A missão plural da Letramento

 

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A Letramento existe há cinco anos em Belo Horizonte e já publicou 210 livros, mas é um deles (ou melhor, um conjunto deles) que vem conquistando leitores brasileiros e garantindo o tão disputado espaço nas vitrines das livrarias. Estou falando da coleção Feminismos Plurais, organizada pela Mestre em filosofia e ativista Djamila Ribeiro, autora do primeiro livro da série, O que é lugar de fala?. A coleção é uma aposta em um reconhecimento da importância da multiplicidade de vozes.

Gustavo Abreu, cofundador e diretor editorial, reforça o pensamento de Djamila Ribeiro de que “mulheres negras e indígenas e homens negros” devem ser tratados como sujeitos políticos em vez de sujeitos “implícitos ou relegados a condição de ‘mero recorte’ dentro de uma história única e excludente”. O discurso é reforçado pelo fato de os autores promoverem discussões e debates de lotar teatro com mais de mil lugares (como aconteceu no Sesc Palladium em março deste ano). Gente como Ribeiro, Juliana Borges (O que é encarceramento em massa?), Joice Berth (O que é empoderamento?), Silvio Almeida (O que é racismo estrutural?) e Carla Akotirene Santos (O que é interseccionalidade?, já em pré- venda) evidencia que existe uma produção de conhecimento que foge à homogeneização da literatura e ao genocídio cultural.

Mas é bom lembrar que nem só de Feminismos plurais se faz um grupo editorial. Na verdade, a coleção faz parte de um projeto pouco usual no país: a publicação de não-ficção. Além de sua série mais famosa, a Letramento se desdobra em selos para publicar obras de direito (Casa do Direito), de economia e negócios (Alpha), de literatura jovem (Bubble) e gastronomia (Fome de?), além das obras que saem pela editora principal. Entre as
publicações, estão obras como Anticorpo, de Bruna Kalil Othero, e A incrível história do homem que pedalou da Índia à Europa por amor, de Per J. Andersson.

Na entrevista abaixo, Gustavo dá um gostinho dos bastidores da editora e revela como pensa a edição lado ao lado do negócio editorial.

Flávia Denise: Como foi o processo de abrir a editora e como vocês chegaram ao modelo editorial atual?

Gustavo Abreu: Trabalhei em três editoras de livros Científico, Técnico e Profissional (CTP) antes de criar a Letramento. A última delas, infelizmente, foi descontinuada no processo de unificação de um grupo educacional. Em vista de ficar sem emprego, vi que era hora de tirar do papel uma vontade que eu tinha de ter minha própria editora. Me juntei a um amigo de alguns anos, que resolveu apostar no meu sonho. Nos nossos primeiros planejamentos, a ideia de trabalhar com o mercado infantil era muito forte, mas, para fazer do jeito que gostaríamos, ia precisar de muito dinheiro e era muito arriscado. Então, juntei a expertise
que eu tinha das outras editoras, e resolvi pautar boa parte dos meus esforços na não-ficção, em diversas áreas. Com o tempo, foi aparecendo um pouco de literatura e resolvemos nos denominar “grupo editorial”, que abarca vários selos, num sentido de organizar mesmo a coisa, para ficar claro para as livrarias que têm setores específicos de compra. E (por que não?) para ficar claro pro leitor. Na minha visão, pro leitor não importa muito se a mesma editora publica jurídico e literatura, contanto que ele goste do livro.

Quais são as maiores dificuldades em ser dono de uma editora?

Definitivamente é não conseguir ter o controle da ponta do processo.
Eu explico: No início, a dificuldade é encontrar autores que, assim como você, acreditam no projeto e querem publicar por uma editora pequena. Todo dia sai a nova J.K. Rowling de casa. Assim que começam a sair os livros, esse problema meio que some. Aí, o problema é que não acham os livros nas livrarias.
Não vou dizer que é o único, mas, de que eu tenho conhecimento, o livro é um dos únicos produtos no Brasil que não é corrigido ano a ano pela inflação. A cerveja que você tomava em 2010, foi corrigida pelo menos sete vezes. O livro que você comprava, é bem provável que hoje custe mais barato. Porque, se não custar, as pessoas não compram. E o problema é que toda a cadeia teve aumento, do salário do funcionário ao preço do papel.
Bom, voltando para as dificuldades…
Aí você entra na livraria… problema resolvido, já encontram meu livro nas grandes redes. Não! Alguém um dia teve a brilhante ideia de inventar a consignação [sistema em que as editoras emprestam livros para as livrarias, que pagam se os venderem e, caso contrário, os devolvem], e as redes trabalham com um fluxo de 120 dias entre consignação e acerto, quando pagam. E você não consegue pagar nenhuma parte da cadeia com 120 dias. Na verdade, somente o autor, que recebe semestralmente. Essas dificuldades sempre vão existir, o que muda é o tamanho delas. Mas, no final, dá certo. Ou pelo menos tem dado 🙂

E quais são as partes boas?

