João, para quebrar o corpo

 Foto: Lucas Ávila

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Certa vez, uma amiga me disse que a liberdade que temos em vida é escolher a prisão que queremos estar. Respondi a ela: “que esta prisão seja o mundo inteiro, então”. Abrir as asas, planejar rotas distantes, percorrer montanhas, flutuar diante do abismo. A gaiola de qualquer pássaro deve ser o mundo. Ou pelo menos deveria. Corpos que desafiam toda e qualquer regra imposta, que existem, resistem, morrem e vivem pelo simples fatos de serem. Hoje vocês conhecerão um pouco do João, artivista, transmasculine, intersex. João é exemplo de que o vôo de um pássaro pode chegar e estar em qualquer lugar, apesar dos estilingues e demais obstáculos que impedem a liberdade. Eles (não) passarão, João passarinho.

Para quebrar o corpo

Pintam-me de carne e até num sopro ela se descasca e sangra.

Desejam uma cópia que havia se encontrado com a cópia da outra cópia que se copiou da cópia, da outra cópia, desde aquela cópula inicialmente copada pelas cópulas daquele antigo baralho de mão.

Entretanto, sendo eu assim, um ser de acentos circunflexos intersexuais e não bináries, sigo por estradas soladas em acordes de batom vermelho, calças largas, saltos, aba reta pra trás, reflexos e espelho.

Nunca soube o que era mesmo e comecei então a me confundir com o que não era, mas que insistia em me devolver com tapas.

Até perceber que o tapa que mais me doía era exatamente o meu.

Visto-me de mim para despertar o discurso que repete e replica CIStematicamente colonizado, estereotipado, normativo e opressor.

Eu sou protagonista do meu corpo trans transviado intersex e esquizofrênico.

Afinal por qual motivo estariam eles falando de mim?

Qual a necessidade teriam para se preocupar?

Eu sou protagonista do meu corpo trans transviado intersex e esquizofrênico.

Era como saber os naipes e a possibilidade numérica exata de um baralho e, saber ao mesmo tempo pelo sentido da visão que tenho que cada uma das cartas está de costas, seja no monte, nas mãos; fechadas ou abertas, sem binariedades nisso, mas também verticais ou horizontais elas estavam de costas, eu sabia os números que poderiam aparecer, assim como as letras e formas.

Pensando em baralhos começa então a pensar em ocasiões. O que são, se são milhões, trilhões, ou se era ocasião. Apenas ocasião. Que mania pedante a de alertar-se para ruídos. A descarga na madrugada era incessante e a perseguição parecia gostar às vezes de sentir-se em fuga.

– Como bater, como bater? Tento trapacear pela retórica? Ou corro, entrego logo os pontos dessa queda e imediatamente proponho uma melhor de três?

Era complicado confiar em ocasiões e…

Eu sou protagonista do meu corpo trans transviado intersex e esquizofrênico.

Desejo que o corpo tenha liberdade de ser e de se transformar, para que o corpo possa ser um e dois e três e que não tenha limite, mesmo que se exauste.”

João Maria Kaisen de Almeida

JoMaKA é artivista. Concilia o ativismo com a arte/cultura tendo participado de festivais e eventos dedicados à temática LGBTIQ+ e à representatividade, onde realizou trabalhos enquanto pesquisador, palestrante, arte-educador, performer, dramaturgo, produtor, iluminador, curador, ator em série (audiovisual) e jurado em concurso literário. Foi eleito Delegado Nacional Titular de Direitos Humanos, enquanto pessoa civil em exercício de Direito não comissionado e, em decorrência, fez participações de Seminários, Encontros, Congressos e Conferências. Membro-idealizador do coletivo Academia TransLiterária, dramaturgo em Bacurinhas e performer musical em tipo banda Mascucetas. Recentemente publicou o livro Generalidades ou Passarinho Loque Esse.

Autor
Jornalista, fotógrafo e, desde 2010, realizador de trabalhos que envolvem visibilidade de travestis e transexuais (binários e não-binários)

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