João e o pé de manjericão

 

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Deixei o adolescente em Balneário Camboriú, acho que ele deixará de adolescer. Resolveu estudar gastronomia. Eu nunca poderia imaginar que ele iria traçar esses rumos e olha que eu, como toda mãe que se preze, tirei 10 no quesito fantasia. Mas quem conhece a figurinha sabe que vai dar match, porque cozinha é lugar de amor, e João um prato de afeto. Farto e fundo.

Tô aqui pra chorar minhas pitangas, cerejas e mangas espada; e dizer que não tá fácil. Toda hora fico arrumando justificativas pra dizer que o meu sofrimento é único, seleto e de grandeza maior. Daqui a pouquinho descambo pra cafonice de dizer que só quem é mãe vai me entender. Vai nada! Ninguém sente a dor da porrada alheia. A gente imagina, empatiza e presta solidariedade. Mas esse soco é meu.

Não saco nada dessas paradas religiosas, meu pai que quase padre foi, achava uma besteira esse negócio de mandar missa pros peito e papar hóstia. Quer coisa mais sagrada que um lar pra receber o Chefão? Então, se tu num tem essa intimidade, peça licença e vá na casa Dele. Por aqui, o caminho é inverso.

Estava eu conversando com Ele na véspera da viagem de desembargo e só pedia pra que me enviasse compostura. Não pega bem alguém que já habita esse planeta há várias temporadas ficar fazendo escândalo. Lembrei do Abraão (não sou de todo virgem na temática) e fiquei pensando se ele uivou, arrancou os pelos da barba, se jogou no chão da montanha feito criança pirracenta em supermercado. Não, definitivamente Brabs não faria isso.

Chegamos ao destino e eu já estava absurdamente pronta pra odiar a cidade. Dubai brasileira, me poupem!

Chegamos no apê do universitário. Quem nos recebeu foi a Marta, zeladora do prédio em trajes Harley Davidsonianos com uma latinha de cerveja na mão. Foi tão prestimosa que já minou um pouco minha determinação para implicância. Tá, pode ser que as pessoas sejam um pouquinho simpáticas, admiti de má vontade. Depois veio o Alex, pessoa que confessa o orgulho de ter na sua carteira de trabalho o registro da função de “mordomo”. O Alex logo investiu sobre a falta de talento magistral que o adolescente tem de fazer network e praticamente exigiu do guri:

— Anota aí meu contato, João. Falando sério cara, anota agora! Tô na praça há quase trinta anos e no que depender de mim você arruma estágio pra ontem. Conheço só os chefs mais cabulosos dessa cidade e você vai ser um deles, piá.

Mais uma fraquejada minha: abracei o Alex, me julguem.

Dia seguinte fomos comprar uma magrela, já que a cidade inteirinha tem ciclovia e como se não bastasse; encostou o pé na faixa até o motoqueiro para pra a majestade pedestre passar. Na loja, meu caminho se cruzou com do Juarez. Mineiro de Juiz de Fora, mas completamente adaptado a essa mania que o povo tem de acolher. Está lá faz três anos e o rumo dele virou quando o filho também foi estudar na cidade. Ano seguinte, estavam ele, esposa e filha prontos pra virar praianos também (quem nasce ou reside em Balneário é chamado assim).

Juarez jogou baixo comigo. Disse que faria pelo meu filho o que gostaria que tivessem feito pelo filho dele. Que antes do João (que agora já estava com celular em punho, pronto pra add o novo brother) ligar pra mim com qualquer tipo de amolação, era pra ele quem deveria ligar. Que não tinha essa história de ficar fim de semana em casa pra alimentar solidão. A recomendação era pintar na casa dele pra assar uma carninha.

Nesse ponto da história era notório o sorrisinho debochado de Deus. E só pra me sacanear mais um pouquinho, colocou no meu caminho o Fábio e o Júlio, também já devidamente incluídos no rol de camaradas do João.

Assim, covardemente desarmada tratei de escrever de giz na parede do banheiro (que era destinada a isso, auto lá) do restaurante que estava deixando o João ali porque sabia que iam cuidar bem dele. E firmei o compromisso colocando BH e BC dentro do mesmo coração torto que desenhei.

Na hora do pega pra capar mesmo me comportei como uma dama aristocrática. Em um abraço muito apertado me contive a dizer: faça amigos e seja feliz. Olhos finamente marejados e o nariz num tom rosê simpático. Quando a porta do carro se fechou… bom, aí vocês já estão querendo detalhes sórdidos.

No aeroporto, eu, Hanna Rudolf, recebo uma foto do adolescido no celular. A primeira coisa que o rapaz fez depois de nos despachar, foi comprar uma jardineira e plantar as sementinhas de manjericão que a amiga Isabela deu quando se despediram. Sim, ele plantou sementes. Elas hão de brotar e crescer fortes e com raízes profundíssimas tais quais as que ele deixou por aqui.

Vai germinar, João.

Autor
Sou a rapa do tacho de uma família mineira de cinco filhos. Apareci por descuido e cresci despercebida, num universo de adultos. Aprendi quase tudo através da observação e da imitação. Este relativo descampado social me brindou com uma vastidão no campo da imaginação. Passei a habitar o mundo das palavras e por isso fui uma criança com vocabulário e repertório incomuns. A inadaptação fez surgir uma habilidade que me permitiu criar pontes e afetar as pessoas através da minha escrita. Quando me dei conta disso me senti segura. A escrita, para além da necessidade, passou a ser o meu modo de existência.

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  1. A raspa de tacho costuma ser a melhor parte.
    A vastidão de teu campo imaginário é explendido.
    Eu disse isto tempos atrás.
    Lindo,ter se resolvido, onde chegou por descuido,sentindo-se despercebida, num descampado social.
    Eu me encanto por relatos onde não ha cobranças, apenas constatações!
    Claro,mesmo neste sistema, houve amor e base sólidas.
    Querida!Pela árvore se conhece os frutos.Pelos frutos a boa semente!
    O João já está germinando.

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