Para além das cervejas: a trajetória de afeto e autenticidade do Juramento 202

 Foto: Camila Rocha/Estático Zero

Receba artigos sobre negócios semanalmente em sua caixa de entrada!

×

Tradição e inovação, charme e ousadia. Contrastes que dão certo porque são partes inseparáveis de quem somos. Tipo queijo com goiabada.

Provavelmente você já disse ou escutou alguém dizer que “em Belo Horizonte não tem muito o que se fazer”. É, às vezes a gente fala sem pensar mesmo. Ou, se algum dia isso foi real, esse tempo ficou no passado, junto com a ideia de que BH é uma “roça grande” e tantas outras visões conservadoras.

Deixar a cidade para rodar um projeto fora? Não mais. Vamos fazer a diferença no momento mais importante das nossas vidas: o aqui e o agora. Nos últimos anos, redescobrimos uma cidade que pulsa e vibra à medida em que seus moradores ocupam as ruas e se reconhecem em esquinas que guardam encontros, ao mesmo tempo, inusitados e acolhedores.

Rua Juramento, número 202

Numa dessas esquinas, mais exatamente no bairro Pompeia, um novo empreendimento ganhou os corações belorizontinos: o bar que leva o mesmo nome da rua. Juramento 202 — Cervejaria Viela é um negócio que nasceu entre amigos, mais exatamente a partir da paixão por cervejas e toda a experiência social que a bebida proporciona. Inaugurado em 2016, o estabelecimento encantou e segue encantando moradores locais e turistas, exaltando a beleza que reside na simplicidade e provando como a autenticidade é fator-chave para a prosperidade de um negócio.

Um espaço onde já funcionou uma oficina de motos, fábrica de biscoitos, igreja, mercado e armazém, hoje nos surpreende com uma cervejaria local e artesanal. Com frases curiosas e divertidas nas paredes e tabuleiro de xadrez no tampo da mesa, o clima é de receptividade e afago no coração. Música brasileira tocando, um chorinho ao entardecer das quartas, um banheiro sem teto. Sim, fazemos xixi olhando pro céu! Quer coisa mais poética?

Aliás, poesia descreve bem o Juramento. Mas toda essa aura, embora pareça, não é mágica, e se tornou real graças a um esforço coletivo e ideias borbulhantes. A gente convidou o Rafael Quick pra um bate-papo descontraído, que rolou num happy hour incrível no Juramento, porque queremos conhecer as histórias e os rostos por trás de iniciativas legais de BH. Representando o time da Cervejaria Viela, conhecemos sua trajetória de vida e também como as águas rolaram até chegar no que se é hoje. Ao lado de Samuel Viterbo, Marcelo Machado e Luiz Furiati — amigos e sócios do Rafa — ele inaugurou o empreendimento que atrai inúmeras pessoas diariamente até a Zona Leste de BH, e que, inclusive, cresceu e ganhou um primo no centro da cidade. Falaremos disso mais pra frente.

Antes de tudo, vamos entender quem é Rafael Quick, quais aventuras já viveu e quais caminhos o trouxeram até aqui.

Prazer, Rafa

Foto: Camila Rocha/Estático Zero

Esse moço de 30 anos diz viver meio no futuro e meio no passado. No futuro porque está sempre pensando em seu próximo projeto; no passado porque é nostálgico e tem um fascínio por objetos antigos. No meio tempo do presente, vem fazendo a diferença na cena empreendedora local!

Designer gráfico por formação, logo na metade da graduação, em 2009, abriu com amigos o MIHO — estúdio de design gráfico e de produto. O propósito era fazer um design consciente, sabendo onde e como suas produções teriam impacto. Esse é um fio condutor de toda a trajetória do Rafa: ter consciência do afeto e da afetação do seu trabalho.

SP parte 1

Depois de formado, partiu para São Paulo em busca de espaço para dar voz às suas ideias. Passou pelo Curso Abril de Jornalismo e pela Superinteressante, onde teve seu primeiro contato com tratamento da informação e foi subindo de cargo à medida em que propunha pautas relevantes.

