Ladrilho hidráulico: uma história e muitas facetas

 Edifício Alcindo da Silva Vieira. Museu de Artes e Ofícios. Foto: Victor Schwaner

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Para o Casa e Chão – Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte (2016), a historiadora Maria Eliza Linhares Borges traçou uma cartografia do ladrilho hidráulico. Como parte da série criada pelo projeto Chão Que Eu Piso para o GUAJA, compartilhamos hoje a sua narrativa. Na galeria de fotos, uma seleção de achados em Belo Horizonte.

“No término do século XX designers de interiores percorrem o que restou dos pisos de varandas, cozinhas, banheiros, salas de jantares e corredores de habitações do final do século XIX e primeiras décadas dos novecentos. Inspirados pela profusão de cores e traços do neogótico, do art nouveau e do art déco dos ladrilhos hidráulicos de ontem, recriam o décor de espaços privados da atualidade.

Esse movimento de revalorização e reinvenção da tradição integra uma agenda compartilhada por pesquisadores da Belle Époque; restauradores; arquitetos e atores do patrimônio histórico.

Carreau ciment ou carreau hydraulic em francês, mosaico hydráulico em espanhol, al-baltṭ al-mosaik em árabe são denominações do revestimento de pisos e paredes conhecido no Brasil como ladrilho hidráulico. Criado provavelmente na cidade de Vivier (França) em 1860, esse revestimento tem sua história vinculada às grandes transformações contemporâneas da segunda revolução industrial. Percorrer, ainda que brevemente, esse ambiente é um modo de conhecer facetas da gramática do ornamento que inclui o ladrilho hidráulico.

Uma cartografia do ladrilho hidráulico

Entre fins do século XIX e primeiras décadas dos anos novecentos, a produção de ladrilhos hidráulicos esteve presente em quase toda a Europa, nos Estados Unidos e em inúmeras colônias e ex-colônias europeias na África e nas Américas. Entre elas destacam-se Argélia, Marrocos e Cuba, maior produtora e exportadora de ladrilho hidráulico da América Latina. Muito apreciados foram os revestimentos oriundos da Síria e do Líbano, na época colônias francesas. Outras sucursais foram abertas nas então colônias francesas, Haiti, Martinica e Senegal , assim como nas portuguesas Cabo Verde, São Tomé, Angola e Goa.

A abundância e a boa qualidade de matérias-primas (rochas calcárias com materiais argilosos, minerais empregados na feitura de pigmentos), somadas à exploração do trabalho, escravo e semiescravo, dos súditos estimulavam a abertura de filiais nos territórios coloniais e a expansão de seus mercados nas ex-colônias, como Brasil e Argentina.

Ora, essa cartografia sinaliza um mercado transoceânico, indício do interesse global pelo ladrilho hidráulico; também pressupõe a diversidade sócio-cultural das sociedades que o produziram, o que, por sua vez, explica a riqueza estética dos ladrilhos. Porém, ela nada revela sobre as razões de seu sucesso, bem como de seu circuito em escala mundial.

Pelo menos cinco fatores externos e três internos à história do ladrilho hidráulico foram determinantes para seu itinerário de sucesso. Vejamos.

Inovações tecnológicas e reformas urbanas na Belle Époque

Até fins dos anos oitocentos, o revestir pisos era uma prática para poucos. Mármores, cerâmicas e marchetaria de madeira eram materiais caros, de difícil manejo e demandavam mão-de-obra qualificada. Por isso, ter casas com pisos revestidos era sinal de distinção social.

Porém, a entrada do cimento no mercado (por volta de 1824) revoluciona o mundo da construção civil e com ele o universo dos revestimentos. Poucas décadas após o surgimento do cimento, tem inicio a era das reformas urbanas. Projetadas segundo novo código de salubridade urbana, elas inauguram uma nova cultura do habitar e do viver em cidades, dentro e fora da Europa. As equipes do barão de Haussmann em Paris (1851), de Ildefons Cerdà em Barcelona (1860), de Pereira Passos no Rio de Janeiro (1903), representam uma fração das tantas e distintas intervenções urbanas da Belle Époque. Em meio a esse processo ─ inovador e socialmente controvertido ─ destaca-se, ainda, o planejamento de cidades-capitais como ocorreu, por exemplo, com La Plata (1880) na Argentina e Belo Horizonte (1897) no Brasil.

Dentre as mudanças previstas pelas intervenções urbanas está o combate à insalubridade pública e privada. Pelo menos em tese, as novas edificações devem ser arejadas, ter banheiros integrados ao corpo da casa e os pisos revestidos com material resistente à ação da água, pois devem ser lavados cotidianamente. Indiretamente, as reformas urbanas impulsionam a produção do ladrilho hidráulico, um revestimento semiindustrial; de baixo custo; resistente à ação da água e que dispensa o uso do forno.

Se, por um lado, o ladrilho hidráulico atendia às exigências do código de salubridade pública, por outro, seu sucesso de mercado dependia da aprovação dos consumidores. Como tantas novidades, essa também demandou inovação tecnológica, investimento na formação de mão-deobra, nas áreas do design e do marketing.

