Encontro com o livreiro: cinco livros LGBTQ imperdíveis

 

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Ainda comemorando os cinco anos recém-completados do GUAJA, é com grande responsa que compartilho cinco livros que abordam temáticas LGBTQ+ (Lésbicas, gays, bissexuais, trans and queers!). Ser bartender aqui é uma alegria e tanto: celebramos diariamente a diferença e o diálogo com muito respeito e harmonia. Não foi difícil formar este quinteto — árdua foi a tarefa de convocar somente cinco, pois o GUAJA para mim sempre foi assim, aberto e diverso. Ter a oportunidade de cultuar estes livros tantas vezes combatidos e censurados é prazer e força raros que só a resistência e o afeto podem nos oferecer:

Carol

A Patricia Highsmith é a minha escritora favorita. Ela é do Texas! E sua biografia, também lançada no Brasil, conta que sua vasta obra, se enfileirada, daria mais de quarenta e cinco metros! Fico simplesmente alucinado com seu estilo despretensioso que de repente nos leva a cenas inimagináveis. Seus thrillers criminais exalam elegância e suspense. Seus livros já foram ao menos uma dúzia de vezes ao cinema através de Win Wenders (O amigo americano, uma das muitas adaptações para sua quintologia do vilão protagonista Tom Ripley), François Truffaut (Pacto Sinistro, um filmaço!) e tantas outras adaptações igualmente interessantes. Carol traz em sua contracapa um aviso: antes deste livro, nenhum livro homossexual feminino ou masculino tinha final feliz.

Perdoem-me o spoiler, prometo não mais contar nenhum final. Mas nem sempre são felizes as histórias dos livros LGBTQs. Este mesmo foi recusado pela editora e a autora viu-se obrigada a lançá-lo por outra dois anos depois com um pseudônimo. Conta-se também que a autora recebia centenas de cartas de pessoas desabafando e agradecendo pelo romance. André Aciman, autor de Me chame pelo seu nome, conta atualmente história muito semelhante com relação a editoras e cartas vindas do público. Eu achei importante começar esta lista com um livro feliz, com um livro que também foi filme para indagar a vocês: Quantos filmes vêem por ano? E quantos livros lêem?

Gray de verdade

Logo na minha primeira noite no bar do GUAJA, encontrei a Ana que tinha no caixa e lia no intervalo O retrato de Dorian Gray. Meu livro favorito. Sim! É até complicado falar sobre este ícone. Oscar Wilde em seu único romance e a meu ver mais alto nível de sua obra, reflete sobre a beleza e os valores morais da sociedade com dandismos e aforismos que permanecem incrivelmente atuais. Quando entro no meu grindr penso no Dorian Gray, sempre! Oscar Wilde se vivo fosse hoje o que diria sobre nossos apps de encontros? Não seríamos todos através destas ferramentas Dorian Grays contemporâneos? Oscar Wilde e sua dupla vida de sofisticação e condenação antecede sua condição neste romance também tantas vezes adaptado ao cinema e ao público jovem (existe uma antiga edição no Brasil adaptada pela Clarice Lispector, que era fâ do confessa do romance). Na trama Dorian gray deseja que seu retrato envelheça e não ele, pois desta forma não testemunhará sua própria decadência enquanto o quadro encontra-se imaculado. Mas por alguma inexplicável magia ele tem seu pedido atendido e esta relação torna-se inversa, envelhecendo seu retrato e ele continuando impecavelmente belo e jovem.

O retrato de Dorian Gray teve mais de quinhentas palavras censuradas pelos editores sem consentimento do autor em sua primeira edição. Oscar Wilde foi acusado de imoral, perseguido e condenado a dois anos de cadeia por atentado ao pudor pouco tempo depois. Nem um escândalo sexual de gigantes proporções conseguiu calar sua genialidade que precisa ser celebrada sempre!