A estética do interior

Durante um ano e meio, acompanhou a esposa Maíra e morou em Cianorte, interior do Paraná. Uma experiência à primeira vista pacata revelou-se surpreendente, permitindo ao Rafa entrar em contato com uma estética diferente de tudo que já tinha vivido: do interior, da simplicidade genuína. “Lá eu percebi essa poesia do dia a dia e encontrei uma pureza nas coisas que me deixou pirado”, conta.

SP parte 2

Pirado e inspirado. Depois desse período no Sul, voltou pra São Paulo e duas novas experiências de grande relevância e responsabilidade merecem destaque:

Galileu

Foi convidado para assumir a Direção de Arte da Revista Galileu, concorrente direta da Superinteressante. Esse foi um grande desafio devido à crise do impresso, o que deu carta branca pro Rafa repaginar da forma como julgasse mais interessante: o reposicionamento começou no campo gráfico, depois rolou toda uma mudança também na parte do conteúdo, com reportagens trazendo temas mais quentes (feminismo, questões de gênero) e se aproximando da linguagem do digital.

Depois de um ano, com a estética da revista mais agressiva, alguns conteúdos viralizados e números melhores de acesso, Rafael queria um novo propósito na vida.

Mesa & Cadeira

Rafa foi convidado para ser designer do Mesa & Cadeira, uma empresa que promove imersões de trabalho para criar e prototipar projetos em até 5 dias. Um ambiente onde ele cresceu e assumiu o cargo de líder de mesa, sendo o responsável por entender o problema dos clientes, montar times de trabalho e oferecer as melhores soluções. Foi durante essa experiência que Rafa passou a ter uma visão holística sobre os projetos e tirou um de seus maiores aprendizados para a vida empreendedora: compreender sua real necessidade no momento e agir a partir dela.

O timing desse aprendizado casou perfeitamente com aquele que seria o próximo passo de Quick: seus amigos Samuel e Marcelo o convidaram para ser o designer de uma nova cerveja artesanal mineira. A Cervejaria Viela veio ao mundo, mas ele queria mais: mais do que designer gráfico, queria ser designer de experiências e também um dos sócios do novo negócio, ao lado da dupla que fez o convite e Luiz, outro integrante do time de sócios.

Dito e feito, o quarteto inaugurou a Cervejaria Viela na charmosa esquina do Pompeia.

De volta a BH, sim

Porque é aqui onde ele vê valor para agregar. “Em São Paulo tive experiências maravilhosas, mas minhas relações estavam em outra esfera. Aqui eu tô próximo da minha família e dos meus amigos, sinto que é lugar certo para empreender. Tenho certeza de que o Juramento daria certo em São Paulo, mas acho que lá eu seria engolido. Talvez seja cultural, mas é o que eu sinto”.

Ter um bar requer leveza, e essa o Rafa carrega consigo — na fala, no olhar e na prática. A Viela não é só sobre cerveja, é sobre ser leve. É sobre um conector de pessoas que abaixa a pressão coletiva e quebra durezas cotidianas. “A Viela é tudo que acontece aqui, para muito além da bebida. A gente tira proveito das coisas boas que a cerveja proporciona e cria todo um universo aqui dentro, onde as pessoas vêm para se divertir, se encontrar”.

O consumo como poder político

E assim, pensando em cada detalhe que possa somar no micro e no macro, o Juramento 202 se estabeleceu como um dos negócios da efervescente e nova economia de Belo Horizonte, ao lado de outros empreendimentos que compactuam de valores e propósitos semelhantes.

Foto: Camila Rocha/Estático Zero

Esse movimento de valorização da produção e do empreendedorismo locais vem ganhando força, não só em BH, entre pessoas que se propõem a consumir com mais consciência, e veem valor em enaltecer iniciativas próximas. Como bem disse Rafa, esse modo de consumo nos permite enxergar onde e como nosso dinheiro impacta a cidade, sem entrar na lógica massiva do mercado. Nós nos reconhecemos em determinadas iniciativas e criamos narrativas afetuosas para prosperar negócios em que acreditamos.