As exposições universais e outros circuitos do ladrilho hidráulico

Os anais da primeira Exposição Universal, realizada em Londres, em 1851, destacam o mosaico hydraulico da empresa espanhola La progresiva, de Bilbao. De baixo custo, este revestimento é bem distinto do ladrilho hidráulico, que dominaria o mercado mundial. Ele é liso e tem tonalidade cinza; condiz com o gosto popular de então.

Dezesseis anos depois, o novo ainda encontra resistências. Amostras de ladrilhos hidráulicos da empresa catalã Garreta Rivet i Cia – que tinha filial no Rio de Janeiro – recebem menção honrosa na Exposição Universal de Paris, de 1867. Embora contendo duas cores, o que já denota avanço técnico, sua composição é tradicional: imita o mármore e o mosaico. O corte com a tradição viria mais tarde. Na Exposição Universal de Barcelona, de 1888, outra empresa catalã, Orsola Solà i Cia, recebe medalha de ouro pela qualidade técnica e pelo décor de seus ladrilhos hidráulicos; em 1892, ela volta a ser premiada na Exposição Universal de Bruxelas.

Certamente os modelos apresentados nessas feiras – iniciadas em 1851 e interrompidas apenas durante as duas Guerras Mundiais – já circulavam no mercado, mas sua exposição reforçava seu valor junto aos milhares de visitantes que nelas circulavam.

Londres, Paris, Bruxelas, Viena, Barcelona, Chicago, São Francisco foram algumas das cidades a sediá-las. O Brasil esteve presente, como expositor e visitante, em quase todas as Exposições. Se a 1ª Exposição (1851) teve 13.937 expositores e 6.039.135 visitantes de diferentes partes do mundo; em 1900, a Exposição de Paris suplanta as demais. Foram 51 milhões de visitantes circulando nos 46 hectares que abrigavam mercadorias de 83.047 expositores (38.253 franceses e 44.794 e estrangeiros). Esses templos do consumismo da burguesia eram formadores de opinião.

Simultaneamente, a cultura do olhar se reproduz velozmente. A novidade da fotografia multiplica o mercado das Exposições. Divulga os modelos de ladrilhos hidráulicos em “Almanaks”; catálogos de produtos e folhetos técnicos com instruções para fabricantes, editados em diferentes idiomas. Enquanto isso, milhares de cartões-postais levam e trazem notícias; simultaneamente suas imagens difundem novos hábitos de morar e viver na Belle Époque.

Entre 1880 e 1890, o ladrilho hidráulico está nas habitações populares e burguesas, nos edifícios públicos, dentro e fora da Europa. A partir de então, a marca da distinção social estará na assinatura das peças. Numa jogada de marketing, muitos empresários convidam arquitetos e designers renomados para assinar sua arte nas peças de ladrilho hidráulico. Esse foi o caso dos modernistas catalães pertencentes ao círculo de A.Gaudi, constituído por arquitetos (Eric Saquier Villavecchia; J. Puig i Cadafalch; J.M. Pujol) e designers (Alexandre de Riquer, dentre outros). A aliança entre o ornamental e a funcionalidade foi determinante para sedimentar o gosto dos consumidores pelos ladrilhos hidráulicos.

Em fins de 1890, a falta de artesãos competentes no mercado coloca Tours (França) e Barcelona (Espanha) no circuito de ensino/aprendizagem do ladrilho hidráulico. Artífices do México, das Filipinas, dos E.U.A e do Marrocos, bem como da Europa, aprendem os segredos dos mestres desse revestimento. Paralelamente, empresas se especializam na venda de desenhos, o que garante a reprodução gráfica de pisos mundo afora. A empresa brasileira Cresta, do Rio de Janeiro, é parte desse processo; figura na lista dos clientes de Lachave, em Vivier.

O itinerário do ladrilho hidráulico não pode ser aqui concluído sem ao menos lembrarmos os navios repletos de imigrantes que fazem a rota Europa-Américas. Excluídos dos mercados de seus países, milhares de mestres, artífices e aprendizes de ofícios distintos aportam nas Américas. Entre eles, muitos dominam o savoir-faire do ladrilho hidráulico. Esses e outros imigrantes, mais abastados, são responsáveis pelo funcionamento de oficinas e casas comerciais nas cidades planejadas e reformadas das Américas. No caso específico do Brasil, portugueses, espanhóis e italianos, sobretudo, parecem ter monopolizado este mercado em voga até o final da década de 1950. Mas esta é uma história para novas pesquisas.”

Confira as outras publicações da série aqui.

Autor
Idealizado pelas jornalistas Paola Carvalho e Raíssa Pena em 2013, o projeto vem catalogando fotos de pisos encontrados em construções históricas de todo canto do mundo. Já são mais de 250 histórias e 12.000 registros de pisos enviados por colaboradores de vários países, como México, Polônia, Vietnã, Marrocos, França, Itália e Estados Unidos. A ideia é não apenas destacar a beleza estética do chão, como também chamar atenção para as histórias que esses pisos testemunharam e o estilo que eles carregam. Se juntou, em 2016, ao projeto Casas de BH para lançar o livro Casa e Chão — Arquitetura e Histórias de Belo Horizonte.

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