Baldwin

Este é um livro que ainda estou lendo, mas isto não é nada além de um desafio para livreiros. “Conheci” o James Baldwin logo esta nova edição chegou nas livrarias algumas semanas atrás. Depois do documentário Não sou seu negro concorrer ao Oscar ano passado, ele voltou a ser editado. (Barry Jenkins, diretor de Moonlight, já trabalha na adaptação de um romance dele para estrear em 2019)

Considerado um autor negro com histórias e público idem, este romance destaca-se e também foi recusado severamente pela editora. Tendo sido lançado anos depois. Na trama, David, um americano loiro está em Paris aguardando a noiva decidir se aceita ou não seu pedido de casamento, quando conhece o garçom Giovanni.

James Baldwin é um autor que nasceu no Harlem e viveu expatriado em Paris, teve um pai violento e alcoólatra e um padrasto pastor. Intelectual que militava contra o racismo, opressão sexual, encarceramento em massa, violência policial e institucional, invisibilidade… sua prosa nunca perde o alvo e tem o peso íntimo de um combatente. Há muito tempo mesmo eu não tinha uma descoberta tão impactante quanto este caro autor que já considero certamente dos meus favoritos.

Tragicomédia

Esta história de memórias gráficas começou com Fun Home. Alisson Bechdel ganhou o Wil Eisner em 2007 com esta autobiografia onde explora uma conturbada relação com o pai retraçando sua vida desde a infância. Sutil e poderoso, este quadrinho revela muito mais do que aparenta ser. Falar mais sobre sua trama seria spoiler. Alisson Bechdel é da Pensilvania, publicou entre 1983 e 2008 Dykes to watch out for, uma série de tirinhas bastante vanguardista.

Eu considero quadrinho um gênero literário, cresci com a cara enfiada dentro da banca de jornal. É chato quadrinho careta, como tem machismo e ranço misógino neste meio… Este foi meu primeiro quadrinho gay. Foi ao mesmo tempo perturbador e consolador encontrar esta história tão absurdamente possível. Este ano (o de agora, 2018) também foi meu primeiro FIQ! Foi bom ver como isso melhorou e temos muitas mulheres trabalhando no comando de lá e bastante diversidade. A editora Autêntica com o selo Nemo tem feito um belíssimo trabalho nesse sentido, confiram também!

Uivo

Ginsberg era o mago no RPG beat. Seus versos são organicamente elétricos e proféticos como os versos de Rimbaud e Whitman. Ginsberg era a favor da legalizaçao da maconha. Gisnberg era um bear e tanto. Ginsberg mandava nudes. Ginsberg era migo da Angela Davis, da Patti Smith, do Bob Dylan e do Jean Genet. Parça do Bill Burroughs e até do enrustido Jack Kerouac. Ginsberg era budista. Ginsberg praticava ioga, desapego material e desobediência civil. Meu bear… beat mais querido. Não seja um hipster fuleiro, leia este livro!

Quando lançado, Uivo foi recolhido pela polícia de São Francisco e teve seu editor (Lawrence Ferllingheti, o movimento beat tem muitos autores legais!) processado por obscenidade. Foi um ano de processo com direito a prisão de um livreiro até que foi absolvido. Poemas como América e Uivo permanecem incrivelmente atuais. Eu penso que este poema motivou bastante termos outros autores americanos dos anos cinquenta nesta lista. Um precioso alerta sobre tudo o que nossa comunidade lgbtq já lutou e conquistou recentemente. Não devemos jamais descansar, nem nos permitir a desinformação, sejamos cidadãos plenamente cientes de nossa história, nossos deveres, valores e desafios. Pois como a burrice, o preconceito é eterno.

Tenham sempre ao alcance das mãos um bom drink e um bom livro. Parabéns, vida longa e próspera ao GUAJA com todas as cores sempre!

Os livros desta lista — e outros dois brasileiros de bônus que ficaram de fora – estão à venda no GUAJA!

Guilherme Leite é bartender e gosta muito de Mojito. Estudou design de produto e gráfico na UEMG. Atua há mais de dez anos como livreiro em diversas frentes do mercado editorial mineiro.

Autor
Guilherme Leite é bartender e gosta muito de Mojito. Estudou design de produto e gráfico na UEMG. Atua há mais de dez anos como livreiro em diversas frentes do mercado editorial mineiro.

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