Jantar comum

 Sharing Dinner, de Marije Vogelzang

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Hoje eu estava num consultório médico esperando ser atendida para minha última sessão de Reiki do ano. Era hora do almoço e a recepcionista aproveitou para dar um pulinho na Araújo pagar uns boletos urgentes, e deixou a Paula, faxineira da clínica, no seu lugar. Uma das médicas apareceu na recepção, procurando por ela. Paula explicou que ela havia ido ao caixa 24h da Araújo rapidinho e aproveitou para perguntar o que era bom para plaquetas. A médica aprofundou um pouco mais na pergunta e logo respondeu que plaqueta baixa dá anemia e que temos anemia quando estamos sem propósito de vida, sem curiosidade, sem tesão. Depois, como era de se esperar, entrou no assunto sobre serotonina no caroço da melancia, sucos e verdes.

Não conheci meu avô. Ele faleceu em março de 1980, 10 anos antes de eu nascer. Morreu de um AVC que teve enquanto assistia à novela, na sala de um dos apartamentos no 16º andar do Ed. Bocaiuva, na Praça Raul Soares. Caiu de cabeça na almofada que minha mãe tinha no colo, sentada ao seu lado. Meu avô era açougueiro, pai da minha mãe e da minha tia, apaixonado por uma aquariana de personalidade forte, doida da cabeça, cheia de vida, minha avó. Temos duas fotos dele guardadas: uma, desgastada, minha mãe carrega na carteira, a outra, em preto e branco, está num álbum de fotos empoeirado na última prateleira do escritório.

Ir pra roça é sempre a mesma coisa, alguém se aproxima da minha mãe e pergunta se ela é a menina de Rubens de Matos. Da confirmação dela, vêm os causos de que “Aaah! Rubinho…”. Meu avô era um homem muito doce. Não tem uma história que o contador não diga que Rubinho era um homem doce. Dizem que a gente acaba se tornando nossas mães, mas a minha se tornou o pai. Quando alguém fala da minha mãe, fala do mesmo jeito que eu ouço falarem do meu avô. Minha mãe é uma mulher muito doce também. Eu, assim como ela, puxei meu pai.

Além de Rubens Matos, eu também não conheci (pasmem) Jesus Cristo, que viveu milhares de anos antes de eu e você nascermos. Natal é mais ou menos sobre Ele, mas é principalmente uma pausa para compartilhar. Sabe essa doçura que passou de pai pra filha? Parece que por muitos anos essa ideia de estar junto em dezembro se desenrolou bem pro povo cristão, que de acordo com o Google, engloba mais ou menos dois bilhões de pessoas.

Hoje a gente lembra que é Natal porque no início de novembro as pop-up stores inauguram suas vitrines de neve, pisca-pisca e papais-noéis a pilha. Todo mundo entra em desespero porque o alarme soou. Natal significa que o ano está acabando e ninguém cumpriu todas as promessas feitas em Janeiro. Se você bebeu 2 litros de água por dia, não foi até o fim nas sessões diárias de mindfulness, mesmo sendo só 10 minutinhos por dia. Se finalmente entrou pro yoga, compensou largando mão da dieta. Se foi fielmente à academia e tomou seus scoops de whey, talvez tenha enrolado a visita que faria à sua avó. Leu todos os livros? Escreveu todos os textos? Organizou os arquivos do HD externo? Conseguiu completar os 3 meses com apenas 33 peças de roupa e sapato? Separou plástico de papel, de vidro e de orgânicos? Ih, não? Ah, mas a gente se perdoa fácil porque apesar de não ter feito tudo, a gente fez bastante. E por ter feito bastante, a gente merece comemorar e se mimar a rodo com a blackfriday, o décimo terceiro, e a mais nova e incrível função que a Apple acabou de lançar.

