João, pra sempre

 A foto é parte do projeto fotográfico de Lucas Ávila junto a pessoas trans de BeloHorizonte.

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Certa vez, não me lembro o ano, enfrentei uma enorme fila para que João Nery me autografasse o livro “Viagem Solitária”. Já o havia lido na época, mas tinha dado meu primeiro exemplar para alguém, não me lembro quem, que tinha se interessado pelo assunto. Aqueles misteriosos e frequentes casos de livros que desaparecem para fazer histórias em outras mentes e não voltam mais. Talvez seja melhor assim. Expliquei para ele a situação, disse que queria relê-lo, quando escreveu na dedicatória: “Para Lucas, que a nova leitura lhe traga releituras da mesma história.” Anos depois, quando realizei uma exposição de fotografia sobre o cotidiano de travestis da cidade, João me escreveu, daquela forma direta, mas carinhosa: “Poxa, homens trans você não fotografa não?”

A cobrança vinha de alguém que exalava autoridade no assunto. João W. Nery foi (embora sempre seja presente e futuro) o primeiro homem trans cirurgiado no Brasil. Foi um grande símbolo da luta pelos direitos LGBTQI, fez sua transição ainda jovem, em plena ditadura militar. Burlou a legislação da época, retificou seu nome na clandestinidade, perdeu seus diplomas, enfrentou o mundo para ser reconhecido como queria. Escreveu livros, casou, teve filho, deu incontáveis palestras, viajou todo o país, ganhou prêmios, seu nome virou projeto de lei, salvou vidas, deu broncas, tirou dúvidas, acalantou corações angustiados, desamparados, incertos quanto a si a ao mundo. Ficou conhecido como o “pai” de vários meninos e por diversas vezes presenciei demonstrações de afeto e gratidão por sua existência. João lutou até o fim para conquistar seu espaço, mas sempre teve o cuidado de lutar pelo espaço do outro.

No final de 2016, iniciei um projeto de fotografia com transmasculinos que, mais tarde, ganhou a participação do fotógrafo Gael Benítez. Estivemos na casa de João Nery em Niterói, no Rio de Janeiro, em novembro de 2017, pouco tempo antes de iniciar a segunda sessão de quimioterapia, quando começaria o processo de perda de pêlos. Ele não queria ser retratado sem a barba que batalhou tanto para ter. Durante a sessão de fotos, sugeri que ele tirasse a camisa, de uma forma que ainda não tinha sido visto em público. Ele concordou, disse que, sendo um dos primeiros homens trans com visibilidade no Brasil, seria importante que as pessoas transmasculinas mais novas vissem um corpo trans envelhecido. Achei um gesto de profunda generosidade.

Após o ensaio, me aproximei do João de uma forma que ainda é difícil escrever ou falar sobre ele sem me emocionar. Conversávamos quase todos os dias, sobre todos os assuntos, como se nos conhecêssemos há muitos anos. Passei a ajudá-lo, com entrevistas e relatos de pessoas trans idosas de Belo Horizonte, no livro – ainda inédito – “Velhice Transviada”, que ele terminou de escrever ainda no hospital, onde sua saúde foi se fragilizando. Quinze dias antes de sua partida, estive com ele durante um fim de semana. Me contou que estava mais à vontade com seu próprio corpo. Disse que, um dia, quando dois enfermeiros lhe davam banho, questionou: “estão vendo como não é preciso ter pênis pra ser homem?” Reuniu a equipe no hospital, em seu leito, e palestrou sobre corpos trans. Era a primeira vez que muitos profissionais da saúde tinham contato com aquela realidade. Foi um educador até o fim.

Tenho refletido muito sobre a morte. Quando se pensa no lugar para onde vai uma luz que aparentemente se apaga, a vida nos coloca navegando em um grande mar de mistérios. Afinal, será realmente possível saber quando a vida começa e quando termina? Os olhos que se fecham aqui continuam abertos dentro da gente. A certeza é a de que, nos fios das relações que se tecem e se entrelaçam durante nossas vidas, uma pessoa passa a morar dentro da outra. Somos parte do universo e, sendo assim, também somos partes do outro. A leveza das palavras, o abraço em forma de afeto, o olhar carinhoso, a serenidade dos sonhos. Tudo isso não morre com o outro, vive com a gente.

Amo você, querido João. Sua vida vive em muitas outras.

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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