conforto e pela comodidade que são encontrados num simples enquadramento, em um click e uma ediçãozinha – com diversos efeitos de imagem, de montagem – e pronto! Tenho algo para mostrar, algo para dizer, algo para promover. Nessa perspectiva descobri que existe gente certa e contratada para falar a respeito, para dar testemunhos, orientar e em última (e por isso pouco notada) instância, para fazer com que eu conheça, sem nem mesmo ter frequentado, respirado e sentido, aquele local.

Julgo essa ação natural e racional. Repito: quem não quer um pouco mais de comodidade aí? Conheço até mesmo empresas que exploram de forma diligente e profissional esse ramo. Já há até um trend topic para isso: instagrammers (algo na linha dos digitals influencers). Há manuais, cursos rápidos orientados para este tipo de “carreira”.

Assim como disse anteriormente, que vi todo o desabrochar do mundo www e, pelas contas, você vai notar que sou daqueles que possuem álbum de fotografias nas minhas prateleiras. Para mim isso significa que eu realmente vivenciei algumas aventuras; tomei sustos, me espantei com belezas, pois para mim ter álbum de fotografias em capa dura quer dizer que fui lá naquele local e o descobri: eu o vivenciei antes mesmo de tê-lo visto. Contei somente com meu instinto para ali estar. Lembro-me até hoje quantas vezes a família ficava perdida em um passeio. Sempre ocorriam alguns fatores inesperados que forçosamente demandavam que teríamos que nos virar para conseguir se ajustar, adaptar àquele local ou à sua cultura.

Por vezes era o tempo, o clima (e hoje já sabemos antecipadamente quais serão as condições ambientais de tal local, em tal horário e, inclusive o que vestir, o que comer – tudo isso em letras, fotos e vídeos); em outras situações, os preços eram elevados ou não se aceitavam cheques (hoje se consegue saber sobre tudo isso antes de sair de casa). Poderia ficar aqui ainda um bom tempo, detalhando inclusive, todos os perrengues que já passei por não ter sabido, não ter me informado mais e melhor sobre aquele local de destino. Mas não irei fazer isso (torturante demais para o leitor).

Penso que ter um álbum de fotografias na atual conjuntura é como ter a guarda das recordações dos locais, das situações inesperadas, aquelas que nos despertaram sentimentos e, por isso mesmo, nos deram experimentações que nos fizeram amadurecer e, pelo processo, adaptarmo-nos melhor. Se assim for, prefiro não ser Instagramável! Não tenho pegada para isso. Acho que, assim como eu, deve existir um share de mercado bem significativo que deseja o retorno do álbum de fotografias físico, pois podem pensar assim como eu estou fazendo neste relato. Além do que devem ter muitos por aí que querem aprender a tirar fotos analógicas, usando técnicas diferentes, para montarem seus próprios álbuns de fotografias.

Querem guardar, utilizando do registro físico, as emoções retratadas, pois quando as acessam, lembram de como foi bom aventurar-se naquele local refletido na imagem da foto, e o que essa imagem fotografada corresponde ao que o fotografado é hoje. Sinto-me mais vivo, mais adaptado. Graças a deus também conheço negócios que estão explorando essa oportunidade.

E confesso: não trocaria por nada todas as minhas lembranças. Todos os sentimentos que vêm à tona quando me estico na cadeira, pego o álbum de fotografias e coloco no meu colo e o folheio. Parece nostálgico? Se sim, foda-se! Eu não sou Instagramável mesmo! Rá!

Autor
Professor, mentor, fomentador, estudioso, facilitador e interessado em empreendedorismo e coisas afins.

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