Falando nisso, você sabe quem, além de Jesus Cristo, também comemora aniversário neste fim de ano? A Sociedade do Espetáculo, obra em que, há 50 anos, Guy Debord constatou uma inversão concreta da vida, um movimento autônomo do não-vivo — de que as coisas parecem ter ganhado vida e as pessoas parecem ter virado coisas.

As separações, os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo (Medianeras, 2011) são reflexos de um desencantamento do mundo. São reflexo das relações sociais que deixaram de ser diretas e imediatas e passaram a ser mediadas pelas imagens. E isso afeta as plaquetas, sabe?, que você pode tentar tratar com caroço de melancia.

Sharing Dinner, de Marije Vogelzang

Marije Vogelzang é food-designer pela Design Academy Eindhoven, onde iniciou experimentos que dão à comida uma influência emocional super potente. Em 2005, foi convidada para fazer um jantar de Natal para o Droog Design, em Amsterdam. Em 2008, o projeto foi repetido em Hong Kong — daí as fotos.

My initial thought was that a Christmas dinner is full of clichés. How can you design something that’s already fully designed? But in thinking of Christmas as a time when people eat together, I decided to create a simple “intervention”.

Marije usou uma toalha de mesa e ao invés de colocá-la sobre a mesa, fez alguns cortes e a suspendeu no ar, para que os participantes pudessem se sentar e realmente entrar no espaço, com as cabeças para dentro e o corpo para fora. Isso conectou as pessoas fisicamente: se eu puxo aqui, você sente de lá. Cobrir a roupa de todos os participantes deu também um senso de igualdade. A princípio, a ideia de que as pessoas pudessem rejeitar a experiência preocupou Marije porque eram todas desconhecidas. Mas essa estranheza foi algo que contribuiu para o desejo de se relacionar e trazer o sentimento de estar em alguma coisa junto.

Sharing Dinner, de Marije Vogelzang

Como todos os projetos de Marije, a comida era parte essencial. Uma pessoa recebia uma porção dupla de melão; a pessoa que estava em seu lado oposto era servida com presunto. A combinação era tão clássica que ainda sem nada ser dito, os participantes naturalmente começaram a compartilhar a comida.

A designer conta que as pessoas estavam muito formais quando chegaram para o almoço, mas ao entrarem de cabeça na toalha de mesa, se divertiram feito criança. E a ideia era justamente essa: promover a interação não pessoa-objeto, mas usar o design para a interação pessoa-pessoa. Permitir que os participantes saiam do design na verdade os inclui, mas de uma forma diferente.

“A transformação desse conceito (o de interatividade) em estratégia artística pode ser colocada nos seguintes termos: na arte interativa a forma final do objeto artística apresenta um alto grau de abertura (que podemos chamar de informalidade), podendo ser alterada ou re-informada a qualquer tempo, especialmente por outras pessoas que não o artista. Era preciso considerar, inclusive, sua total destruição. Seu apelo social é o apelo da inclusão, da participação não especializada, de um engajamento lúdico necessário a uma arte cada vez mais distanciada do público leigo.”
Um futuro além da transgressão  —  CABRAL, José dos Santos.

Essa interatividade do projeto de Marije se assemelha aos jogos de Flusser, uma vez que, assim como tal, o resultado final é necessariamente da ordem da imprevisibilidade. Caso contrário, o jogo terá sido fraudado. É um projeto que opera na ordem da desterritorialização, uma linha de fuga que opera ao nível do pensamento e da criação. Questionar práticas convencionais a partir de novos territórios escapa toda possibilidade de representação e de espetáculo. Era o que eu teria sugerido à Paula como alternativa aos caroços de melancia, mas chegou minha vez.

Autor
"I am a lot sillier than I look. I’m unable to keep my mouth shut and so, as a result, am the content editor of GUAJA." (Meredith Talusan, editor senior da 'them') – Sou Arquiteta e Urbanista pela UFMG com formação complementada no Politécnico de Milão, gerente de conteúdo do GUAJA, e apaixonada por pessoas verdadeiramente obcecadas e constantemente curiosas pelo que fazem.

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