Meus 24 irmãos nepaleses

 Processed with VSCO with c1 preset

Receba artigos sobre diversidade semanalmente em sua caixa de entrada!

×

– Paula, qual é o nome do seu irmão?
– Lucca.
– Não é Upe?

O coração derreteu e o beijo apertado veio logo em seguida. Upendra, ou Upe, tem 12 anos e é um dos 24 irmãos que adotei para a vida desde o dia 1º de junho, quando cheguei em Kathmandu, no Nepal. Com idades entre 6 e 18 anos, cada um eles foi acolhido pelo Papa’s Home (orfanato mantido pela organização não-governamental Volunteer Foundation Nepal – VFN) por um motivo diferente.

Em geral, as famílias, muito pobres, abandonaram as crianças (são quase 2 mil em situação de rua em todo o Nepal), mas há alguns que perderam os pais e não têm mais a quem recorrer. Na casa de três andares, Bipana, Buphest, Manish, Puja, Astik, Padan, Pratima, Maan, Luv e os demais encontraram um ambiente acolhedor e familiar, assim como toda a estrutura que precisam para crescerem saudáveis e com oportunidades de terem um futuro promissor.

Durante 26 dias, me entreguei de corpo e alma ao primeiro trabalho social que fiz na vida. Junto com voluntários do mundo inteiro, participamos da rotina das crianças: ajudamos a fazer as atividades escolares, brincamos, levamos para a escola e Taekwondo, damos apoio nos afazeres domésticos e, principalmente, distribuímos muito carinho e atenção.

Com meu jeitinho brasileiro, já cheguei abraçando e beijando, mas fui imediatamente rejeitada. “Eu não gosto”, reagiram Puja, Pratima, Bipana e praticamente todos os meninos no dia em que os abracei e dei um beijo de boa noite. “Não gosta de quê? De beijo?”. Todos respondiam afirmativamente com uma cara de nojo e limpando a bochecha. “Ahhhhhh, mas isso é impossível. Beijo é a melhor coisa do mundo”, respondia ignorando a repulsa que expressavam a cada nova demonstração de afeto.

Dia após dia, agarrava cada um e dava um beijo forçado mesmo. Sem me importar com a cara brava que vinha acompanhada pela mesma frase. “Para, não gosto.” Foi assim durante toda a primeira semana. A resistência foi grande e muitos até corriam de mim. Bipana, a nossa caçulinha de 6 anos, chegou a pedir pra eu ir embora. Mas irmão que é irmão sabe atiçar os demais e não resiste a um desafio.

Hoje, Puja e Pratima chegam da escola e a primeira coisa que fazem é me dar um abraço apertado e um beijo carinhoso. Os meninos já não acham ruim mais e Upe (confesso que é meu irmão de alma perdido aqui no Nepal) já se aconchega no meu abraço com um sorriso tão puro que me desarma. E Bipana? Essa foi difícil. Me custaram quase duas semanas para conquistá-la. Agora, ela estende os bracinhos, vem pro meu colo e já tasca logo um beijo apertado.

DCIM168GOPROG0063348.JPG

Diferenças que impressionam

Não é só a resistência ao contato físico que me surpreendeu. Mesmo novinhos, com 8, 9 anos de idade, todos aqui têm um senso de responsabilidade que, confesso, falta até em alguns adultos — e em mim mesma. Todos têm plena consciência do papel que precisam desempenhar seja na cozinha, ajudando os mais novos, limpando a casa ou dando apoio à mãe nos afazeres domésticos.

Não tem reclamação, não tem chororô, resposta malcriada, cara amarrada, briga ou qualquer confusão. O mais velho falou, o resto calou. A hierarquia cronológica é respeitada assim como os horários e as funções esperadas de cada um. Não há espaço nem necessidade para discussão ou negociação. É como tem que ser.

Mas o que mais me impressionou foi descobrir o real significado da palavra “irmão”. Eles compartilham tudo. Pode ser uma bolacha, um salgadinho, uma bala, um chocolate. Não importa. Ninguém come escondido com medo de ter que dividir. O que é de um, é de todos. Mesmo sendo pouco, eles conseguem me mostrar que é suficiente. Suficiente inclusive para os voluntários, que sempre entram na partilha. E se um dos irmãos está ausente, alguém logo lembra de guardar o pedacinho dele.

No início eu achava que eles precisavam de mais. Pensava em como eles eram carentes de coisas que toda criança gosta, como brinquedos e guloseimas. Hoje, entendo que não falta nada. Porque aprendi a enxergar com os olhos deles. É possível se divertir com uma bola de futebol furada, com canetinhas quase sem tinta, com uma mesa de ping-pong sem rede e até com a nossa boa e velha Amarelinha.

É possível ser o melhor da turma com uniformes manchados, sapatos furados, cadernos quase sem folhas, sem borracha e com mochilas rasgadas. É possível ser feliz com muito, mas muito pouco mesmo. A simplicidade com que nos fazem enxergar a vida é tão preciosa que hoje valorizo coisas que nos parecem básicas como um chuveiro (tomamos banho frio com caneca todos os dias) e uma descarga no vaso sanitário que há algum tempo não vejo.

Autor
Meu nome é Paula Takahashi, tenho 33 anos e sou jornalista. Em fevereiro de 2018, iniciei uma viagem de 1 ano pela Ásia. Passei pela China e Japão e agora estou no Nepal. Daqui pra frente, com a realização de trabalhos voluntários em todos os países pelos quais passar, a viagem ganha um novo significado e, com certeza, mais sentido.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se
Você vai gostar

Não sabe o que fazer em BH?

Resolvido! VEJA O GUIA