Ode às livrarias de rua

 Foto: Jez Timms/Unsplash

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Apoie sua livraria local. Como eu gostaria de poder andar pelas ruas de Belo Horizonte dando esse conselho para quem estivesse disposto a me ouvir. “Apoie sua livraria local”, eu repetiria, à exaustão, até que cada pessoa tivesse desenvolvido laços com alguma loja, pequena ou grande, em que livros selecionados são vendidos a quem dá o passo de atravessar o batente da porta, que, invariavelmente, dá para a rua. Infelizmente, porém, não posso bradar esse conselho por motivo de triste realidade: nem todo mundo tem uma livraria local.

Deveria. Assim como padaria, academia, sacolão, farmácia e supermercado, todo mundo deveria ter uma livraria perto de casa. A realidade em Belo Horizonte — duplamente verdade para a Grande BH — é uma escassez de livrarias locais. E olha que somos, surpreendentemente, a capital nacional de livrarias (pasme com a pesquisa de 2014). Mas elas ficam quase exclusivamente na região Centro-Sul, com dois pontos de ajuntamento: o Centro e a Savassi. Isso além dos shoppings.

Livraria local é aquele lugar que você dá uma passadinha depois do serviço, a caminho de casa, já cansado, só para ver se chegou alguma novidade. É onde você pode conversar sobre um personagem que persegue seus sonhos. É onde encontra seus vizinhos e indica um livro muito bom que você leu uns meses atrás e fala, calorosa e afetuosamente: “Lê mesmo, que aí a gente pode conversar”. Mas, salvo quem mora no Centro e na Savassi, quase não há quem tenha uma livraria local.

O jeito é adequar meu conselho.

Pois bem: apoie uma livraria de rua. Afinal, vivemos num eterno deslocar pela cidade, indo do Estoril ao Ipiranga, passando pela Savassi, com um desvio até o Mangabeiras. Alguma livraria de rua está no seu caminho, tenho certeza. Talvez mais de uma. Use essa liberdade para escolher qual será a sua. Pode ser que tenham uma seleção de livros que parece ter sido feita para você. Pode ter um livreiro bom de papo, que dá dicas selecionadíssimas, de deixar o algoritmo da Amazon com inveja. Pode ter uma agenda de eventos que reúne pessoas com quem você quer proximidade, promovendo conversas com gente cujo trabalho você admira. Descubra seu motivo de estar ali e apoie uma livraria de rua.

Mas no caso de ocorrer uma falta de identificação, permita-me sugerir uma visita à Rua da Literatura. Fica no ajuntamento Savassi, entre o megashopping Pátio e o minishopping Quinta Avenida. Mais precisamente, na rua Fernandes Tourinho. Quando for conhecê-las, comece pela Livraria Ouvidor, ali na esquina com a avenida Getúlio Vargas, onde a seleção, vasta, acolhe todo tipo de gosto. Além de uma seção infantil digna, encontram-se ali de obras literárias a ensaios filosóficos expostos em mesas em que os livros, ao contrário do que ocorre nas grandes redes, não ficam apertados como se disputassem espaço. Eles mais parecem estar exibindo seus atributos em busca de interessados. Na dúvida, converse com os funcionários. Além de Simone Pessoa, que parece ter lido tudo que está ali e orienta cada leitor a achar sua obra, há outros atendentes, sempre dispostos a bater um papo e sugerir leituras.

Na sequência, visite a Livraria Quixote. Se as mesinhas que ficam à porta estiverem abarrotadas de pessoas que parecem se conhecer, conversando e gargalhando empunhando livros recém-comprados, não se acanhe. É bom sinal: muita gente já adotou o lugar concebido por Alencar Perdigão, inclusive alguns figurões da cena literária mineira. Do lado de dentro, ocasionalmente mais tranquilo, passeie pelas estantes, altas e pequenas, e não deixe de olhar em cada cantinho. O espaço não é dos maiores, mas o uso dele é surpreendente. Parece caber o mundo inteiro ali. E, caso o desejo não seja pelo livro em si, mas pelas revistas literárias, não hesite: da Serrote à quatro cinco um, estão todas lá.

No quarteirão seguinte, a Rua da Literatura continua com a Livraria Scriptum. Aqueles livrões, os que ficam lindos na estante e na mesa de casa, estão todos lá, ao lado de uma coleção considerável de obras de psicanálise, além dos livros de poesia. A Scriptum de Welbert Belfort, o Betinho, é, inclusive, uma editora. As poetas Ana Martins Marques (atualmente publicada pela Companhia das Letras e Relicário) e Simone de Andrade Neves foram lançadas ali, num evento ocorrido entre os tais livrões — e cercadas de gente aberta a ler e sentir o que tinham a falar.

Se tivesse escrito esse texto em outra época, há poucos anos atrás, teria que aumentá-lo para incluir outras livrarias. Mas ali na região já fecharam as portas as icônicas Status, Livraria da Travessa e Mineiriana. Isso sem falar da Van Damme (leia Touareg!) e Floriano.

Por outro lado, a Savassi ganhou uma livraria, nascimento que merece registro. Bem batizada, a Livraria da Rua fica na Antônio de Albuquerque, esquina com a Levindo Lopes. Ainda não sei dizer qual é seu perfil, o empreendimento de Alexandre Machado abriu as portas há poucos meses. Mas já comecei a frequentar a livraria e devo dizer que é charmosíssimo uni-la com uma loja de vinhos — elas são autônomas, mas ligadas — e já planejo uma tarde de sábado de leitura e degustação.

E, só para terminar lembrando que essa cena literária belo-horizontina que tanto amo — e cujos alguns atores eu e a escritora Val Prochnow apresentaremos na parceria da revista Chama com o GUAJA — não existe se não houver gente interessada em ler e dialogar. Os Estados Unidos, lugar de onde importamos essa mania chata de matar livrarias, registrou um aumento de 35% no número de pequena livrarias entre 2009 e 2015, informou a newsletter Meio. E a Harvard Business School fez um artigo explicando como isso aconteceu, apesar da nefasta influência das vendas online. Tudo depende da comunidade adotar o local, do livreiro fazer boa curadoria e de os intelectuais promoverem eventos ali.

Em resumo, apoie uma livraria de rua.

Autor
Jornalista, com especialização em Publishing pela NYU e mestranda em Estudos de Linguagens pelo Cefet-MG. Já trabalhei na revista Ragga e nos jornais Estado de Minas e O Tempo, onde fui editora adjunta do caderno de Cultura e atualmente escrevo uma coluna semanal. Apaixonada por literatura, fundei a revista Chama, que publica novos autores belo-horizontinos.

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