O cheiro do livro.
O sorriso de um autor, o elogio do leitor.
Um e-mail carinhoso.
Um sonho realizado.
Fazer o que ama.
E sentir que está fazendo algo relevante para você e para os outros.

Como você enxerga o papel de uma editora numa cena literária como a brasileira?

Toda vez que um agente literário me oferece um livro, umas das primeiras frases do e-mail é: “Olha esse livro, Gustavo. Olha o potencial dele. No país X, que tem 5 milhões de habitantes, só lá, ele já vendeu 1 milhão de exemplares”. Ele só esquece de falar que o país X, é menor que o Rio de Janeiro e que provavelmente 99% da população com idade para ser, é alfabetizada. É aí que entra aquele que é, ou pelo menos deveria ser, o principal papel de uma editora: a educação. Temos um papel crucial na formação das pessoas e conseguimos fazer um pouco disso sem apoio.

A coleção Feminismos Plurais, que tem o renomado O que é lugar de fala, da Djamila Ribeiro, faz parte de uma missão editorial maior?

Faz. O reconhecimento da importância da multiplicidade de vozes. A coleção visa abordar em uma série de pequenos livros diversos aspectos e perspectivas dos feminismos, tendo como pilar principal mulheres negras e indígenas e homens negros como sujeitos políticos. Comumente, esses sujeitos são tratados como implícitos ou relegados a condição de “mero recorte” dentro de uma história única e excludente. Feminismos Plurais segue a responsabilidade histórica de romper silêncios. Tem dado certo, abrimos a pré-venda do quinto livro esse mês e já foram 35 mil exemplares impressos dos quatro livros da coleção.

E a parte gráfica da publicação de livros? O que é importante para você na hora de publicar?

Essa é, com certeza a parte mais divertida, da capa à escolha do papel. Procuramos fugir do óbvio, mesmo que, às vezes, com um orçamento curto. Tenho pra mim que a parte gráfica é o primeiro flerte com o leitor.

Que tipo de livros você sente falta de ver no país?

Bons livros de não-ficção. Existem coisas sensacionais ainda sem tradução. Tenho procurado muito em mercados não óbvios, e tenho encontrado muita coisa boa.
Historicamente, por uma questão de mercado mesmo, as editoras investem muito em ficção. Porque é o que mais vende.

Como é o processo de aquisição de livros da Letramento? O que você leva em consideração?

Esse ano, abrimos pela primeira vez uma temporada de originais. Foram mais de 300 livros recebidos, dos quais iremos publicar aproximadamente 40 até o fim do ano. Mas, geralmente, ou compramos os direitos através de um agente literário ou vêm por indicação.

E o autor? Quão envolvido é o autor durante o processo de publicação?

Na Letramento, o autor participa de todo o processo. Discutimos a revisão, projeto gráfico, capa, formato. Posso afirmar que nunca publicamos um livro sem que o autor tenha aprovado ou que ficasse satisfeito com alguma parte do processo. Entendo que o livro é o filho dele, e não sou eu que vai tomar todas as decisões sem que ele esteja de acordo.

Uma das grandes dificuldades do mercado do livro hoje é a divulgação e a distribuição. Como os livros da Letramento encontram seus leitores?

Isso daria duas páginas resposta rs. Hoje o nosso maior problema nem é mais a distribuição e sim a o marketing/divulgação dos livros. Como fui coordenador de logística de uma grande editora jurídica, já no início da Letramento consegui parceria com algumas distribuidoras. Mas as distribuidoras não fazem um papel ativo de vendas. Elas basicamente armazenam seus livros e ficam à espera da procura pelos clientes. Então, de dois anos pra cá, contratamos um representante comercial, que vai às livrarias apresentar os livros aos compradores e tirar os pedidos, que, em alguns casos, são entregues pelos distribuidores.
Ainda não conseguimos atingir todas as livrarias com todos os livros, então, nossas publicações têm modelos de distribuição. Algumas entram fisicamente nas lojas, outras somente no online.

Quais são as próximas publicações da Letramento?

Temos um planejamento de publicar mais 40 títulos agora no segundo semestre. Dentre eles, lançaremos em agosto mais um título da coleção Feminismos Plurais, O que é interseccionalidade?, por Carla Akotirene Santos e iremos inaugurar o Selo Sueli Carneiro com um livro da própria Sueli, Escritos de uma vida.
Publicaremos três traduções, uma do Finlandês, que conta a história da Europa em cervejas, O Superstar cérebro, da neurologista norueguesa Kaja Nordengen, que conta com um prefácio da prêmio nobel de neurologia, e o bestseller internacional Cercado por idiotas de Thomas Erikson.

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Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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