Não é mais sobre ser gigante e sofisticado. É sobre ser verdadeiro e coerente. Acho que essa nova geração de empreendedores [e consumidores] enxerga isso mais ativamente, é uma forma de dar propósito à vida”, disse Rafa. De fato, nossas ações são políticas e é por meio delas que somos capazes de transformar.

Da disposição dessas pessoas para ressignificar nossos espaços, estilo de vida e consumo, nasce uma cidade mais autêntica, que cresce aos olhos de quem aqui vive e se destaca no âmbito nacional, despertando o interesse de turistas que talvez não considerariam incluir BH na rota das viagens… que viagem errada!

Pensa rápido

Mais designers deveriam empreender?

Sem hesitar, a resposta foi: sim, sem dúvidas. “Os designers costumam ter uma sensibilidade aguçada que nos permite ir além da casca. Nosso papel é deixar tudo alinhado à proposta do negócio, definindo por meio de quais elementos vamos contar uma história: música ambiente, iluminação, materiais… tudo”.

O que fez o Jura bombar?

Aqui é o bar que a gente gostaria de frequentar. Além de estar ligado ao local e à boemia da cidade. Nunca imaginamos toda essa galera frequentando aqui, e agora percebemos que esse movimento se conecta a uma série de outras dinâmicas que tem ganhado força. Nós não inauguramos a cerveja artesanal local, isso já existia, mas desde o começo somos fiéis à nossa vontade, à nossa verdade. A gente se dá bem com a vizinhança, compra de fornecedores do bairro, nossos preços e nosso discurso são coerentes.

Foto: Camila Rocha/Estático Zero

A você interessam mais os inícios ou as manutenções?

Os inícios. Eu cairia no tédio se ficasse apenas cuidando do que já existe. Nos meus próximos anos me vejo criando coisas novas, quem sabe explorando o interior de Minas. Quem sabe…

Por falar em novo, Mercado Novo

Há um ano surgiu a oportunidade de a Viela levar suas cervejas artesanais para um novo circuito gastronômico no centro da cidade, mais especificamente no Mercado Novo — reduto belorizontino que carrega uma história interessantemente atípica. Vivendo seu momento mais próspero, embora muita gente pense o contrário, a ideia é fortalecer a identidade do local mantendo vivos seus ecossistemas — histórias, pessoas, comércios.

A Viela é o que amarra o Jura ao novo empreendimento, que leva o nome de Distribuidora Goitacazes e Cozinha Tupis. Mas não pense que a cervejaria vai transformar o lugar… o Mercado continuará com sua essência e configuração. Em funcionamento desde setembro deste ano, a ideia é somar sem distorcer o que já existe ali. “Nossa ocupação no Mercado mira em trazer nossa energia contemporânea e nossa capacidade de girar grana para esse lugar tão potente, porém sem o devido valor, enquanto temos a oportunidade de usufruir da autenticidade do local e de seus personagens. Nos comprometemos a respeitar a cultura do Mercado, criar um espaço acessível e em colaborar com os outros produtores que ali estão todos os dias”, explica.

Foto: Divulgação

E se agora o momento é de valorizar o que é nosso, gerando identificação e reconhecimento nas pessoas, devemos concordar com Rafa quando ele palpita que, dentro de um ano, o Mercado será um dos lugares mais relevantes do Brasil. Afinal, em um mundo cada vez mais pasteurizado, iniciativas que fogem do padrão ganham notoriedade.

E ganharam. Na simplicidade, sendo quem se é, Belo Horizonte se conectou e se rendeu ao Juramento e à Viela pelo afeto e pela verdade que aquela esquina transmite. Vida longa! Salve, Rafa!

Autor
A paixão pela palavra escrita, falada ou não-dita fez de mim jornalista e publicitária pela UFMG. Sou uma das mentes criativas do time de Comunicação do GUAJA: aqui dou vida às ideias, nomes às coisas e cores às palavras. Quer contar uma história ou dar play em um novo projeto? Me chama que eu vou. Da produção cultural ao conteúdo digital, me redescubro nos encontros, e nos desencontros me reinvento. Sempre além.

Share the love.

Se este artigo te fez lembrar de alguém, mostra pra elx!

Para comentar você deve ter uma conta—só leva um minuto:

fazer login ou registrar-se